
E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O Brexit: uma oportunidade para os povos europeus
O após Brexit ou o início do fim da aventura da UE
Vista em forma de síntese em breve poderá ser dito que a aventura da União Europeia finalmente passou por 4 fases principais: a da construção (anos 50-70), a do modo mundialista quase perfeito (anos 80 e até 2007), depois o da marcada decadência (2007-2016), finalmente a decomposição ativa (hoje).
A construção (50-70 anos) da UE
A primeira fase, bem conhecida, não levanta grandes dúvidas. A Europa dos 6 ou mercado comum tinha um projeto claro: afastar qualquer risco de guerra, promover as virtudes tranquilizantes da livre-troca tão querida a Montesquieu. Não se trata de criar uma sociedade de mercado, mas sim uma sociedade de economia de mercado regulada pelo modelo keynesiano de representação e de regulação do mundo. A cooperação supera a concorrência, o que significa que a homogeneização – já em curso no âmbito de cada Estado, o que é o princípio clássico do funcionamento dos Estados [1] – manifesta-se por cima, ao nível do plano político, e não pelas bases. Claro, esta homogeneização também é alimentada por um modelo fordista de crescimento garantindo ganhos importantes de produtividade para redistribuir.
A fase mundialista quase perfeita (anos 1980 – 2007)
A segunda fase é a do mercado único, a da ideologia do fim da história com o desmoronamento do bloco soviético, com o alargamento para o Sul e para Leste, é a ideologia do fim da política e dos Estados nação em proveito de regras e da boa governança, da edificação paradoxal de uma maquinaria gigantesca produtora de diretivas, resoluções, normas, sanções, muito orientada para a ordem de um mercado não falseado, do desenvolvimento fantástico “das Autoridades Administrativas Independentes”, do desenvolvimento das agências de notação dos Estados, ( os ratings) etc.… O todo banhado pela ideia de entregar – pelos Estados- as chaves da moeda à Finança [2]. Doravante as taxas de câmbio deixam de ser definidas por decreto mas determinadas pelo de mercado, os Estados deixam de aceder à moeda dita Banco Central devido à independência dos bancos centrais, uma independência que tornar-se-á radical com o nascimento do Eurossistema. A ‘ideia de projeto dissolve-se no mercado generalizado, e se existe uma vontade, é efetivamente a de fazer da União Europeia um modelo, certamente reduzido, mas perfeito da mundialização neoliberal.
É a introdução do euro que faz da zona correspondente o modelo reduzido e perfeito da mundialização neoliberal e as taxas de câmbio dentro da zona deixam de ser fixadas politicamente, não são mais instrumentos de correção dos desequilíbrios, e desaparecem [JCW1] para deixar o lugar à circulação livre do capital. Este desaparecimento é também o de um elemento fundamental da soberania: cabe agora aos Estados adaptarem-se de acordo com os movimentos do mercado. O desaparecimento das taxas de câmbio faz assim desaparecer todas as paredes divisórias entre os diversos Estados, transformando as sociedades em seres desprovidos de pele protetora. Obviamente não se tratará mais de cooperar (primeira fase da construção) mas de entrar numa concorrência generalizada incluíndo ao nível dos Estados, em especial da sua política fiscal e social. O princípio de homogeneização é abandonado, a construção prossegue-se agora de acordo com um modo bem coxo: é necessário criar vantagens competitivas por conseguinte, é necessário criar diferenças [3] entre os países que se tentarão eliminar permanentemente, e criando outras] não por cima, no plano político, como ao tempo da cooperação, mas por baixo, pela concorrência, pelo mercado. Passa-se assim de um modelo de homogeneização pela parte de cima a um modelo de heterogeneização pela concorrência desabrida, combatida por um eterno e precário nivelamento pela parte de baixo. Não estamos muito longe das sempre quasi-eternas reformas estruturais.
