HOMENAGEM A JOÃO CRAVINHO PELOS SEUS OITENTA ANOS – DE UMA CRISE A OUTRA, DA CRISE DOS ANOS DE 1930 NA ALEMANHA À CRISE DOS ANOS DA TROIKA — A EQUIVALÊNCIA NOS DISCURSOS POLÍTICOS, A EQUIVALÊNCIAS NAS POLÍTICAS ECONÓMICAS APLICADAS – II

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PARTE I: O quadro intelectual no início dos anos de 1930 na Alemanha

(conclusão)

As medidas de austeridade do chanceler Brüning

Heinrich Brüning, o novo chanceler nomeado a 24 de março de 1930 e também ele defensor da deflação salarial, serviria como uma transição para o regime desejado por Schacht e pelos seus protetores.

Assiste-se desde então aos primeiros passos em direção a uma ditadura, com a criação de um governo a viver sobretudo à base dos seus próprios decretos. Assim, entre 6 de dezembro de 1930 e 8 de dezembro de 1931, Brüning fez proclamar e votar quatro grandes “decretos-lei”. Ele explica nas suas memórias que num ano “os salários tinham sido reduzidos em média de 20 a 25%, sem que tenha ocorrido uma greve sequer, com exceção da greve selvagem na indústria metalúrgica de Berlim”. O quarto decreto-lei por si só previa baixas salariais de 10%. O seu objetivo era “levar os salários, os vencimentos da função pública e o custo de vida ao nível de 1913”. (Isto faz obviamente pensar no mais recente relatório do FMI para a França e nos múltiplos apelos para uma diminuição dos salários, especialmente os mais baixos, particularmente o salário mínimo).

Com uma política monetária fortemente restritiva, com um levantamento do preço do crédito e da taxa de desconto acima dos 20% deu-se neste período origem a um substancial “crédito crunch” com, entre outras coisas, uma redução do papel moeda em circulação na ordem dos 30% no final de 1932.

Como resultado, diminuiu o nível geral de preços, deu-se uma estagnação das vendas e assim verificou-se uma queda na produção e o aumento do desemprego. A sua consequência imediata foi a de que uma economia ainda enfraquecida pela Primeira Guerra Mundial ficasse ainda mais enfraquecida. Deste modo a recessão dinamizada pelo efeito da politica monetária fortemente restritiva sobre os preços gerou uma espiral deflacionista auto-sustentada, continuando a fazer subir o nível de desemprego.

Alguns decretos de emergência do Chanceler Heinrich Brüning iriam então fatalmente ainda gerar uma maior forte pressão à baixa do nível geral de preços. Especialmente o decreto sobre a poupança de 08.12.1931, segundo o qual a despesa pública deve ser ajustada à diminuição das receitas fiscais e dos preços, contribuiu para reforçar os efeitos da política de oferta monetária restritiva à economia e, portanto, levou à contração da produção e do consumo e levou ainda a que o número de desempregados no final de 1932 tenha aumentado para mais de 6 milhões de pessoas.

 

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                                                  A taxa de desemprego na República de Weimar
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                       O PIB ajustado pela inflação e o índice geral de preços na Alemanha

Esta austeridade falhou redondamente nos seus objectivos, a deflação aumentou de ritmo e a consolidação orçamental não foi conseguida. Por outro lado, a situação cambial agravou-se, a taxa de juro permaneceu muito alta o que, com a carga fiscal crescente, impediu toda e qualquer retoma da economia.

A sequência de um jantar macabro

Entretanto, Schacht continuou as suas consultas para colocar Hitler no poder, quando chegasse a altura. Assim, em 5 de janeiro de 1931, jantou na residência de Hermann Göring, na companhia de Goebbels, do industrial Fritz Thyssen e do próprio Hitler.

Nesse jantar na casa de Göring, para o qual Schacht e a sua mulher tinham sido convidados, para além de Göring e da sua mulher, estava também o casal Goebbels e o industrial von Thyssen ou, por outras palavras, estava o exército representado por Göring, a propaganda representada por Goebbels, a grande indústria por Thyssen e o capital financeiro por Schacht. Os quatro pilares do regime estavam pois ali reunidos. Entra então Adolfo Hitler.

