O MAPA (A saga do anadel) .- Sassari – 13 – por Carlos Loures

 

Sassari, Sardenha, 1468.

 

            – Alonso, mira, tú eres un castellano! – Dizia-lhe o pai com a sua voz de comando.

– Antòni, piuttosto che castigliano o aragonese, tu sei un sardo! – Impunha-lhe a mãe, no tom lamentoso que tanto o irritava.

            – Alonso, tu ets un súbdit aragonès! Parla català! – Gritava-lhe na escola o irascível padre Josep. E, no fim das aulas era forçado a rezar na língua do reino de Aragão: Pare nostre, que esteu en el cel, sigui santificat el vostre nom. Vingui a nosaltres el vostre Regne. Faci´s la vostra voluntat, així a la terra com es fa en el cel…

            Alonso Antòni Díaz Ruju era filho do sargento mayor Federico Díaz, um castelhano integrado no tércio da Coroa de Aragão estacionado em Sassari, e de Marianna Ruju, uma jovem sarda que, como tantas outras se deixara seduzir por um ocupante. Tinha agora oito anos e, quando era mais pequeno, não entendia porque é que as crianças sardas não brincavam com ele, nem por que razão ele e a mãe tinham de viver confinados em casas quase encostadas à muralha do castelo aragonês e, tal como as demais famílias de militares da guarnição, eram permanentemente protegidos por soldados aragoneses ou castelhanos. Diziam-lhe sempre que era perigoso sair daquele perímetro de protecção. Das janelas de sua casa via os campanários de San Pietro de Silki, da igreja de San Michele de Plaianu, de San Donato… Ouvia o bulício da cidade e desejava poder vê-la sem ser rodeado de alabardeiros, de besteiros com as armas apontadas a gente que o olhava a ele e aos outros invasores com silencioso ódio.

O pai lembrava-lhe que fora baptizado por um frade dominicano, frei Alonso de Ojeda que de visita a Sassari, não só lhe ministrara o sacramento do baptismo como, a rogo do sargento, aceitara ser seu padrinho. O frade nascera, como Federico, na cidade andaluza de Carmona, sendo ainda primos afastados. Na escola, o rapaz aprendia catalão, castelhano e latim. Porém, em casa, a mãe, quando o pai estava de serviço à guarnição, obrigava-o a falar sardo ou toscano. À noite, antes de o deitar, forçava-o a rezar o padre-nosso em sardo: Babbu nostru qui ses in sos chelos, sanctificadu siat su nomem tu. Benzat a nois su regnu tou, facta sai sa voluntad tua, comente in su chelu et in su tierra… Para Alonso Antòni, era um tormento ter que falar aquele dialecto tão áspero como a escarpada paisagem da ilha. As crianças, sobretudo os rapazes, gostam mais de vencedores do que de vencidos e ali, bastava olhar, e ver quem tinha ganho e quem tinha perdido.

            Aos poucos, foi apoderando-se dele uma grande repugnância por aquela gente que vivia pelas ruas tortuosas da cidade e que o hostilizava e a outros filhos de aragoneses ou castelhanos, a quem chamavam bastardos. Se as mães eram sardas, eram chamadas as putas dos soldados, mesmo que, como acontecera com Marianna, Federico, sabendo-a grávida, a tivesse desposado na igreja da fortaleza. A própria família a votara ao ostracismo. Pai, mãe, irmãos, ninguém a quisera voltar a receber. Para além disso, no seio da comunidade dos ocupantes, os aragoneses segregavam os oriundos do Reino de Castela. As senhoras catalãs ou casadas com catalães, mostravam um desprezo ostensivo pelos castelhanos. Na escola sucedia o mesmo, pelo que a aversão aos sardos se tornou extensiva aos catalães e aragoneses.

            Uma tarde, com Cayetano, um companheiro da escola também filho de um soldado de Castela e Leão, conseguiu iludir a vigilância das sentinelas e transpondo um troço de muralha derruído (vestígio da última rebelião), desceram até ao centro de Sassari, chegando junto do Duomo sem problemas. Foi aí que se cruzaram com um grupo de rapazes sardos, que os rodearam e lhes começaram a falar no seu dialecto. Com o nervoso, Cayetano respondeu em castelhano. Começaram logo a bater-lhes selvaticamente. Estavam em frente da Igreja de Santa Maria de Belém e fiéis que saíam da missa, impediram que os rapazes sardos os tivessem morto. Muito maltratados, foram levados por um velho numa carroça até à entrada do castelo. A sentinela queria prender o homem. Alonso ficou em silêncio, mas Cayetano explicou o que se tinha passado. Sem responder aos agradecimentos dos soldados que tinham acorrido, o velho sardo virou-lhes costas e voltou para a cidade, levando as duas mulas pela arreata.

