FRATERNIZAR – A fazer lembrar certas revistas cor de rosa – Edição VP com mais de 200 caras duma imagem de pau! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

fraternizar - 1

 

 

Foi-se a pausa do período das férias de verão e VP, Semanário da Diocese do Porto (tiragem 7500 exs), regressa à casa das/dos assinantes com uma edição especial de 24 páginas, feita quase exclusivamente de fotografias, a fazer lembrar certas revistas semanais cor de rosa. Com uma substancial diferença: as mais de 200 caras reproduzidas nas paginas interiores do semanário, a começar pela que ocupa toda a largura e altura da primeira página não são de gente, nem sequer gente fútil, mulheres e homens, mas de uma imagem de pau, coroa na cabeça, encimada por uma cruz, manto pregado sobre os ombros e as costas, mãos postas com um terço do rosário e um escapulário pendente do pescoço. O título-manchete, lá bem no alto da página, esclarece: “Visita da imagem peregrina: olhar de gratidão e desafio de missão”. Sob a enorme imagem, um curto texto a três colunas informa o propósito de semelhante absurdo pastoral, levado à cena neste 16º ano do Terceiro Milénio na diocese do Porto. Lê-se o esclarecimento e não se acredita que a Direcção de um semanário, com a tradição de VP, dê cobertura e corpo a semelhante absurdo teológico e pastoral, só para satisfazer o desejo e a vaidade do bispo titular da diocese, D. António Francisco dos Santos, e dos seus três bispos auxiliares em pleno exercício de funções canónicas.

Vejam então com que tipo de eventos se ocupa este tipo de gente clerical na diocese. “Este – começa por dizer o texto – é um número especial da Voz Portucalense, com 24 páginas. Surge por ocasião da Natividade de Nossa Senhora (8 de Setembro) e da Festa da Dedicação da Catedral do Porto (9 de setembro), celebração do início do Ano Pastoral. O Bispo do Porto e os Bispos Auxiliares fizeram divulgar em 31 de maio de 2016, uma Nota Pastoral sobre a visita da imagem peregrina, preparando já o tema do novo Ano pastoral e o lema de acordo com a programação para o quinquénio: A alegria do Evangelho é nossa missão: Com Maria, renovai-vos nas fontes da alegria”.

Prossegue o texto, completamente fora da realidade contemporânea das populações que residem no território por onde se estende a diocese: “O Plano Diocesano de Pastoral 2016-2017, apresentado em 15 de Julho de 2016, acentua esta dimensão mariana que inspira o projecto deste novo ano. Tinha sido vontade manifesta do Bispo do Porto elaborar uma memória que ficasse como história da visita da imagem peregrina de Nossa Senhora à Diocese e ao mesmo tempo um contributo e motivação para a realização do Plano de Pastoral.”

E acrescenta: É nesse sentido que dedicamos este número a esse conjunto de acontecimentos, com uma entrevista a Dom António Francisco e com intervenções de quatro sacerdotes especialmente ligados à sua elaboração: o Cónego Jorge Cunha, Adélio Abreu, Amaro Gonçalo e Emanuel Brandão de Sousa, textos que acompanham as imagens mais reveladoras e alguns testemunhos de participantes.”

Para concluir, de forma totalmente patética e delirante: “No dizer dos Bispos do Porto, «a visita da imagem peregrina ensinou-nos a viver juntos, a estar próximos e a ser irmãos como uma grande família diocesana, em que a presença de todos e de cada um, na sua singularidade, tornaram possível este abençoado encontro de Nossa Senhora com a Cidade da Virgem e com a Diocese, de que é Padroeira»”.

Até parece que os bispos estão a falar de alguém de carne e osso deste nosso hoje, que veio em prolongada visita ao território diocesano para se encontrar ao vivo com as populações, e não de uma inestética imagem de pau para toda a colher, à qual são atribuídos todos os nomes e mais algum. Até a cidade do Porto deixa de o ser, para passar a ser, no estéril linguajar clerical, “a Cidade da Virgem”, a mesma que, pelos vistos, foi objecto deste “abençoado encontro de Nossa Senhora”. Nem vêem os bispos da Diocese que estão a falar de realidades míticas, não históricas. E que só neste universo dos mitos podem eles falar de duas entidades distintas, uma chamada “Nossa Senhora” que veio de visita à “Cidade da Virgem”, quando na verdade estão a falar do mesmo mito feminino, com múltiplos nomes, conforme a vontade do freguês. Uma salgalhada de todo o tamanho, própria de cérebros clericais esquizofrénicos que tomam por realidade maior e única os mitos e todos os ancestrais fantasmas com que andam povoadas as suas mentes, desde a infância. Sem nunca se ter chegado a desenvolver neles a consciência crítica, própria de gente adulta, e isto, apesar de anos e anos de escolaridade, inclusive, ao nível académico superior. Ou precisamente devido a essa escolaridade ao nível académico superior eclesiástico.