Algumas décadas depois a heterogeneidade tornou-se problemática. O modelo europeu reduzido da mundialização foi, em primeiro lugar, bloqueado pela crise mundial de sobreprodução que a dívida crescente não pode mais esconder [4]: os subprimes (EUA) foram a gota de água que faz extravasar o copo. As massas financeiras gigantescas utilizadas a título de garantir as taxas de câmbio [5], massas que se tornaram num preço bem alto pela entrega das alavancas da moeda à Finança, desestabilizam os não menos gigantescos estabelecimentos financeiros que é necessário salvar….pelos Estados quando era a estes que se queria reduzir o perímetro de intervenção… A partir de 2008, à escala da UE, será necessário ter em conta a catástrofe correspondente e tentar esconder os seus efeitos.
O modelo neoliberal adotado pela União Europeia reforçou as especializações produtivas de todos os países: mais indústria na Alemanha, mais finança em Londres, mais serviços em França, mais construções em Espanha, mais turismo na Grécia e, por vezes, mesmo algumas inovações como a da fraude fiscal no Luxemburgo. Os ganhos de produtividade associados à estas especializações sendo diferentes, os rendimentos entre países não podem senão diferenciarem-se de maneira crescente e não puderam ser disfarçados senão por saldos externos da balança corrente bem distantes dos ecrãs radares dos estatísticos: a Grécia, ou mesmo a França puderam continuar a viver sob a proteção do Euro enquanto que a mesma moeda única destruía a sua substância. Ao contrário, a Alemanha pôde dar-se a si-mesma um mercantilismo de grande dimensão através de uma moeda subavaliada. Resumidamente, o modelo faz entrar em decomposição a aventura europeia: era necessário unir-se ou reunir-se mas o método escolhido conduziu ao resultado oposto.
Face aos desequilíbrios que o princípio de concorrência não pode corrigir, foi necessário tentar pôr em congruência o que não podia ser feito pelo recurso a pequenas manipulações regulamentares e financeiras: a austeridade orçamental para o Sul podia tranquilizar uma Alemanha que não podia aceitar transferências mas que tinha necessidade de prosseguir o seu mercantilismo, desmoronamento do investimento devido ao multiplicador orçamental negativo, manutenção da liberdade da Finança com a sua especialização londrina para respeitar o princípio de independência dos bancos centrais sem o qual a própria existência do euro desaparece. Será mesmo necessário ir mais longe intervindo diretamente sobre os Estados, a Itália, mas sobretudo a Grécia onde um governo é afastado (2011) antes da sua colocação sob tutela direta [6] (verão de 2015).
As políticas de austeridade, indispensáveis salvo o porem em causa o conjunto do edifício, fazem aparecer a realidade: Estados europeus que não fazem mais do que afastarem-se uns dos outros sobre o plano económico com todas as consequências políticas e sociais daí decorrentes. Melhor, dentro dos Estados, deram-se diferenciações crescentes entre zonas ganhadoras e zonas perdedoras da mundialização, uma heterogeneização que os Estados, porque privados dos seus atributos clássicos, deixaram de poder compensar [7]. O referendo sobre o Brexit é assim revelador de uma extraordinária realidade: um Reino Unido tão desagregado que alguns imaginariam como legítima a independência da cidade de Londres em relação ao resto do território.
Obviamente, a etapa mais notável desta decomposição escondida é a intervenção massiva do BCE para mascarar a realidade da dívida pública em inúmeros Estados: comprando esta última, praticando duradouramente uma política de taxas zero, e que se permite ser a reprodução comatosa do sistema de decomposição. Com este curioso resultado: o de uma Finança que se quis liberta e que se quer manter livre, mas que se encontra parcialmente sujeita a um desmoronamento da sua rentabilidade.
A fase de decomposição ativa da União Europeia (2016…?)
Esta fase pode ser apreciada apenas em relação às grandes forças em presença que vão até pelo símbolo do Brexit poder desencadearem-se mais abertamente. Deste ponto de vista a História reterá que é a Grã-Bretanha, no entanto situada na periferia da ordem institucional bruxelense, que abre o baile da fase ativa da decomposição.
