O presente político, na Espanha, a ideia nacional, na Galiza, parecem mais e mais cada dia um lugar estranho. Desligado do previsto. Algumas vozes mesmo falam da sua desconexão com o presente remoto e com o passado próximo. Porém, tudo no passado é relevante, para o compreender e mais, porque não se conhece bem.
Mas isto é a nível europeu, por igual. O nazismo, o fascismo, emergidos do positivismo, do racismo, na mesma estirpe que os nacionalismos, deram como resultado a negação interesseira; e nas memórias fragmentadas, falseadas e traumáticas por causa das guerras e os genocídios, sobre isto a Guerra fria foi longa de mais e ideologicamente muito presente ainda. Apagou, como premissa, trajetórias, testemunhas, exemplos, desenfocou os processos, as fases, os períodos.
E, na Espanha, talvez ainda mais, ao adir sobre isto o franquismo. Nem o século XX, nem o XIX, nem menos ainda os tempos anteriores ao nacionalismo se entendem senão com os olhos e as perspectivas aprendidas, com as ideias e as ideologias correntes no mais imediato presente. E a atualidade não é que confronte, precisamente.
Quanto ao século XX, na Galiza, é como que não apenas o franquismo tivesse atuado de filtro, senão que o próprio galeguismo dos 50, primeiro, para justificar a sua atuação e perspectiva, tivesse peneirado esse passado, especialmente no político e na perspectiva nacional e, depois, o nacionalismo a partir dos 60, mirando para os processos de descolonização desde o marxismo, ao romper com esse galeguismo, tivesse roto, mas acreditando que era a tradição, e sem entrar a questionar a rotura anterior e não suspeitando portanto, que havia um mundo de precedentes diferentes, uma tradição nacional e uma tradição de esquerdas de muita importância política e cultural.
Depois acho que a Transição também contribuiu com os seus pactos e perspectivas, com o modelo social, político, universitário, a botar mais uma capa de pintura ao restauro já falseado.
Por que, francamente, pensando no hoje: como não encontrar paralelismos com a crise de 1914-17, adiada pela ditadura e que explode com essa emergência e aliança de classes médias e baixas golpeadas pela crise e bloqueadas de participação pelo sistema rotativista ou turnante de partidos… Como não ver a criatividade de entre guerras abrolhando com a protesta social por toda a parte? Como não ver o fascismo minimizado em simpatias pelas oligarquias em função da “ordem” e das elites em aras do seu papel dirigente, emergindo diante dos olhos?
E que dizer das políticas e ideias do galeguismo, desde Faraldo a Bóveda, passando pelo manifesto de Lugo e por tantos e tantos? Não são ainda o discurso, o programa a realizar?
