A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – NOVA SÉRIE – A INTRODUÇÃO DE JÚLIO MARQUES MOTA – I

Obrigado ao blog do tirloni.
Obrigado ao blog do Tirloni.

Uma nova série de textos onde se dá basicamente a palavra a três grandes economistas, apresentando algumas peças já anteriormente publicadas: São eles Satyajit Das, Bill Mitchell e Michael Pettis.

júlio marques mota

Introdução

A primeira questão que se nos colocou foi a de editar este conjunto de textos por temas ou por autor. A escolha pode não ser fácil, mas sempre seria mais fácil optar por autor dada a diversidade de temas tratados por cada um deles, embora esteja sempre presente como pano de fundo a crise, sendo porém certo que arrumar os textos de Satyajit Das não levanta nenhum problema. O problema é a perspectiva de conjunto dos três autores, sendo igualmente verdade que todos eles têm como pano de fundo a crise. Simplesmente com esta a ser vista ora numa perspectiva local, europeia, americana, chinesa ou numa perspectiva mais global, mundial. Uma segunda questão seria publicá-los por ordem cronológica e uma terceira seria introduzir alguma ordem pedagógica na série a estabelecer tendo em conta a complexidade de alguns textos. A ordem cronológica, dada a diversidade de textos não tem pois nenhum sentido. Optámos pela última das vias. Introduzimos uma sequência que pedagogicamente consideramos ser robusta e na linha dos temas tratados pelos três autores seleccionados. Ainda aqui surgiu-nos uma dificuldade: um dos textos pedagogicamente relevantes, de Bill Mitchell, sobre os défices orçamentais tinha algumas afirmações que, pela sua relevância para o leitor que não é economista e pela importância que assume na linha de oposição aos muitos Passos Coelho que por aí pululam, desde Lisboa a Berlim, mereciam uma exposição mais detalhada e mais clara. Estamos por exemplo a falar da falácia da composição, segundo a qual um orçamento familiar é equivalente ao orçamento de um país. Aceitá-la é abrir caminho a toda a política de austeridade que foi praticada, aceitá-la é aceitar a recusa das Instituições em reestruturar a dívida pública. Na lógica destas Instituições, se devemos, devemos então poupar e pagar. É assim que fazem as famílias honradas, é assim que devem fazer os países. Esta é a argumentação de base para nos convencer da necessidade de austeridade em toda a linha. Ninguém se questiona que para pagar é preciso poder pagar, é primeiro preciso ter meios para produzir, depois vender ao exterior, receber e pagar a seguir. Repare-se que pelo meio passa a venda ao exterior. Com a política de austeridade imposta por todo o lado, vender sim, mas a quem? Receber de quem? Eis-nos numa quadratura do circulo e é a esta situação a que as políticas austeritárias nos têm conduzido.

O discurso austeritário na base dessa falácia é ainda hoje ouvido, vindo de gente de vários quadrantes, mesmo entre gentes que se reclamam do socialismo e que tem por base essa mesma falácia. Para suprir o problema da falta de alguns pequenos desenvolvimentos sobre pontos altamente relevantes, segui o conselho da argonauta Maria Cardigos, que me sugeriu colocar notas de esclarecimento ou arranjar pequenos textos que sirvam de suporte aos textos principais por nós seleccionados, os textos dos três autores referidos. Pensando bem, a primeira sugestão parece-nos aqui forçada, como se estivéssemos a apanhar uma boleia nos textos dos outros. Uma solução que por esta razão não nos parecia nada aconselhável. Por isso, considerámos muito mais válida a segunda sugestão e para não sobrecarregarmos a série com textos de outros autores, inserimos aqui apenas os textos de Randall Wray e J. D. Alt como textos de preparação para todos os seguintes.

Assim a série terá a seguinte estrutura:

 

1ª Parte Textos introdutórios

  1. Randall Ray- O orçamento público não é como um orçamento doméstico

  2. J. D. Alt, author of The Architect Who Couldn’t Sing, A falácia da composição

2ª Parte Textos de referência para entender a realidade presente

 

A) Satyajit Das

A1- Falsa retoma económica na Europa

A2 – A Falha na Política Orçamental

A3- A loucura monetária

A4- A ineficácia da Política Económica

A5- QE para sempre

A6- As crises económicas do mundo estão a entrar numa fase política – e os resultados podem ser perigosos

B) Bill Mitchell

       B1   – Algumas questões sobre os défices orçamentais

       B2  Sobre os défices, o que não pode ignorar

       B3  Fluxos de fundos e saldos sectoriais

       B 4  Algumas questões sobre a sustentabilidade da dívida

B5- Caos na Europa e o seu errado Sistema monetário

B6 – A esquerda confunde globalização com neo-liberalismo e perde-se

B7- O Brexit assinala a necessidade de um novo paradigma de políticas, incluindo re-nacionalizações

B8- Para um conceito progressista de eficiência económica (parte I e II)

C) Michael Pettis

C1- A França e a Prússia (reedição)

C2- A Espanha em sofrimento: porque é que deixar o euro é o menor de dois males (reedição)

C3- Quando é que se decide que a Europa deve reestruturar uma grande parte da sua dívida (reedição)

C4- Que quantidade de investimento é a óptima?