Nada de espantar em tudo isto. Hitler comporta-se na casa de Göring como estando na sua casa. Göring, um herói da Luftwaffe durante a Primeira Guerra Mundial e Josef Goebbels, o jornalista que se tornou o ministro da propaganda do regime, são nazis desde a primeira hora. Todos eles entraram para o partido em 1922. Göring tornou-se imediatamente próximo de Hitler, enquanto Goebbels estava mais próximo dos irmãos Strasser com quem Hitler estava em concorrência para a direção do movimento nazi. Depois ligou-se a Hitler e tornou-se um dos seus elementos mais fiéis.

A presença de Fritz Thyssen era também ela natural. Desde 1923 que este industrial rico simpatizava com o partido nazi, ao ponto de ser um dos seus principais fornecedores de fundos. Os cem mil marcos-ouro que Thyssen deu a Hitler em 1923 permitiram ao líder nazi financiar a sua tentativa de golpe de Estado em Munique. Mais tarde, em 1930, compra na companhia de outros, também muito ricos, um imóvel de Munique, a Braune Haus (a casa castanha), que se torna a sede do partido nazi. Thyssen renovou totalmente o edifício e por conta própria. Curioso destino o deste homem, porque sendo apoiante fiel de Hitler não era antissemita e acreditava piedosamente na coabitação dos povos e das religiões. Além disso, era um homem impregnado de uma ética pessoal forte. Thyssen queria viver de acordo com esta ética pessoal de respeito por uma religião que era odiada pelos seus pares no partido. Este género de esquizofrenia era difícil de se manter na época do III Reich. A noite de cristal de 9 de novembro de 1938, no decorrer da qual as lojas e os armazéns dos judeus foram devastados por toda a Alemanha enquanto as famílias judias foram sujeitas a violentos pogroms, actuou sobre Thyssen como uma revelação: Thyssen foge para a Suíça e depois para a França. Dois anos mais tarde refugia-se em Nice. No fim dos anos de 1940, a polícia de Vichy prende-o e entrega-o à Gestapo: Tal como Schacht alguns anos mais tarde, farão parte dos prisioneiros “especiais” de Hitler, os prisioneiros que viverão uma longa estadia nos campos de concentração, mas beneficiando aí de um regime especial que lhes deixava alguma probabilidade de viver.

Schacht e Thyssen, os representantes do grande capital industrial e financeiro, sobreviverão à aventura nazi. Os três outros convivas do jantar, Hitler, Goebbels e Göring suicidar-se-ão. Um testemunho talvez da superioridade imemorial do poder do dinheiro sobre o poder da política, mesmo numa época de uma extrema violência como a que viveram.

Seja como for, na noite glacial de Berlim de 5 de janeiro de 1931, cinco homens, dois futuros prisioneiros do sistema que iriam criar e três futuros suicidados por causa do regime que estabeleceram, estavam reunidos para saborear em toda a urbanidade uma sopa feita à base de carne de porco que fez parte do frugal jantar oferecido pelo casal Göring.

Adolfo Hitler, que mal toca na comida, não é um homem que se mostre rico e poderoso como Schacht. Está vestido de uma forma muito simples mas quase tão sóbrio quanto o fato escuro de Schacht: Não precisa de sinais exteriores para impressionar aqueles que o rodeiam. Basta-lhe falar. E Hitler toma a palavra.

Schacht fica impressionado pela resolução do líder político nazi e pelo sentimento de absoluta confiança que dele sobressai. Hitler ocupa totalmente o espaço e cativa o auditório. Goebbels e Göring nada mais fazem que escutá-lo, sem dizerem uma só palavra que seja, contentando-se em sublinhar por um sinal de cabeça a sua aprovação por aquilo que o líder dizia. Thyssen interveio mas muito rapidamente e somente quando Hitler começou a abordar as questões financeiras.

Schacht, por seu lado, está bem atento às palavras de Hitler. Estas não têm nada de irrazoável e não apresentam nenhum não-senso económico como Schacht poderia recear. Hitler não faz nenhum discurso de propaganda mas expõe, com calma, com pedagogia e com uma determinação quase que palpável, o que seria a sua ação para a retoma da economia alemã se fosse chamado ao poder.

Mas Schacht não fica completamente convencido pelas ideias de Hitler. O chefe nazi explica que quer acabar com o desemprego endémico que mina a sociedade alemã — seis milhões de desempregados, lançando para o efeito programas de grandes trabalhos de infraestruturas e de renovação industrial. No plano dos princípios, era uma boa ideia, mas isto não chegava. Hitler não tinha nenhuma ideia quanto à forma de o conseguir levar por diante. Ele não mede os riscos sobre o equilíbrio monetário que apresenta uma política de relançamento da economia: o regresso da inflação significaria a ruína de todos estes belos projetos. Da mesma forma, Hitler não tinha nenhuma ideia quanto ao financiamento do seu plano de investimentos. Obter empréstimos? Mas de quem? Aos próprios alemães, através de uma subscrição nacional?

