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Dorindo Carvalho: «O Sentido Trágico dos Limites» – 3. A primeira fase: entre a «deformação» expressionista e o neo-realismo- por José Fernando Tavares*
Há, em cada percurso criador, um momento peculiar em que o artista inscreve, num espaço físico por si determinado, o seu traço anunciador. Geralmente é nesse traço originário que o criador imprime a verdade que ele é, ou seja, a impressão digital da sua própria alma. E isso acontece mesmo que, à partida, ninguém esteja na posse da utensilagem essencial para reconhecer esse traço originário. Isso pouco importa, porém, pois não tarda que seja o próprio artista a fornecer àquele que contempla o seu trabalho, essa utensilagem básica, mesmo que o seu estilo ainda esteja longe de uma definição.
No caso de Dorindo Carvalho, não nos é difícil acreditar que a marca definidora do seu estilo está presente desde o seu primeiro trabalho plástico. Na primeira exposição em que participa, ainda em Luanda, em 1963, colectiva de pintura em que também participam nomes como Cruzeiro Seixas e Rocha de Sousa, Dorindo deixa logo transparecer essa marca decisiva que irá definir o seu traço daí para diante. A participação de Dorindo Carvalho nesta exposição não passa despercebida ao olhar lúcido e atento de Heitor Gomes Teixeira, um ensaísta que soube percepcionar, não apenas a perspectiva africanizante (ou seja, longe das influências francesas, ainda muito em voga nos meados do decénio de 60) presente no estilo do pintor, mas também a perspectiva humana aí visível. Na verdade, o que é visível na obra de Dorindo, a partir desta fase é a própria condição humana. Não se trata do homem estático prefigurado pela tendência figurativa: o homem que Dorindo representa é o homem dinâmico, aquele que procura o seu sustento à custa do corpo e do esforço físico. Barril de Água (1963) é um indício definidor dessa marca humanista que estará sempre presente na obra de Dorindo. O homem negro que puxa o pesado barril é um feixe de músculos e de nervos. A figura assume uma perspectiva oblonga, o tronco inclinado para a frente e os pés bem fincados na terra, o corpo recamado de um suor lustroso, a contrastar com a pele escura e habituada ao sacrifício. Há neste trabalho uma clara alusão ao drama da escravatura. Heitor Gomes Teixeira, no catálogo da referida exposição, fala-nos «na trágica aceitação do trabalho como destino e penitência, o orgulho dos pés firmes no chão sem deus ou do rosto ocultando-se à piedade». O mesmo acontece com outro trabalho, intitulado Vendedeira de Abacaxis (1963), donde ressaltam a mesma força e a mesma determinação pela sobrevivência. A característica que nos permite distinguir este quadro do figurativismo tradicional reside na pose da vendedeira, que estende a mão para a recolha da esmola. Uma mão aberta «ao respeito e à veneração, mais do que à esmola do preço», como também nos diz Heitor Gomes Teixeira.
Esta mulher possui os mesmos traços africanizantes, a mesma robustez física, coroada por uns lábios grossos, poderosos, de onde parece irromper um grito, não de desespero, mas sim de esperança, uma espécie de feliz resignação perante o destino. Parece haver, nesta fase inicial da obra de Dorindo, uma acentuada preocupação social, circunstância que transforma estes quadros em documentos vivos em torno de um aspecto universal da condição humana, ou seja, a própria sobrevivência.
É ainda em 1963 (ano decisivo para o pintor) que surgem desenhos fundamentais, tais como Quitandeira, Engraxador, Pescador de Luanda, Cubatas, Pescador, entre outras criações. Mantém-se o mesmo traço africanizante, a mesma força na definição dos tipos, a revelação de uma condição humana que se aceita sem reservas.
É na mesma época que surgem outros trabalhos, nos quais é possível observar, uma vez mais, aspectos referentes à condição humana. É de notar que esta dimensão humana estará, desde então, presente em toda a obra futura de Dorindo Carvalho. Na fase que se segue ao momento africanizante (se assim podemos classificar esta fase), há uma mudança de traço no modo de representação da figura humana. Nos trabalhos que intitula Pastores Alentejanos, Camponesa ou Cego, também do decénio de 60, a representação das figuras resulta de uma nova elaboração do traço. Dir-se-ia que a figura é apenas intuída, esboçada, idealizada. Há uma leveza no traço, o qual apenas aponta, sugere, sem que a figura perca a força da sua humanidade. Mantém-se a mesma deformação expressional visível nos trabalhos iniciais.
Esta decisão do traço é já um sinal de modernidade: a intuição formal irá ser uma prática comum na pintura portuguesa dos decénios de 70 e de 80, nomeadamente em autores como Júlio Pomar ou Artur Bual. De resto, não será de todo impreciso observar que esta tendência mo-dernizante constitui outro dos aspectos que são constantes na obra de Dorindo, como iremos tentar realçar em seguida.
