CARTA DE VENEZA – CHEGADAS E PARTIDAS – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Chegar a Veneza pode não ser tão deslumbrante como se espera e, pelo contrário, exigir algum tempo para que a cidade se revele plenamente; mas, para quem tem a oportunidade de a habitar e descobrir-lhe os encantos, dizer-lhe adeus é sempre difícil. Há pouco tempo Il Gazzettino (um dos diários locais) publicou um texto que, na sua simplicidade, revela as intimidades do convívio com a cidade. Foi escrito por Allegra Panichi, uma jovem de Florença que estudou durante três anos na Universidade Ca’ Foscari e que, na véspera de partir para outras aventuras ao abrigo do programa Erasmus, quis homenagear a cidade. Queremos divulgar aqui este arrivederci a Veneza, que é também um convite a conhecer este lugar mágico para além das imagens de postal ilustrado.

“Veneza é uma mulher. Uma daquelas mulheres atraentes que seduzem ao primeiro olhar. É a mulher que se olha nos olhos com a consciência de que nos vamos perder dentro da sua vastidão. É aquele tipo de mulher que se deixa descobrira. panichi apenas por poucos: só por quem o quer realmente. Porque todos a vêem, mas poucos podem realmente descobri-la. Veneza é aquele tipo de mulher que nunca vamos compreender, mas é exatamente aquele tipo de mulher por quem sabemos que nos vamos apaixonar. Porquê? Se calhar porque no fundo sabemos que nunca a vamos ter, porque nunca irá conceder-se a ninguém. Provocar-nos-á tonturas, tirar-nos-á o fôlego, pôr-nos-á o coração aos pulos, enrolar-nos-á o estômago, far-nos-á faltar o chão debaixo dos pés só de olharmos para ela, só de a lembrar, só de pensarmos nela. Veneza é aquele tipo de mulher que nos fará falta a ponto de destruir-nos o fígado, de magoar, mas na qual iremos pensar sempre porque não poderia ser de outra forma. Porque Veneza é magia, é emoção, é um conjunto de imagens, luzes, sombras e sensações. Veneza é aquele tipo de mulher que nunca deixará de nos surpreender, que nunca nos cansaremos de olhar, de ouvir, de amar. Veneza é aquele tipo de mulher que nunca estaremos prontos a deixar.

Dar-nos-á muito, mas exigirá em troca cada bocado do nosso coração. Veneza é Mario, o avô que nunca tive, que com um ditado veneziano e um cálice de vinho branco sempre conseguiu animar-me. Veneza é o mercado de Rialto que às seis horas começa a acordar com os primeiros raios do sol, quando a cidade ainda está entorpecida pela calma noturna, quando ainda não se voltou para casa desde a noite anterior. Veneza é o riso das gaivotas que sobressaem nos céus que cuidam dela. Veneza é o céu estrelado que se pode ver em qualquer parte da cidade. Veneza é a sirene da ‘água alta’ que nos surpreende sempre no momento errado. Veneza é a quietude das horas noturnas. Veneza é a hilaridade de Campo Santa Margherita onde os jovens se encontram e juntos compartilham pedaços de vida. Veneza é o Mago G: etapa obrigatória de todas as noitadas. Veneza é Franco, o editor, que do alto da sua experiência sempre consegue surpreender-nos com algum conto sobre ela. Veneza é o spritz que propicia conversas de qualidade.

Veneza é a beleza em cada pôr do sol, em cada amanhecer. Veneza é uma canção de que não conheces a letra mas cuja melodia não sai da cabeça. Uma melodia que ribomba na cabeça como se fosse a única coisa que jamais se ouviu.

 Veneza é amor, porque desafio qualquer pessoa a não apaixonar-se aqui, por alguém, ou pela própria Veneza.”

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