CONTOS & CRÓNICAS – O ESCRITOR DA SEMANA – O BEIJO PARTIDO – CATARINA PEREIRA /1

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Poderia ter feito, ela mesma, o almoço. Peixe assado e salada não exigem  mais de meia hora na cozinha e cabem na maioria das dietas. Porque era certo a moça estar de dieta. Todas estão. Mas o filho escolheu levá-las ao italiano recém-aberto, do outro lado da praça. Levá-las não. Ele levou a namorada. E pediu que ela os encontrasse lá.

De tão perto, já estava atrasada, a caixa dos mocassins marrons sumida nas prateleiras do armário, mixórdia de roupas, sapatos, livros e papéis sempre implorando a arrumação impossível.

Acabou enfiando os pés nas Birkenstocks pretas, afinal mais confortáveis e perfeitas com jeans e blusa de seda lilás. Em rápida olhada no espelho, ajeitou com os dedos os cabelos curtos, cachos grisalhando por igual.

Pegou a bolsa e saiu, ignorando o toque estridente do telefone; fosse o namorado e não teria coragem de desligar; fosse o filho e seria pega em flagrante, em casa, quase meia hora depois do combinado.

Desceu à pressa os dois lances de escada, mas desacelerou sob o sol. Não queria entrar esbaforida e desgrenhada no restaurante, assustar a candidata a nora. Ainda menos essa, já alugando apartamento, três meses de namoro mal completos. A primeira mulher em trinta e dois anos capaz de convencê-lo a sair de casa. Embora julgasse um tanto precipitado. Não se conhece uma pessoa em três meses. Uma mulher, então. Mas ele havia apenas comunicado a decisão.

Não estava pedindo palpite. E ela ficaria de boca fechada, mesmo que farejasse pistolagem (e tinha um faro aguçadíssimo para pistoleiras).

A última desocupada, por exemplo. Aboletou-se na suíte dele, reformou-a do chão ao teto e só saía de lá para a malhação, a clínica de estética, a geladeira.

Nunca soube onde ficavam o tanque, a vassoura.

Ela tolerou a boa-vida sarada até a manhã chuvosa de domingo, vários irritantes meses depois, em que a ouviu esganiçar pela quarta ou quinta vez “bom dia, velhinha”, abuso permitido ao filho e a ninguém mais nesse mundo. Olhos vermelhos, punhos crispados, encarou a moça petrificada e escandiu as sílabas, pouco mais alto que um cochicho: “velhinha é a puta que a pariu”. Caldo entornado, desabou no sofá da sala, coração quicando entre raiva e prazer, enquanto a outra correu para o quarto, chorou por quarenta dias e quarenta noites, arrumou as malas e foi dar um tempo no interior, de onde nunca voltou. O filho macambuziou por uma semana, pouco falou por duas ou três e retomou a vida com os amigos. Com ela, processo mais lento, as conversas só deslanchavam se o assunto era trabalho, os dois professores de biologia na mesma faculdade, ela à beira da aposentadoria, ele nem a meio caminho, tudo para aprender, começando por como escolher namoradas. Dedo podre, fazer o quê?

Passaram-se bons seis meses antes do tema reaparecer, ao final do jantar em comemoração aos sessenta anos dela, os dois já sozinhos em casa, num último copo de vinho Ele contou da namorada nova, programadora virtual (ou algo assim), como se ela não houvesse percebido os telefonemas melosos, os fins de semana sabe deus onde. E falou do apartamento, pequeno, mas arejado, perto dali, ótimo para um casal. Continuariam se vendo sempre e todos teriam mais liberdade. Ela sentiu a luva de pelica, disfarçou, sorriu, beijou-lhe a testa e aceitou o convite para o almoço na semana seguinte.

Hoje. Meio parou em frente à vitrine de móveis rústicos, o projeto de transformar a suite dele em escritório tomando forma. Flertou com a estante gigantesca de madeira encerada, contraponto perfeito para a mesa em aço e vidro encostada no quarto de empregada. Finalmente um lugar para o laptop, os livros, uma poltrona confortável. E para a reprodução de Klimt, centrada na parede (azulão, com certeza) atrás da poltrona.E porque a reprodução é de O beijo, lembrou-se do namorado, quatro anos já, poeta sofrível, amante delicioso, o primeiro homem depois da viuvez aos cinqüenta e um, com quem havia dormido menos de uma dúzia de noites inteiras. Vergonha de passar a noite fora, de trazê-lo para dentro de casa. Constrangida por ter vida sexual, logo ela, adepta de carteirinha do amor livre.

