Os alunos, ou seja as crianças e os jovens, preparam-se adquirindo material escolar.
Os pais fazem contas aos Euros porque a despesa é grande para tão parcos salários.
As crianças e jovens estão felizes porque vão encontrar os seus amigos.
Os pais estão mais descansados porque, agora sim, os filhos estão em segurança.
A Escola prepara-se para os receber manifestando uma expectativa positiva sobre o aproveitamento escolar e o comportamento.
As salas preparam-se para serem testemunhas do que se vai passar durante as aulas.
As auxiliares sorriem quando vêem chegar crianças que conhecem do bairro.
Os professores ao tomarem café antes das reuniões desabafam desejos e inseguranças. Como vai ser esta turma que agora tem 27 alunos, com “aquele” ali?
Os professores desejam menos reuniões e menos papeladas para preencherem.
Os professores desejam que os alunos tenham, todos, o material necessário.
Este ano lectivo vai ficar recordado como um ano diferente, à luz da Constituição Portuguesa, o ensino é obrigatório, assim sendo, para honrar a Constituição, pela primeira vez são dados, a todos os alunos do 1º ano, os manuais escolares.
É uma decisão que esperou 40 anos para se concretizar, tem um significado importante, é uma forma de coesão social. Só se pode ter sucesso se tivermos, todos, os materiais próprios para o alcançar.
Mas, tal como as moedas, tudo tem pelo menos dois lados: o lado positivo de se dar às crianças portuguesas os manuais e responsabilizar, também, a família pelo seu bom uso e pelo respeito que a Escola merece; o lado negativo são os velhos do Restelo que se “revoltam” porque o Estado só devia dar os livros aos mais carenciados, esquecendo-se ou não sabendo que as famílias mais carenciadas já os tinham. Sim já os tinham, mas isso era apenas um remendo na manta da Escola: já tenho os livros todos, a minha mãe comprou na livraria. Eu ainda não tenho porque ainda não chegaram à escola, a minha mãe não pode comprar… Foi uma medida pensada no bem dos alunos, mas que criava, logo no primeiro dia, uma subtil discriminação…
Não tenho a ilusão de que no final do ano lectivo os livros tenham só marcas de ter sido usado. Mas é com estes pequenos gestos que se ensina na democracia…o direito de ter acarreta o dever da responsabilidade.
Sei, por experiência própria, que há alunos que chegam ao fim do ano lectivo com os livros já sem capas, com nódoas de manteiga, com as folhas dobradas nos cantos…mas o apelo à responsabilidade, por motivos concretos e óbvios para os alunos, vai formar uma geração com mais respeito pela Escola, pelo bem público, pelo outro, uma geração que vai saber partilhar.