            Embora Marianna, que o tratou carinhosamente dos ferimentos, tenha tentado justificar o acto dos garotos sardos, Alonso sentiu que a animosidade que sentia pelos naturais da ilha, se transformava em ódio. Já não lamentava que os sardos não quisessem brincar com ele. A tese do pai sobre a sua castelhanidade prevaleceu sobre a da mãe, que lhe queria impor a odiosa condição de sardo. Alonso, com oito anos, decidiu que iria ser castelhano. No seu íntimo não se travou qualquer luta, não houve qualquer conflito. Agora tinha a certeza daquilo que era:

            – Yo soy castellano! Hablame en mi lengua! – Respondia quando a mãe tentava voltar a dar-lhe lições de sardo ou de toscano. Passou a comportar-se em casa como um ocupante, um invasor. A mãe e as duas criadas sardas tinham de lhe obedecer, sob a ameaça de se queixar ao sargento Díaz. Falando um castelhano perfeito, contara ao pai que Marianna queria que fosse sardo e procurava, a todo o custo, obrigá-lo a falar o rude dialecto da ilha. Pela primeira vez, Federico teve uma grande zanga com a esposa. Ameaçou-a mesmo de expulsão, caso persistisse em falar sardo com o filho. Berrou-lhe:

            – Con el niño, tienes que hablar en lengua de cristianos! – Marianna que, se o marido a expulsasse não seria recebida pela família, restando-lhe a mendicidade ou a prostituição, curvou a cabeça engolindo as lágrimas. Alonso sorria. Vencera. O destino dos sardos era obedecer. À noite a voz do rapaz sobrepunha-se à da mãe e criadas, Inisedda e Lissurza, que, em voz murmurada, rezavam no seu idioma. Gritava: Padre nuestro que estás en el cielo, santificado sea tu Nombre. Venga a nosotros tu reino, hágase tu voluntad en la Tierra como en el cielo…

 Os Castelhanos venciam sempre. Pela vida fora, Alonso iria combater com toda a sua alma, todos os que se opusessem a Castela. A oposição ao domínio de Castela era, para ele, na Sardenha, em Aragão e em qualquer lugar do mundo, um crime que justificava os mais duros métodos de tortura e mesmo a pena de morte. Em todo o caso, quer a sua parcela de sangue sardo, quer o que, contra vontade, aprendeu do idioma da ilha em que nasceu, foi-lhe útil na sua vida. O catalão e o toscano também lhe iriam ser bastante proveitosos.

*

Porém, por detrás desta guerra linguística e da batalha dos padre-nossos, estava lutas, bem mais duras.

            Na faixa oriental da península Ibérica, o reino de Aragão, alcançava no século XIII, no reinado de Pedro III, uma grande expansão mediterrânica, afrontando a hegemonia pisana, genovesa e veneziana no que se refere ao comércio das mercadorias orientais. A chamada rota das ilhas, escalando as Baleares, a Sardenha, a Sicília, a Grécia e Chipre, ligava Barcelona a Beirute. A Sardenha, pela sua posição estratégica, constituía um elo indispensável na cadeia deste ousado projecto mercantil. Num primeiro passo, Pedro III casou em 1262 casou com Constanza, a filha do rei Manfredo da Sicília. Em 1297, o papa Bonifácio VIII atribuiu a soberania da ilha a Aragão, cuja posse se consumou apenas em 1324 quando as tropas aragonesas invadiram e ocuparam a Sardenha, tomando o castelo de Cagliari. Criava-se o Regnum Sardiniae et Corsicae, cuja coroa foi colocada na cabeça de João II de Aragão, submergindo os reinos autóctones de Arborea, Calari, Gallura e Torres. Após um século e meio de lutas, de rebeliões sufocadas, nova ameaça espreitava o domínio catalão-aragonês, o ressurgimento do ideal independentista que iria desembocar, em 1470, na revolta liderada por Leonardo de Alagòn e que se prolongaria quase até final do século.

            Como se vê, não era por acaso que Marianna, Federico e o padre Josep queriam obrigar Alonso a falar os seus idiomas. A luta pelo poder, travava-se também no território do corpo e da mente do pequeno sardo (ou castelhano, ou aragonês…).