C5- O emocionante e terrível colapso do dólar. Outra vez

C6- Reequilíbrio, transferências de riqueza (rendimento) e o crescimento da dívida chinesa

C7- Dinheiro que parece criado a partir do nada pode transformar-se em dinheiro gerado pela produção”.

Aqui duas a três pequenas notas sobre os textos referidos pelos grupos A, B e C.

Nos textos agrupados em A, exclusivamente os textos de Satyajit Das, começamos por um texto escrito em Dezembro de 2015 em que ele nos retrata a zona euro como um espaço onde os políticos estão à espera de um milagre, a saída da crise. Mais precisamente:

“Neste contexto, qualquer melhoria a ocorrer na Europa será então mais conjuntural do que estrutural. Em última análise, a ação do BCE, na melhor das hipóteses, manterá por tempo limitado um difícil equilíbrio. Promoverá falsas esperanças para uma atempada retoma da zona Euro. Mas como Sigmund Freud sublinhou: ” para nós, as ilusões recomendam-se porque nos salvam do sofrimento e nos permitem desfrutar, em vez disso, de prazer. Devemos, portanto, aceitá-las sem nos queixarmos quando algumas vezes elas colidem um pouco com a realidade contra a qual as ilusões se desfazem em pedaços”.

A produção de falsas esperanças para aliviar o sofrimento é pois o objectivo dos nossos políticos e das suas políticas. A seguir editamos uma série de quatro textos escritos em 2016 sobre a crise da Europa. Textos magistrais em que se mostra o enredo, os impasses, as impossibilidades reais de saída da crise no quadro do sistema que as gerou, mesmo que isto não seja dito com esta franqueza. Alias na sequência do texto anterior diz-nos ele no texto nº 2:

“Desvaneceram-se as memórias da crise de 2007/2008 e da grande recessão. Mas tal como Vladimir e Estragão na peça de Samuel Beckett esperam em vão pela chegada de Godot, os governos e os decisores das políticas ainda continuam à espera de uma retoma da economia de que não há nenhum sinal da sua presença. O problema é que as ferramentas disponíveis para a política económica não podem resolver os problemas que lhe estão subjacentes.”

Isto faz-me lembrar um pequeno detalhe que presenciei há dias na praia. À saída da zona de praia e nas costas do bar que assiste os veraneantes, e já a caminho da saída da praia, foi instalada uma casa de banho e ao lado um chuveiro para quem quer sair da praia com um duche rápido já feito. Ao fundo do cabo de suporte, uma torneira para quem quer limpar os pés da areia. Normalmente forma-se uma fila de espera para o duche e limpeza dos pés. Ao lado quando acontece, forma-se uma fila mais pequena para quem quer ir à casa de banho. Nesse dia a que agora me refiro havia uma só fila. À minha frente uma senhora de meia idade, tipo pequeno burguesa de cabelo bem arranjado e de facto de banho elegante e possivelmente de boa marca. A haste com as duas torneiras fica livre. Pergunto à senhora, não  avança? Não, estou à espera! À espera, pergunto eu. Sim, à espera que saiam da casa de banho, que abram a porta.  Dado o tempo de espera já sofrido, para a casa de banho estar ocupada, seria necessário que o seu ocupante sofresse de forte prisão de ventre, pelo que a questionei. Mas tem a certeza de que a casa de banho está ocupada? Não será melhor bater à porta? Ah, exclamou com uma interjeição estridente. E a casa de banho estava vazia.

Uma senhora da classe média, aflita, à espera que lhe abrissem a porta para se aliviar, um exemplo do que é Portugal neste momento: sem nenhuma hipótese de fazer seja o que for, que não ser ver o país a arder, Portugal, um país à espera que lhe abram a porta para se aliviar da crise, das suas dores intestinas, como esta mulher  a classe média deste país que faz parte de uma zona euro, ela também à espera da saída da crise à espera de Godot!

(continua)

 

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