Estas forças são numerosas: os lobistas da economia real, os da Finança, o pessoal politico -administrativo do mundo bruxelense, os empresários políticos dos diversos países, os assalariados, os cidadãos, os consumidores, os aforradores destes mesmos diversos países [8], os empresários políticos dos países estrangeiros. Cada grupo é portador de interesses diretos ou portador de uma composição ou “ramo” de interesses [9].
A resultante das forças interessadas é por conseguinte complexa, tantos são os seus elementos constituintes. E esta complexidade é ainda tanto maior quanto o número de atores tem dificuldade em distinguir o que tem a ver com o interesse coletivo ou que tem a ver pura e simplesmente – às vezes difícil de medir- com a ideologia. Contudo parece que as forças de desintegração deveriam logicamente estar a ir mais à frente relativamente à vocação integradora.
A ideologia de um interesse geral post nacional é extremamente poderosa e, por conseguinte, é uma aliança de forças europeístas que deverá logicamente continuar a impor-se no imediato. Com 3 possibilidades: a marcha para mais horizontalidade, ou seja a de um comércio livre em contínua expansão; a verticalidade, ou seja, a de um federalismo; por fim, a menos europeísta, a “oblíqua” de uma cooperação reforçada entre Estados.
As duas primeiras possibilidades são explosivas.
A primeira possibilidade é compatível com o euro apenas se os continuados perdedores do comércio livre aceitarem permanentemente o constrangimento correspondente da desvalorização interna, por conseguinte, a baixa contínua das remunerações e das proteções associadas. Porque o comércio livre permite deixar de ver nos salários um mercado, e tomá-o somente como um constrangimento em termos de custos, a tendência à baixa das remunerações torna-se pois recorrente. E o país dominante não pode ser poupado: mesmo a Alemanha não poderá permanecer competitiva senão fazendo pressão sobre as remunerações. Deste ponto de vista o euro aparece bem como um duplo instrumento: primeiro, do ponto de vista social, uma arma eficiente de luta da classe dominante contra a classe dominada, depois, do ponto de vista económico, é um instrumento acelerador da crise mundial de sobreprodução. O europeísmo da horizontalidade mercantil encontra aqui um limite: os empresários políticos nacionais não poderão reconduzir-se ao poder ou conquistar o poder na ordem liberal a não ser que o euro desapareça ….e com ele muitas instituições europeístas correspondentes….Deste ponto de vista a confrontação entre as políticas nacionais, apanhadas na armadilha da contestação cada vez mais radical dos dominados, e o pessoal politico – administrativo bruxelense deverá assumir tal dimensão que estes últimos não podem reconduzir-se ao poder senão a desenvolverem um laxismo que cresce assente nas regras fundamentais do funcionamento da zona euro. Confrontação de classes ( na base) que leva a confrontações secundárias dentro da oligarquia (o topo do sistema) diriam os marxistas… o todo num marasmo económico que se perpetua (austeridade contínua) sobre o fim do viver em conjunto, minando portanto o que até agora deveria ser a função dos Estados. Ou então a manutenção de um certo viver em conjunto do euro: será necessário escolher.
A segunda possibilidade, a de “mais da Europa” pode fazer uma mudança pelas políticas fiscais ou mesmo sociais mais harmonizadas. Obviamente pode-se discutir sobre as migrações, o terrorismo, etc. pode-se mesmo imaginar um governo da zona euro com um Parlamento responsável [10]. O limite é no entanto muito claro: sem redistribuição desde as zonas com excedentes para as zonas com défices, a situação permanecerá bloqueada para números países do Sul. Esta redistribuição não sendo politicamente aceitável para a Alemanha, reencontramo-nos numa situação próxima- certamente menos dolorosa- da primeira possibilidade acaba de descrever. É dizer que mesmo aí, uma integração mais forte passa primeiramente pelo desaparecimento da moeda única. O que nenhum empresário político clássico pode evidentemente reconhecer.