 

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Sassari, Sardenha, 1468.

 

– Alonso, mira, tú eres un castellano! – Dizia-lhe o pai com a sua voz de comando.

– Antòni, piuttosto che castigliano o aragonese, tu sei un sardo! – Impunha-lhe a mãe, no tom lamentoso que tanto o irritava.

– Alonso, tu ets un súbdit aragonès! Parla català! – Gritava-lhe na escola o irascível padre Josep. E, no fim das aulas era forçado a rezar na língua do reino de Aragão: Pare nostre, que esteu en el cel, sigui santificat el vostre nom. Vingui a nosaltres el vostre Regne. Faci´s la vostra voluntat, així a la terra com es fa en el cel…

Alonso Antòni Díaz Ruju era filho do sargento mayor Federico Díaz, um castelhano integrado no tércio da Coroa de Aragão estacionado em Sassari, e de Marianna Ruju, uma jovem sarda que, como tantas outras se deixara seduzir por um ocupante. Tinha agora oito anos e, quando era mais pequeno, não entendia porque é que as crianças sardas não brincavam com ele, nem por que razão ele e a mãe tinham de viver confinados em casas quase encostadas à muralha do castelo aragonês e, tal como as demais famílias de militares da guarnição, eram permanentemente protegidos por soldados aragoneses ou castelhanos. Diziam-lhe sempre que era perigoso sair daquele perímetro de protecção. Das janelas de sua casa via os campanários de San Pietro de Silki, da igreja de San Michele de Plaianu, de San Donato… Ouvia o bulício da cidade e desejava poder vê-la sem ser rodeado de alabardeiros, de besteiros com as armas apontadas a gente que o olhava a ele e aos outros invasores com silencioso ódio.

O pai lembrava-lhe que fora baptizado por um frade dominicano, frei Alonso de Ojeda que de visita a Sassari, não só lhe ministrara o sacramento do baptismo como, a rogo do sargento, aceitara ser seu padrinho. O frade nascera, como Federico, na cidade andaluza de Carmona, sendo ainda primos afastados. Na escola, o rapaz aprendia catalão, castelhano e latim. Porém, em casa, a mãe, quando o pai estava de serviço à guarnição, obrigava-o a falar sardo ou toscano. À noite, antes de o deitar, forçava-o a rezar o padre-nosso em sardo: Babbu nostru qui ses in sos chelos, sanctificadu siat su nomem tu. Benzat a nois su regnu tou, facta sai sa voluntad tua, comente in su chelu et in su tierra… Para Alonso Antòni, era um tormento ter que falar aquele dialecto tão áspero como a escarpada paisagem da ilha. As crianças, sobretudo os rapazes, gostam mais de vencedores do que de vencidos e ali, bastava olhar, e ver quem tinha ganho e quem tinha perdido.

Aos poucos, foi apoderando-se dele uma grande repugnância por aquela gente que vivia pelas ruas tortuosas da cidade e que o hostilizava e a outros filhos de aragoneses ou castelhanos, a quem chamavam bastardos. Se as mães eram sardas, eram chamadas as putas dos soldados, mesmo que, como acontecera com Marianna, Federico, sabendo-a grávida, a tivesse desposado na igreja da fortaleza. A própria família a votara ao ostracismo. Pai, mãe, irmãos, ninguém a quisera voltar a receber. Para além disso, no seio da comunidade dos ocupantes, os aragoneses segregavam os oriundos do Reino de Castela. As senhoras catalãs ou casadas com catalães, mostravam um desprezo ostensivo pelos castelhanos. Na escola sucedia o mesmo, pelo que a aversão aos sardos se tornou extensiva aos catalães e aragoneses.

Uma tarde, com Cayetano, um companheiro da escola também filho de um soldado de Castela e Leão, conseguiu iludir a vigilância das sentinelas e transpondo um troço de muralha derruído (vestígio da última rebelião), desceram até ao centro de Sassari, chegando junto do Duomo sem problemas. Foi aí que se cruzaram com um grupo de rapazes sardos, que os rodearam e lhes começaram a falar no seu dialecto. Com o nervoso, Cayetano respondeu em castelhano. Começaram logo a bater-lhes selvaticamente. Estavam em frente da Igreja de Santa Maria de Belém e fiéis que saíam da missa, impediram que os rapazes sardos os tivessem morto. Muito maltratados, foram levados por um velho numa carroça até à entrada do castelo. A sentinela queria prender o homem. Alonso ficou em silêncio, mas Cayetano explicou o que se tinha passado. Sem responder aos agradecimentos dos soldados que tinham acorrido, o velho sardo virou-lhes costas e voltou para a cidade, levando as duas mulas pela arreata.

