REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA. – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 21. ITÁLIA, A CRISE QUE AÍ VEM, por JACQUES SAPIR.

europe_pol_1993

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos  tendo como pano de fundo a União Europeia   e a sua classe política

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Jacques Sapir

Itália, a crise que aí vem,

Jacques Sapir, Italie, la crise qui vient

Russeurope, 8 de Julho de 2016

Fonte: Russeurope, Jacques Sapir, 08-07-2016

A situação dos bancos italianos é hoje crítica. O processo da sua recapitalização ocupará uma boa parte deste verão. Põe em causa diretamente as regras da União bancária, que entrou em vigor ao 1º de janeiro de 2016. A impossibilidade para o governo italiano de respeitar as regras da União bancária põe à luz do dia os disfuncionamentos cada vez  mais importantes da zona Euro.

A parte dos empréstimos ditos “de cobrança duvidosa” no balanço dos bancos atinge doravante quase 18%, de acordo com um estudo do FMI  [1]. Excluindo a Grécia, onde esta taxa atinge mais de 34%,  a taxa mais elevada da zona Euro é a de Portugal que segue, de resto, este movimento, mas a um nível bem menor, dado que a percentagem do crédito mal parado é neste país “apenas” de 12%. Em montante, considera-se que o volume total destes créditos atinge entre  360 a 400 mil milhões de euros, em que de 70 a 100 mil milhões deverão ser cobertos, quer pelo Estado, quer outros mecanismos.

Quadro 1

Parte dos créditos «de cobrança duvidosa » nos balanços bancários

Sapir - III

É necessário aqui referir  que o movimento por parte das “más dívidas” pode estar ligado a causas muito diversas. Na Irlanda e na Espanha foi uma especulação imobiliária que terá provocado este movimento. Nada de tal no caso da Itália, e é isso que torna a progressão das más dívidas bem mais inquietante. Estas últimas são procedentes dos empréstimos que foram consentidos pelos bancos regionais italianos às PME da península. Realmente, é bem a estagnação económica destes últimos anos que é a causa desta crise bancária que começa agora a atingir duramente a Itália.

A evolução dos dados macroeconómicos da economia italiana mostra a amplitude desta crise, e sobretudo mostra que a sua causa está claramente ligada à introdução do Euro. Se calcularmos as evoluções da economia italiana desde 1990, ou seja tomando em conta a década que precedeu a introdução do Euro, as evoluções são muito marcantes e muito importantes.

Quadro 2

Evolução do PIB, do investimento e da poupança em Italia desde 1990

Sapir - IV

Source : données du FMI, World Economic Report Database, avril 2016

O crescimento do Produto Interno Bruto, que era relativamente forte na década 1990-2000 é desastroso nos anos que seguem a introdução do euro. A Itália de resto nem sempre reencontrou o seu nível de PIB antes da crise de 2007. Com efeito, o PIB de 2015 situa-se num índice 116% em relação a 1990,  enquanto que tinha atingido o índice 127% em 2007. Se a Itália tivesse podido prosseguir o seu crescimento ao ritmo dos anos 1993-1999, teria, em 2015, um índice 2015. Por outros termos, o euro custou 34% em nível de PIB em 2015. Em PIB per capita, que constitui uma grandeza mais conforme à evolução da riqueza da população, e supondo a distribuição interna desta mesma riqueza inalterada, o índice é apenas de 108% em relação a 1990. Por outros termos, em 25 anos o crescimento per capita  foi apenas de 8%.

Mas, a evolução do investimento (tanto público como privado) é ainda mais inquietante. A queda brutal do investimento do início dos anos 1990, queda que era necessária para reduzir a amplitude do défice orçamental foi corrigida seguidamente, e o investimento subiu para um índice 125 em 2007. Mas, desde então, não cessou de reduzir-se e está agora num índice 87. Por outras palavras, a Itália investe 13% a menos em 2015 do que investia em 1990. Não se deve então surpreender-se se a produtividade do trabalho sofrer uma regressão neste país e se a qualidade das infraestruturas públicas, que sejam nacionais ou municipais, se estejam atualmente a  degradar  muito rapidamente.