A terceira possibilidade é possível apenas na condição do desaparecimento da moeda única. Sem este desaparecimento, os projetos intergovernamentais, por exemplo de investimentos massivos em infra-estruturas, na reorganização ecológica, etc. não podem assegurar automaticamente as transferências obrigatórias para as zonas deprimidas, por conseguinte transferências que somente permanecerão bloqueadas pela Alemanha.
A Grã-Bretanha abriu o baile da decomposição dado que doravante a porta autorizada pelo artigo 50 do Tratado está aberta. A questão é então saber quem, a partir do centro do poder de Bruxelas, ou seja a zona euro, quem é que a vai cruzar em primeiro lugar. Porque os atores políticos devem ser cuidadosos nas suas estratégias de conquista ou de conservação do poder, devem assumir a saída de maneira indireta mas sobretudo inteligente, ou seja sem estar a pôr em causa diretamente uma moeda única promovida ao nível de Talismã.
Porque os humanos não podem lançar fora um Talismã, é necessário encontrar um meio limpo para dele se desembaraçarem. O Blog recomenda para esse efeito que se ataque e primeiramente o seu ambiente imediato ou seja o BCE que deve ser simplesmente requisitado [11]. Requisição que deveria logicamente provocar o desencadeamento do fim com a partida precipitada da Alemanha. Uma estratégia de saída firme mas inteligente, a que contorna o Talismã, para deixar a responsabilidade da sua eliminação à Alemanha só pode ser o produto de um grande país: a França é doravante portadora desta escolha estratégica.
Quando mais nada é reparável, a sabedoria consiste em precipitar o desmoronamento definitivo para reconstruir um qualquer outro mundo. A Grã-Bretanha destrancou a prisão. À França cabe agora fazer sair os seus prisioneiros.
Jean Claude Werrebrouck, sitio Les crises 2010, Le Brexit : Une Opportunité pour les peuples européens. Texto disponível em:
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[1] http://www.lacrisedesannees2010.com/2015/04/avenir-des-etats-declin-fragmentation-union-desunion-partie2.html
[2] http://www.lacrisedesannees2010.com/article-la-finance-ou-la-reussite-de-la-petition-des-marchands-de-chandelles-frederic-bastiat-1845-121172557.html
[3] http://www.lacrisedesannees2010.com/2014/10/la-surclasse-mondialiste-interdit-la-fin-de-la-crise.html
[4] On pourra mieux comprendre cette question en lisant l’ensemble des textes de la rubrique : http://www.lacrisedesannees2010.com/tag/critique%20des%20raisonnements/que l’on trouve sur le blog.
[5] Les opérations de change sont en masse environ 100 fois supérieures à celles des operations économiques réelles d’exportation et d’importation
[6] http://www.lacrisedesannees2010.com/2014/12/test-du-modele-du-monde-tel-qu-il-est-le-protectorat-grec.html
[7] http://www.lacrisedesannees2010.com/article-etats-effondres-failed-states-dans-la-mondialisation-120988085.html
[8] http://www.lacrisedesannees2010.com/article-le-monde-tel-qu-il-est-78572081.html
[9] Il est clair que les entrepreneurs politiques dont l’intérêt est la conquête ou la reconduction au pouvoir utilisent aussi les groupes d’intérêts qu’ils sont censés représenter. Et c’est parce que le premier ministre britannique a mal saisi les forces en présence que son objectif privé de reconduction au pouvoir fut un échec.
[10] http://www.lacrisedesannees2010.com/2015/12/un-authentique-parlement-de-la-zone-euro-est-il-pensable.html?
[11] http://www.lacrisedesannees2010.com/2016/05/une-requisition-de-la-bce-au-service-des-zones-devastees-par-l-euro.html