Embora Marianna, que o tratou carinhosamente dos ferimentos, tenha tentado justificar o acto dos garotos sardos, Alonso sentiu que a animosidade que sentia pelos naturais da ilha, se transformava em ódio. Já não lamentava que os sardos não quisessem brincar com ele. A tese do pai sobre a sua castelhanidade prevaleceu sobre a da mãe, que lhe queria impor a odiosa condição de sardo. Alonso, com oito anos, decidiu que iria ser castelhano. No seu íntimo não se travou qualquer luta, não houve qualquer conflito. Agora tinha a certeza daquilo que era:

– Yo soy castellano! Hablame en mi lengua! – Respondia quando a mãe tentava voltar a dar-lhe lições de sardo ou de toscano. Passou a comportar-se em casa como um ocupante, um invasor. A mãe e as duas criadas sardas tinham de lhe obedecer, sob a ameaça de se queixar ao sargento Díaz. Falando um castelhano perfeito, contara ao pai que Marianna queria que fosse sardo e procurava, a todo o custo, obrigá-lo a falar o rude dialecto da ilha. Pela primeira vez, Federico teve uma grande zanga com a esposa. Ameaçou-a mesmo de expulsão, caso persistisse em falar sardo com o filho. Berrou-lhe:

– Con el niño, tienes que hablar en lengua de cristianos! – Marianna que, se o marido a expulsasse não seria recebida pela família, restando-lhe a mendicidade ou a prostituição, curvou a cabeça engolindo as lágrimas. Alonso sorria. Vencera. O destino dos sardos era obedecer. À noite a voz do rapaz sobrepunha-se à da mãe e criadas, Inisedda e Lissurza, que, em voz murmurada, rezavam no seu idioma. Gritava: Padre nuestro que estás en el cielo, santificado sea tu Nombre. Venga a nosotros tu reino, hágase tu voluntad en la Tierra como en el cielo…

Os Castelhanos venciam sempre. Pela vida fora, Alonso iria combater com toda a sua alma, todos os que se opusessem a Castela. A oposição ao domínio de Castela era, para ele, na Sardenha, em Aragão e em qualquer lugar do mundo, um crime que justificava os mais duros métodos de tortura e mesmo a pena de morte. Em todo o caso, quer a sua parcela de sangue sardo, quer o que, contra vontade, aprendeu do idioma da ilha em que nasceu, foi-lhe útil na sua vida. O catalão e o toscano também lhe iriam ser bastante proveitosos.

*

Porém, por detrás desta guerra linguística e da batalha dos padre-nossos, estava lutas, bem mais duras.

Na faixa oriental da península Ibérica, o reino de Aragão, alcançava no século XIII, no reinado de Pedro III, uma grande expansão mediterrânica, afrontando a hegemonia pisana, genovesa e veneziana no que se refere ao comércio das mercadorias orientais. A chamada rota das ilhas, escalando as Baleares, a Sardenha, a Sicília, a Grécia e Chipre, ligava Barcelona a Beirute. A Sardenha, pela sua posição estratégica, constituía um elo indispensável na cadeia deste ousado projecto mercantil. Num primeiro passo, Pedro III casou em 1262 casou com Constanza, a filha do rei Manfredo da Sicília. Em 1297, o papa Bonifácio VIII atribuiu a soberania da ilha a Aragão, cuja posse se consumou apenas em 1324 quando as tropas aragonesas invadiram e ocuparam a Sardenha, tomando o castelo de Cagliari. Criava-se o Regnum Sardiniae et Corsicae, cuja coroa foi colocada na cabeça de João II de Aragão, submergindo os reinos autóctones de Arborea, Calari, Gallura e Torres. Após um século e meio de lutas, de rebeliões sufocadas, nova ameaça espreitava o domínio catalão-aragonês, o ressurgimento do ideal independentista que iria desembocar, em 1470, na revolta liderada por Leonardo de Alagòn e que se prolongaria quase até final do século.

            Como se vê, não era por acaso que Marianna, Federico e o padre Josep queriam obrigar Alonso a falar os seus idiomas. A luta pelo poder, travava-se também no território do corpo e da mente do pequeno sardo (ou castelhano, ou aragonês…).