Bem perto do restaurante, sorriu para as azaléias expostas no quiosque da praça e pensou com todas as palavras: seria muito bom ter a casa toda para si.

À porta do salão lotado e ruidoso, mesas cobertas com toalhas em xadrez vermelho e verde, paredes forradas por cópias de pinturas em molduras rococó iluminadas feericamente, procurou por alguns segundos até ver o aceno, logo abaixo da Mona Lisa. Abriu caminho entre cadeiras, carrinhos de sobremesa, garçons, gargalhadas. Beijou o filho, beijou a moça, adiantou desculpas pelo atraso. Sentaram-se, sorriram-se. Ele a serviu de vinho, tilintaram os cálices. A nora era, num relance, igual às anteriores. Cabelos passados a ferro, dentes alvíssimos, brilhantes, peitos fartos (silicone até o gargalo), lipoescultura, bioplastia. Teria trinta anos (eternamente, talvez).

Pegou o cardápio e atentou à conversa. Em meio a datas, listas de compras e olhares lânguidos, escolheu, como o filho, a lasanha verde. A namorada, tainha grelhada e brócolis. Passeou os olhos pelo salão, tentando desviá-los da atração magnética dos seios avantajados, à frente. Espalhadas pelo restaurante havia outras dez ou quinze garotas, pouco mais ou menos a mesma coisa. Lindas. Em série. Quase via os números gravados nas costas. Concordou com mais um cálice de vinho, inventou um compromisso logo após o almoço, para evitar a ida ao apartamento alugado. Bebericou, observando o encantamento do filho. A nora, não dava para negar, merecia. Além da beleza, mostrava prendas que iam de receita de salmão ao molho de maracujá às diversas supostas identidades da Mona Lisa, passando por decoração de interiores, música e qualquer assunto que surgisse.

Perfeita. Perfeita demais.

Percorreu novamente o salão com os olhos. Voltou-os aos seios da moça. Não era só a beleza ou a semelhança entre as mulheres que a perturbava. Esquisito à beça era modelar corpos, entranhar a moda. E como se não bastasse, tudo em excesso: o silicone, o branco, o liso, o perfeito.

Protótipos foragidos de experiência científica. No caso da namorada do filho, uma replicante com excesso de inteligência, tinha vontade de procurar-lhe um chip atrás da orelha.

Pela primeira vez na vida ela se percebeu no futuro. Quase podia tocá-lo (bastava esticar o braço).

Uma viagem tão rápida que a voz rascante de Janis Joplin ainda implorava “Oh, Lord, won’t you buy me a color tv?” Vai ver estava mesmo velha. Implicava. Vai ver era excesso de cuidado. Ou de vinho. Aceitou o café fumegante. De qualquer modo, não se intrometeria. Ainda que fosse uma boneca de madeira e o nariz crescesse a cada mentira. Continuaria sorrindo, concordando.

Cedo ou tarde (provavelmente tarde), o filho perceberia se houvesse algo errado (ou certo demais).

Despediu-se, prometendo visitar o apartamento no domingo e ajudar na mudança. Começaria no fim de semana mesmo a separar livros, cds, objetos. Ele preferia assim. Que ela decidisse. Só queria muito, se ela não se importasse, a reprodução de Klimt. Pensavam em colocá-la na parede atrás da cama, já pintada no verde musgo escolhido pela namorada. Ela não achava que ia ficar legal? Não, ela não achava, gostava mais do azulão, mas disse que sim, ele podia ficar com o Klimt e verde musgo era ótimo.

Entrou na loja de móveis e marcou uma visita para as quatro horas. Subiu as escadas devagar, afundada numa bruma de álcool e ressentimento.

Deixou-se cair na cama, evitando olhar o quarto do filho. Faria o escritório logo que ele saísse. Com uma ou duas pequenas modificações, era melhor prevenir. Em vez da poltrona confortável, um bom sofá-cama. Manteria o banheiro arrumado do jeito dele. Ainda pintaria a parede de azulão, mas precisaria comprar outro quadro.

Ou não.

Ligou para o namorado. Talvez deixasse a parede vazia.

Ouviu o alô aconchegante, do outro lado da linha. Antes de contar as novidades, pediu-lhe um poema. Ele improvisou versos capengas em que prometia escavar a terra, até depois da morte, só para cobrir seu corpo de ouro e pedras preciosas.

Por acaso, exatamente o que ela queria ouvir.

 

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