Esta situação de crise económica geral traduz-se por conseguinte, nos balanços bancários, pelo aumento “das más dívidas”. Mas, aqui, põe-se o problema das regras impostas pela união bancária. Esta última impõe que os bancos sejam recapitalizados pelos seus acionistas e pelos seus depositantes. Mas, são considerados como acionistas as famílias que têm comprado títulos de dívidas destes bancos. Ora, estas famílias compraram estes títulos numa situação em que o risco de falência dos bancos era compensado largamente pela possibilidade “de um resgate” pelo Estado italiano. Estas famílias são, numa larga maioria, reformados e  pessoas modestas. Agora são apanhados na armadilha das novas regras da união bancária que impõem “um bail in ”, um resgate interno ao próprio banco, que fará incidir o risco bancário sobre os acionistas e os clientes depositantes . Uma primeira recapitalização dos bancos, que teve lugar em novembro de 2015,  traduziu-se por uma espoliação de uma parte destes aforradores.

O governo italiano, fragilizado pelo resultado das últimas eleições municipais do mês de Junho de 2016 – eleições que viram o sucesso do M5S em Roma e Turim – não tem de modo algum nenhum desejo de provocar uma crise social gravíssima no ano que vem. É por isso que, procura impor às autoridades europeias “um bail-out”, ou seja socialização das perdas. Mas, sobre este ponto, confronta-se com a recusa da Alemanha. Esta recusa não é somente ditada por considerações financeiras, mas sobretudo porque significaria o malogro da união bancária, e isto menos de um ano após a sua entrada em vigor. No braço de ferro que opõe o governo italiano ao governo alemão, haverá apenas perdedores.

Se a Alemanha impuser a sua visão, o choque social da crise bancária porá a Itália a ferro e fogo, e provocará um desmoronamento dos partidos tradicionais (PD de centro esquerda e de Forza Italia, de centro direita) que de resto estão mergulhados em números casos de conluio e de corrupção com os dirigentes dos bancos. Se o governo italiano passar por cima a oposição alemã e decidir optar por “um bail-out”, a amplitude das somas necessárias serão (no mínimo 70 mil milhões de euros, ou seja 4,4% do PIB), o que provocará um aumento brutal do défice orçamental e reduzirá a zero a credibilidade das instituições da zona Euro.

Quadro  3

A situação das finanças públicas em Itália

Sapir - V

Fonte: Idem, tableau 2.

A crise bancária italiana ocupará certamente uma boa parte do verão e o outono. Ora, é necessário saber que esta crise vai desenrolar-se o numa altura em que a situação do Deutsch Bank na Alemanha é das mais preocupantes, e que as receitas orçamentais da Grécia estão em vias de desmoronamento com, em especial, uma queda média de 20% das receitas do IVA, devido “à greve do imposto” que se desenvolve atualmente neste país.

Tudo se paga, mais cedo ou mais tarde. Recusando o princípio de solidariedade na zona Euro a Alemanha impôs a sua visão das regras; mas a Alemanha dá-se conta hoje que esta visão é insuportável para os países da Europa do Sul. Por conseguinte sente-se encurralada entre a continuação suicida de uma política que não funciona e o reconhecimento dos seus erros passados. O que torna o problema ainda mais o grave é que o peso da Itália é bem mais considerável que o da Grécia. Todos compreendem que uma saída da Itália do Euro será a certidão de óbito da moeda única. A crise grega do Verão de 2015 foi apenas o introito ; a crise italiana será A crise da zona Euro.

_______

[1] IMF Financial Soundness Indicators Database

 

JACQUES SAPIR, RussEurope, Italie, la crise qui vient. Texto disponível em:

http://russeurope.hypotheses.org/5079

Leave a Reply