 

Sassari, Sardenha, 1468.

– Alonso, mira, tú eres un castellano! – Dizia-lhe o pai com a sua voz de comando.
– Antòni, piuttosto che castigliano o aragonese, tu sei un sardo! – Impunha-lhe a mãe, no tom lamentoso que tanto o irritava.
– Alonso, tu ets un súbdit aragonès! Parla català! – Gritava-lhe na escola o irascível padre Josep. E, no fim das aulas era forçado a rezar na língua do reino de Aragão: Pare nostre, que esteu en el cel, sigui santificat el vostre nom. Vingui a nosaltres el vostre Regne. Faci´s la vostra voluntat, així a la terra com es fa en el cel…
Alonso Antòni Díaz Ruju era filho do sargento mayor Federico Díaz, um castelhano integrado no tércio da Coroa de Aragão estacionado em Sassari, e de Marianna Ruju, uma jovem sarda que, como tantas outras se deixara seduzir por um ocupante. Tinha agora oito anos e, quando era mais pequeno, não entendia porque é que as crianças sardas não brincavam com ele, nem por que razão ele e a mãe tinham de viver confinados em casas quase encostadas à muralha do castelo aragonês e, tal como as demais famílias de militares da guarnição, eram permanentemente protegidos por soldados aragoneses ou castelhanos. Diziam-lhe sempre que era perigoso sair daquele perímetro de protecção. Das janelas de sua casa via os campanários de San Pietro de Silki, da igreja de San Michele de Plaianu, de San Donato… Ouvia o bulício da cidade e desejava poder vê-la sem ser rodeado de alabardeiros, de besteiros com as armas apontadas a gente que o olhava a ele e aos outros invasores com silencioso ódio.
O pai lembrava-lhe que fora baptizado por um frade dominicano, frei Alonso de Ojeda que de visita a Sassari, não só lhe ministrara o sacramento do baptismo como, a rogo do sargento, aceitara ser seu padrinho. O frade nascera, como Federico, na cidade andaluza de Carmona, sendo ainda primos afastados. Na escola, o rapaz aprendia catalão, castelhano e latim. Porém, em casa, a mãe, quando o pai estava de serviço à guarnição, obrigava-o a falar sardo ou toscano. À noite, antes de o deitar, forçava-o a rezar o padre-nosso em sardo: Babbu nostru qui ses in sos chelos, sanctificadu siat su nomem tu. Benzat a nois su regnu tou, facta sai sa voluntad tua, comente in su chelu et in su tierra… Para Alonso Antòni, era um tormento ter que falar aquele dialecto tão áspero como a escarpada paisagem da ilha. As crianças, sobretudo os rapazes, gostam mais de vencedores do que de vencidos e ali, bastava olhar, e ver quem tinha ganho e quem tinha perdido.
Aos poucos, foi apoderando-se dele uma grande repugnância por aquela gente que vivia pelas ruas tortuosas da cidade e que o hostilizava e a outros filhos de aragoneses ou castelhanos, a quem chamavam bastardos. Se as mães eram sardas, eram chamadas as putas dos soldados, mesmo que, como acontecera com Marianna, Federico, sabendo-a grávida, a tivesse desposado na igreja da fortaleza. A própria família a votara ao ostracismo. Pai, mãe, irmãos, ninguém a quisera voltar a receber. Para além disso, no seio da comunidade dos ocupantes, os aragoneses segregavam os oriundos do Reino de Castela. As senhoras catalãs ou casadas com catalães, mostravam um desprezo ostensivo pelos castelhanos. Na escola sucedia o mesmo, pelo que a aversão aos sardos se tornou extensiva aos catalães e aragoneses.
Uma tarde, com Cayetano, um companheiro da escola também filho de um soldado de Castela e Leão, conseguiu iludir a vigilância das sentinelas e transpondo um troço de muralha derruído (vestígio da última rebelião), desceram até ao centro de Sassari, chegando junto do Duomo sem problemas. Foi aí que se cruzaram com um grupo de rapazes sardos, que os rodearam e lhes começaram a falar no seu dialecto. Com o nervoso, Cayetano respondeu em castelhano. Começaram logo a bater-lhes selvaticamente. Estavam em frente da Igreja de Santa Maria de Belém e fiéis que saíam da missa, impediram que os rapazes sardos os tivessem morto. Muito maltratados, foram levados por um velho numa carroça até à entrada do castelo. A sentinela queria prender o homem. Alonso ficou em silêncio, mas Cayetano explicou o que se tinha passado. Sem responder aos agradecimentos dos soldados que tinham acorrido, o velho sardo virou-lhes costas e voltou para a cidade, levando as duas mulas pela arreata.