Com seis milhões de desempregados no país, Schacht sabe muito bem que todas as famílias têm pelo menos um desempregado seja no seu agregado familiar seja nos seus familiares mais próximos. A população inteira sofre deste desemprego e restringe o seu consumo; por outro lado, a poupança das famílias alemãs foi laminada pelas sucessivas crises financeiras. Consequentemente, pouca esperança de mobilização de recursos nacionais próprios da Alemanha.

Ou obter empréstimos dos americanos ou ingleses?

No passado, estes ajudaram os alemães em especial quando Schacht estava no comando dos mercados financeiros. A presença do grande financeiro à frente do Reichsbank inspirava-lhes então confiança. Esta confiança teria desaparecido: os bancos estrangeiros procuravam a todo o custo recuperar os seus capitais. Para inverter esta tendência e atrair capitais estrangeiros seria necessário um homem que restabelecesse essa confiança. Hitler não seria certamente esse homem, e os economistas de que dispõe no seu partido, como Walther Funk, um jornalista sem grande talento, ou Gottfried, não têm nenhuma audiência fora do partido.

Não, para isso seria necessário um verdadeiro economista de estatura internacional e que pudesse orientar o programa nazi no sentido apropriado. Então, Doktor Schacht, que pensa disto, pergunta Hitler. Herr Hitler, o vosso programa é sedutor, mas estão por resolver questões de base. Por exemplo… Gut, interrompe Hitler. Você terá sem dúvida razão. Depois de tudo, o senhor é que é o especialista. Mas eu registo que o senhor aprova o programa, que aprova as minhas propostas. Mas Herr Hitler, tenta recomeçar Schacht. Há mesmo assim um problema de meios… O senhor tem razão de novo, Doktor Schacht, interrompe Hitler. Os meios! O financiamento! Nós devemos imperativamente encontrar os meios necessários, primeiramente para alcançarmos o poder, depois para pôr em prática o nosso programa de relançamento da economia alemã. Fritz está lá para nos ajudar, acrescenta ele indicando Thyssen. Além disso, o partido regista diariamente novas adesões. Nós iremos ser a primeira força política na Alemanha nas próximas eleições. Mas é preciso fazer mais, mais depressa e mais em força. A retoma da economia alemã depende de tudo isto. O senhor, Doktor Schacht poderá desempenhar um grande papel. Certo, Herr Hitler, mas tudo isto é um pouco prematuro e… Jawahl, Doktor Schacht! Nós veremos os detalhes mais tarde. De imediato, proponho-lhe agir assim ….

E Hitler continuou o seu discurso com Goebbels e Göring que, de vez em quando, opinavam silenciosamente sobre as posições do chefe para marcarem a sua aprovação.

Uma outra característica do chefe nazi espanta Schacht: uma discussão com Hitler representa 95% de monólogo e 5% de diálogo. Mas era igual: no fim da discussão da noite, Schacht sente germinar nele a convicção de que Hitler corretamente acompanhado e orientado pode tornar-se o líder de que o país tanto precisa para sair das areias movediças nas quais se vai atolando dia a dia.

À saída da casa dos Göring, com os pés na neve, Hitler despede-se de Schacht com um aperto de mão. Schacht saúda Thyssen e a família Goebbels, ajuda a sua mulher a entrar no seu carro, pega no volante e, dada a hora tardia, já não vão para a sua residência em Guhelen, a sessenta quilómetros dali. Ficam no hotel Adlon. Entra muito compenetrado no hall do hotel intensamente iluminado. É interrompido na sua reflexão pela sua mulher.

Sabes, Schacht, tu deves ajudar Hitler. Este Hitler é o homem de que todos nós temos necessidade. Junto de ti já me cruzei com grandes homens, com grandes dirigentes mas nunca senti um tal magnetismo em nenhum deles, mesmo com o presidente americano Hoover. Schacht não responde, habituado que está a tomar decisões na base da razão e não nos afetos. Mas desta vez está de acordo com a sua mulher. Porque acha que Hitler pode constituir uma solução. Está decidido, Schacht vai ajudar Hitler.

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Para ler o início de O quadro intelectual no início dos anos de 1930 na Alemanha, publicado ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

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