A GALIZA COMO TAREFA – a nossa linguagem – Ernesto V- Souza

soldadoSe há algo que custe na Galiza é romper com uma tradição, ainda que seja má. Porém, escolher, conscientemente, isso não pode ser mau. Mau é não saber porque se faz. E mau é enrocar-se no apelo de uma tradição empedernida quando cada tradição é filha de uma rotura e uma mudança anterior.

A língua é a gente que cria; os escritores, artesãos e artistas da palavra apenas vão deixando as suas peças, polidas, imperfeitas, sublimes, ocasionais ou mercantis com que tratam de explicar ou enxergar o mundo. Disto é onde os gramáticos tomam os materiais com que construem as suas obras e os campos que os linguistas estudam ao jeito científico.

A rotura da tradição escrita sempre foi uma questão de pragmática e política.

História e memória é que se precisa no estudo e compreensão da Língua. Português, galego, galego-português, português da Galiza… são nomes – alguns não sem polêmica e todos filhos de tempos, momentos e circunstâncias políticas – com que procuramos definir, dentro de cânones e narrativas nacionais e epocais a rica realidade da “nossa linguagem”.

É escasso o acordo a respeito da história das origens da língua e do seu sentido nas narrativas nacionais. Há muito com isto ainda que trabalhar na Galiza e em Portugal. Muito que refletir sobre a língua e o longo processo de construção, a intensidade da história e a política nela.

Há anos li com muito prazer o prólogo de Rodrigues Lapa a ‘O Soldado prático’ de Diogo de Couto, e desde aquela concordo profundamente com ele nessa percepção dos clássicos portugueses adorarem a variação e respeitarem – como marcação de estilo e significado – a escrita original e tradição gráfica de cada autor.

É profunda a ideia para além da estética e do respeito. Talvez se trate de uma convenção cultural, de uma ideia central fortemente enraizada que compartilharam por muito tempo – provavelmente até a nacionalização e do estado moderno – as classes cultas e populares. A inestabilidade – refletida no cepticismo – como essência de um mundo que se enxerga de olhos abertos e permite a integração, a descoberta de outras realidades e línguas e o esforço da compreensão do outro tão comum na nossa civilização.

Acho que boa parte disso e no que afeta à língua (e ao estilo) conservou-se (mas num contexto de degradação linguística pavorosa) na Galiza, que permaneceu em boa lógica clássica, com muitas das noções, ideias e valores refletidos no português arcaico pre-clássico e clássico. Ou quando menos essa sempre foi a tradição leitora em que a mim me aprenderam e na que aprendi a escrever.

E em tendo isso, tem-se um mundo e podemos gizar duas grandes linhas de desenho na restauração da língua galega como português, sem perder nem a tradição nem autonomia.

1º Modernizar a orto-tipografia do galego para nos achegar a uma parte do nosso mundo cultural que abandonamos por tempo de mais.

2º Levar com nós essa tradição de escrita que espelha o nosso tolerante, inteligente e clássico relativismo, os nossos ditos labregos com que somos capazes de enxergar e explicar o mundo, com esse jeito de ler, falar e escrever que nos permite gozar das variantes (algo quererá dizer -dizia o meu avô- quem diz de tal jeito) e brincar coa sonoridade borbulhante das palavras e jogos associativos.

Realmente eu cada dia sou mais antissaussiriano. O signo linguístico não pode ser arbitrário. Isso só pode sair de uma mente francesa e jacobina. O signo, o fonema, a palavra é, de cada vez, ou por cada vez um mundo contextualizado, um jogo de significados, uma escolha por entre as fundas e imensas raizeiras no passado e no presente, um caminho de futuro.

 

 

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