Embora Marianna, que o tratou carinhosamente dos ferimentos, tenha tentado justificar o acto dos garotos sardos, Alonso sentiu que a animosidade que sentia pelos naturais da ilha, se transformava em ódio. Já não lamentava que os sardos não quisessem brincar com ele. A tese do pai sobre a sua castelhanidade prevaleceu sobre a da mãe, que lhe queria impor a odiosa condição de sardo. Alonso, com oito anos, decidiu que iria ser castelhano. No seu íntimo não se travou qualquer luta, não houve qualquer conflito. Agora tinha a certeza daquilo que era:
– Yo soy castellano! Hablame en mi lengua! – Respondia quando a mãe tentava voltar a dar-lhe lições de sardo ou de toscano. Passou a comportar-se em casa como um ocupante, um invasor. A mãe e as duas criadas sardas tinham de lhe obedecer, sob a ameaça de se queixar ao sargento Díaz. Falando um castelhano perfeito, contara ao pai que Marianna queria que fosse sardo e procurava, a todo o custo, obrigá-lo a falar o rude dialecto da ilha. Pela primeira vez, Federico teve uma grande zanga com a esposa. Ameaçou-a mesmo de expulsão, caso persistisse em falar sardo com o filho. Berrou-lhe:
– Con el niño, tienes que hablar en lengua de cristianos! – Marianna que, se o marido a expulsasse não seria recebida pela família, restando-lhe a mendicidade ou a prostituição, curvou a cabeça engolindo as lágrimas. Alonso sorria. Vencera. O destino dos sardos era obedecer. À noite a voz do rapaz sobrepunha-se à da mãe e criadas, Inisedda e Lissurza, que, em voz murmurada, rezavam no seu idioma. Gritava: Padre nuestro que estás en el cielo, santificado sea tu Nombre. Venga a nosotros tu reino, hágase tu voluntad en la Tierra como en el cielo…
Os Castelhanos venciam sempre. Pela vida fora, Alonso iria combater com toda a sua alma, todos os que se opusessem a Castela. A oposição ao domínio de Castela era, para ele, na Sardenha, em Aragão e em qualquer lugar do mundo, um crime que justificava os mais duros métodos de tortura e mesmo a pena de morte. Em todo o caso, quer a sua parcela de sangue sardo, quer o que, contra vontade, aprendeu do idioma da ilha em que nasceu, foi-lhe útil na sua vida. O catalão e o toscano também lhe iriam ser bastante proveitosos.
*
Porém, por detrás desta guerra linguística e da batalha dos padre-nossos, estava lutas, bem mais duras.
Na faixa oriental da península Ibérica, o reino de Aragão, alcançava no século XIII, no reinado de Pedro III, uma grande expansão mediterrânica, afrontando a hegemonia pisana, genovesa e veneziana no que se refere ao comércio das mercadorias orientais. A chamada rota das ilhas, escalando as Baleares, a Sardenha, a Sicília, a Grécia e Chipre, ligava Barcelona a Beirute. A Sardenha, pela sua posição estratégica, constituía um elo indispensável na cadeia deste ousado projecto mercantil. Num primeiro passo, Pedro III casou em 1262 casou com Constanza, a filha do rei Manfredo da Sicília. Em 1297, o papa Bonifácio VIII atribuiu a soberania da ilha a Aragão, cuja posse se consumou apenas em 1324 quando as tropas aragonesas invadiram e ocuparam a Sardenha, tomando o castelo de Cagliari. Criava-se o Regnum Sardiniae et Corsicae, cuja coroa foi colocada na cabeça de João II de Aragão, submergindo os reinos autóctones de Arborea, Calari, Gallura e Torres. Após um século e meio de lutas, de rebeliões sufocadas, nova ameaça espreitava o domínio catalão-aragonês, o ressurgimento do ideal independentista que iria desembocar, em 1470, na revolta liderada por Leonardo de Alagòn e que se prolongaria quase até final do século.
Como se vê, não era por acaso que Marianna, Federico e o padre Josep queriam obrigar Alonso a falar os seus idiomas. A luta pelo poder, travava-se também no território do corpo e da mente do pequeno sardo (ou castelhano, ou aragonês…).
10

Sassari, Sardenha, 1468.