Confrange tanto vazio histórico, tamanha mediocridade teológica e pastoral, em homens que se têm na conta de “guias” e de referências morais para as populações do território. Embora sejam homens de carne e osso, acabam por ser, no seu dia a dia, em tudo semelhantes às imagens de pau de todas essas nossas senhoras e de todas as outras inúmeras imagens de pau ou de caco de santas e de santos, de cristos e de cruzes plantadas em tudo quanto é sítio, com destaque para os altares das igrejas e em nichos públicos de mau gosto erguidos nas bermas ou nas curvas das estradas, entregues aos cuidados de zeladoras de altar, às quais sempre faltou a componente estrutural do amor e do prazer sexual erótico, ao longo de anos e anos de mulheres solteironas ou casadas, mas reprimidas por moralismos rascas que as catequeses nos anos das respectivas infâncias marcaram negativamente para o resto das suas vidas. No que perfaz um crime histórico, não mítico, de lesa-humanidade, completamente irreparável.

Reza o título do texto do Cónego Jorge Cunha, professor da UCP, à guisa de Editorial: “Maria, Mãe do Senhor e o Novo Ano Pastoral” (sic, com maiúsculas). Quem for capaz de entender que entenda. O trágico é que estes clérigos de proa, nos idos das suas infâncias, foram filhos de mulher e, até, de condição social pobre, mas agora aceitam andar aí como os filhos predilectos do poder religioso eclesiástico clerical, em antros académicos de luxo, completamente fora da realidade histórica. O deles é um universo de conceitos doutrinais,  sem qualquer correspondência na realidade quotidiana que todos os dias conhecem na carne as populações mais sofridas e mais assíduas nos templos e nos santuários das “virgens” e das “nossas senhoras”, onde perdem por completo a sua alma ou identidade e ficam reduzidas a coisas, mergulhadas em quotidianos vale-de-lágrimas.

Na mesma linha, sucedem-se os títulos dos outros três textos desta edição especial, respectivamente, Amaro Gonçalo, Emanuel Brandão de Sousa e Aurélio Fernando Abreu: 1, “Visita da imagem peregrina e centenário das aparições inspiram plano diocesano de pastoral 2016-2017”; 2, Lugar de Maria e da piedade mariana na pastoral”; 3, “Fátima e a renovação pastoral do catolicismo numa perspectiva histórica”. Surpreendentemente, aqui fala-se de “perspectiva histórica”. Só que vai-se a ver o corpo do texto e tudo não passa do universo eclesiástico versus o que os clérigos chamam de “mundo, demónio e carne, os três inimigos da alma” das antigas catequeses. É mesmo de partir a alma da gente, tanta alienação, com roupagem erudita. Manifestamente, o eclesiástico come a realidade, tida por ele como tentação e perdição das almas. É de bradar aos céus e à terra. Apreciem só, deste última texto, este naco de prosa clerical: “À laicização da sociedade, respondeu também a Igreja (sic, com maiúscula) com vários elementos favoráveis à cristianização das massas, como as missões populares e pregações, as festas e procissões, as peregrinações e devoções,, nomeadamente à Eucaristia, à Virgem Maria e ao Coração de Jesus.”

Não menos confrangedor é também o teor dos muitos testemunhos de gente criminosamente empobrecida e humilhada por toda a vida, recolhidos entre as muitos populares que saíram aos caminhos e às ruas para ver passar o “matermóvel” e a imagem de pau transportada por ele, graças ao motorista de serviço, já que a “senhora”, coitada, não anda, não se mexe, não fala, não ouve e, se não houver quem a desloque de um lado para o outro, apodrece no lugar onde a depositarem. Destes depoimentos, fica aqui um dos mais curtos, de um tal Miguel Faria, Sousa – Felgueiras: “É uma alegria que brota de dentro. Eu tenho muita fé em Maria e já olhei muitas vezes para o céu em Angola, na guerra do ultramar, e sinto que foi N.ª Senhora que me valeu em algumas das vezes. Peço-lhe sobretudo muita saúde, que às vezes falha, e dado que os meus ossos estão fracos”. Desolador, como se vê a olho nu.

Aqui fica um eloquente retrato do desgraçado estado actual da diocese do Porto. Os seus bispos são clérigos de proa, vestidos a rigor, mas sem nada de seres humanos. As suas mentes estão formadas/formatadas pelo cristianismo, do mais rasca. Todo o cristianismo é intrinsecamente mau, inimigo dos seres humanos. Pior, quando é rasca como o que esta edição especial de VP mostra à saciedade. Para vergonha da Direcção de VP, do Bispo titular, dos bispos auxiliares, dos cónegos, dos párocos, dos profs da UCPorto. Com uma igreja assim, nos antípodas de Jesus e do seu Projecto político de sociedade, as populações só podem viver na ilusão de que são escutadas por imagens de pau ou de caco, nas quais, para sua desgraça, confiam mais do que nelas próprias e nas suas vizinhas, nos seus vizinhos. Que a tanta humilhação as condenam o cristianismo e a fé cristã religiosa, intrinsecamente alienante e perversa que professam.

www.jornalfraternizar.pt

2 Comments

  1. Nunca é demais fazer ressaltar quanta diferença existe entre a intervenção revolucionária e decisiva de Jesus – Yoshua Ben Yosef – e a presença institucional da chamada Igreja Católica cujo vil reacionarismo não permite ver o Mundo como é. Sempre de costas viradas para o Sermão da Montanha,CLV

Leave a Reply to Carlos A P M Leça da VeigaCancel reply