 

– Alonso, mira, tú eres un castellano! – Dizia-lhe o pai com a sua voz de comando.

– Antòni, piuttosto che castigliano o aragonese, tu sei un sardo! – Impunha-lhe a mãe, no tom lamentoso que tanto o irritava.

– Alonso, tu ets un súbdit aragonès! Parla català! – Gritava-lhe na escola o irascível padre Josep. E, no fim das aulas era forçado a rezar na língua do reino de Aragão: Pare nostre, que esteu en el cel, sigui santificat el vostre nom. Vingui a nosaltres el vostre Regne. Faci´s la vostra voluntat, així a la terra com es fa en el cel…

Alonso Antòni Díaz Ruju era filho do sargento mayor Federico Díaz, um castelhano integrado no tércio da Coroa de Aragão estacionado em Sassari, e de Marianna Ruju, uma jovem sarda que, como tantas outras se deixara seduzir por um ocupante. Tinha agora oito anos e, quando era mais pequeno, não entendia porque é que as crianças sardas não brincavam com ele, nem por que razão ele e a mãe tinham de viver confinados em casas quase encostadas à muralha do castelo aragonês e, tal como as demais famílias de militares da guarnição, eram permanentemente protegidos por soldados aragoneses ou castelhanos. Diziam-lhe sempre que era perigoso sair daquele perímetro de protecção. Das janelas de sua casa via os campanários de San Pietro de Silki, da igreja de San Michele de Plaianu, de San Donato… Ouvia o bulício da cidade e desejava poder vê-la sem ser rodeado de alabardeiros, de besteiros com as armas apontadas a gente que o olhava a ele e aos outros invasores com silencioso ódio.

O pai lembrava-lhe que fora baptizado por um frade dominicano, frei Alonso de Ojeda que de visita a Sassari, não só lhe ministrara o sacramento do baptismo como, a rogo do sargento, aceitara ser seu padrinho. O frade nascera, como Federico, na cidade andaluza de Carmona, sendo ainda primos afastados. Na escola, o rapaz aprendia catalão, castelhano e latim. Porém, em casa, a mãe, quando o pai estava de serviço à guarnição, obrigava-o a falar sardo ou toscano. À noite, antes de o deitar, forçava-o a rezar o padre-nosso em sardo: Babbu nostru qui ses in sos chelos, sanctificadu siat su nomem tu. Benzat a nois su regnu tou, facta sai sa voluntad tua, comente in su chelu et in su tierra… Para Alonso Antòni, era um tormento ter que falar aquele dialecto tão áspero como a escarpada paisagem da ilha. As crianças, sobretudo os rapazes, gostam mais de vencedores do que de vencidos e ali, bastava olhar, e ver quem tinha ganho e quem tinha perdido.

Aos poucos, foi apoderando-se dele uma grande repugnância por aquela gente que vivia pelas ruas tortuosas da cidade e que o hostilizava e a outros filhos de aragoneses ou castelhanos, a quem chamavam bastardos. Se as mães eram sardas, eram chamadas as putas dos soldados, mesmo que, como acontecera com Marianna, Federico, sabendo-a grávida, a tivesse desposado na igreja da fortaleza. A própria família a votara ao ostracismo. Pai, mãe, irmãos, ninguém a quisera voltar a receber. Para além disso, no seio da comunidade dos ocupantes, os aragoneses segregavam os oriundos do Reino de Castela. As senhoras catalãs ou casadas com catalães, mostravam um desprezo ostensivo pelos castelhanos. Na escola sucedia o mesmo, pelo que a aversão aos sardos se tornou extensiva aos catalães e aragoneses.

Uma tarde, com Cayetano, um companheiro da escola também filho de um soldado de Castela e Leão, conseguiu iludir a vigilância das sentinelas e transpondo um troço de muralha derruído (vestígio da última rebelião), desceram até ao centro de Sassari, chegando junto do Duomo sem problemas. Foi aí que se cruzaram com um grupo de rapazes sardos, que os rodearam e lhes começaram a falar no seu dialecto. Com o nervoso, Cayetano respondeu em castelhano. Começaram logo a bater-lhes selvaticamente. Estavam em frente da Igreja de Santa Maria de Belém e fiéis que saíam da missa, impediram que os rapazes sardos os tivessem morto. Muito maltratados, foram levados por um velho numa carroça até à entrada do castelo. A sentinela queria prender o homem. Alonso ficou em silêncio, mas Cayetano explicou o que se tinha passado. Sem responder aos agradecimentos dos soldados que tinham acorrido, o velho sardo virou-lhes costas e voltou para a cidade, levando as duas mulas pela arreata.

Embora Marianna, que o tratou carinhosamente dos ferimentos, tenha tentado justificar o acto dos garotos sardos, Alonso sentiu que a animosidade que sentia pelos naturais da ilha, se transformava em ódio. Já não lamentava que os sardos não quisessem brincar com ele. A tese do pai sobre a sua castelhanidade prevaleceu sobre a da mãe, que lhe queria impor a odiosa condição de sardo. Alonso, com oito anos, decidiu que iria ser castelhano. No seu íntimo não se travou qualquer luta, não houve qualquer conflito. Agora tinha a certeza daquilo que era:

– Yo soy castellano! Hablame en mi lengua! – Respondia quando a mãe tentava voltar a dar-lhe lições de sardo ou de toscano. Passou a comportar-se em casa como um ocupante, um invasor. A mãe e as duas criadas sardas tinham de lhe obedecer, sob a ameaça de se queixar ao sargento Díaz. Falando um castelhano perfeito, contara ao pai que Marianna queria que fosse sardo e procurava, a todo o custo, obrigá-lo a falar o rude dialecto da ilha. Pela primeira vez, Federico teve uma grande zanga com a esposa. Ameaçou-a mesmo de expulsão, caso persistisse em falar sardo com o filho. Berrou-lhe:

– Con el niño, tienes que hablar en lengua de cristianos! – Marianna que, se o marido a expulsasse não seria recebida pela família, restando-lhe a mendicidade ou a prostituição, curvou a cabeça engolindo as lágrimas. Alonso sorria. Vencera. O destino dos sardos era obedecer. À noite a voz do rapaz sobrepunha-se à da mãe e criadas, Inisedda e Lissurza, que, em voz murmurada, rezavam no seu idioma. Gritava: Padre nuestro que estás en el cielo, santificado sea tu Nombre. Venga a nosotros tu reino, hágase tu voluntad en la Tierra como en el cielo…

Os Castelhanos venciam sempre. Pela vida fora, Alonso iria combater com toda a sua alma, todos os que se opusessem a Castela. A oposição ao domínio de Castela era, para ele, na Sardenha, em Aragão e em qualquer lugar do mundo, um crime que justificava os mais duros métodos de tortura e mesmo a pena de morte. Em todo o caso, quer a sua parcela de sangue sardo, quer o que, contra vontade, aprendeu do idioma da ilha em que nasceu, foi-lhe útil na sua vida. O catalão e o toscano também lhe iriam ser bastante proveitosos.

*

Porém, por detrás desta guerra linguística e da batalha dos padre-nossos, estava lutas, bem mais duras.

Na faixa oriental da península Ibérica, o reino de Aragão, alcançava no século XIII, no reinado de Pedro III, uma grande expansão mediterrânica, afrontando a hegemonia pisana, genovesa e veneziana no que se refere ao comércio das mercadorias orientais. A chamada rota das ilhas, escalando as Baleares, a Sardenha, a Sicília, a Grécia e Chipre, ligava Barcelona a Beirute. A Sardenha, pela sua posição estratégica, constituía um elo indispensável na cadeia deste ousado projecto mercantil. Num primeiro passo, Pedro III casou em 1262 casou com Constanza, a filha do rei Manfredo da Sicília. Em 1297, o papa Bonifácio VIII atribuiu a soberania da ilha a Aragão, cuja posse se consumou apenas em 1324 quando as tropas aragonesas invadiram e ocuparam a Sardenha, tomando o castelo de Cagliari. Criava-se o Regnum Sardiniae et Corsicae, cuja coroa foi colocada na cabeça de João II de Aragão, submergindo os reinos autóctones de Arborea, Calari, Gallura e Torres. Após um século e meio de lutas, de rebeliões sufocadas, nova ameaça espreitava o domínio catalão-aragonês, o ressurgimento do ideal independentista que iria desembocar, em 1470, na revolta liderada por Leonardo de Alagòn e que se prolongaria quase até final do século.

            Como se vê, não era por acaso que Marianna, Federico e o padre Josep queriam obrigar Alonso a falar os seus idiomas. A luta pelo poder, travava-se também no território do corpo e da mente do pequeno sardo (ou castelhano, ou aragonês…).


 

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