O decénio de 60 conhece também outra fase não menos significativa na obra do pintor. Esta terceira fase é repassada, desta vez, por um figurativismo abstracto, quase surrealizante, no qual também é possível observar a mesma leveza do traço, a mesma intuição formal. É em 1965 (ano decisivo na história do Ocidente, pois representa o momento mediador de um decénio de profunda viragem no Ocidente), no VII Salão dos Novíssimos, organizado pelo Secretariado Nacional de Informação, que Dorindo dá a conhecer o seu figurativo abstracto, através de quadros tão representativos como A Vendedeira de Peixe, ou A Vendedeira de Violetas. Este figurativismo abstracto resulta, como dissemos, de uma intuição intencional. O figurativo está presente, uma vez mais, na dimensão humana que o pintor imprime aos seus trabalhos.
O seu lado abstracto reside na liberdade do traço, na sua incontinência calculada, na peculiaridade da forma, que possui a sua verdade na força de um humanismo que se impõe e imediatamente se reconhece. É neste humanismo que reconhecemos também uma outra dimensão da arte de Dorindo, a qual reside na tendência neo-realista. Não é de estranhar que a temática neo-realista entronque no traço do pintor, dada a envolvência cultural e epocal que o artista respira.
Torna-se difícil, mesmo para quem possui a preocupação declarada de optar pela deformação expressionista, passar ao lado da influência neo-realista, mesmo de uma forma inconsciente.
O peso cultural e social desse movimento estético-literário exerceu uma pressão que podemos considerar decisiva no imaginário criador da primeira metade do século xx em quase toda a Europa, sobretudo nos países que se pautam pela cultura românica.
O decénio de 60, no que respeita ao espaço português, e dado o relativo desacerto temporal dos movimentos culturais europeus em relação aos movimentos congéneres de expressão nacional, ainda se permite alimentar dessa envolvência neo-realista durante mais algum tempo (no caso da arte literária, por exemplo, podemos aventar que o movimento neo-realista ainda teve manifestações pontuais até meados do decénio de 80, quando, na restante Europa, o movimento há muito se havia extinguido). É de notar ainda que esta tendência realista é mais uma das coordenadas constantes na obra de Dorindo, aspecto que nos faz compreender as próprias preocupações sociais do artista. As alusões económico-sociais que são visíveis nesta fase do seu trabalho artístico, e apesar da liberdade e da originalidade do traço, não deixam de possuir alguma cumplicidade (embora esta visão em nada signifique comprometimento com o regime) com a perspectiva ideológica de um momento específico da política do Estado Novo, cuja estratégia incluía a propaganda do nacionalismo português através da divulgação (bastante generalizada) da imagem física do próprio povo. Dir-se-ia que, nesta fase da pintura de Dorindo, o artista se deixa absorver por esta visão nacionalista (aspecto que o SNI teria achado muito bem), e se apropria dela, ou seja, dessa generalização popularista, tornando-a sua através do traço inconfundível.
Por esta época (e referimo-nos ainda aos anos de 60), Dorindo Carvalho é, de facto, um novíssimo, que está prestes a irromper para o mundo da arte, apesar do silêncio que o regime determina e apesar dessa solidão confrangedora que assalta os jovens artistas que se movem no espaço da cultura e da língua portuguesas. Embora se trate de uma época de viragem, o país mantém-se num isolamento calculado, de tal modo que muito dificilmente a arte portuguesa (não apenas a arte plástica, mas também a música e a literatura) poderia irromper as exíguas fronteiras da sua prisão territorial. Por outro lado, a imposição de uma ideologia rígida, pouco aberta à inovação estética, cerceava muita dessa criatividade emergente.
Apesar desta realidade confrangedora, supomos que se tratava mais de uma mordaça ilusória do que de um perigo efectivamente real. De facto, criou-se uma mitologia no mínimo curiosa (porque se tratava de uma crença expectante), pelo menos no seio do universo literário, de que existia uma número infindável de obras que estariam muito bem guardadas na gaveta e que os autores não podiam publicar devido à barreira da censura. Na verdade, e após a instauração do regime democrático em 1974, verificou-se que essas obras não podiam vir a lume, simplesmente porque não existiam. O que talvez existisse era a vontade de as fazer, mas a vontade não basta para efectivar um projecto. A ambição criadora, a par da ambição económica, faz parte do vasto acervo de desejos experimentado pelo homem contemporâneo.
A vontade criadora é apenas o princípio de um vasto processo, muito mais complexo do que a própria vontade, ou até mesmo a própria história, poderá julgar.
Dorindo Carvalho manter-se-á fiel a si mesmo, ou seja, com a mesma independência de espírito que havia revelado desde os seus tempos de África; mais do que isso: fiel à sua própria vontade. Seria essa fidelidade ao apelo estético interior que lhe iria permitir dar corpo a uma obra que, ainda em pleno período formativo, já podemos considerar sólida, apesar do experimentalismo que nela ainda se faz sentir. É de notar, contudo, que esse tom experimentalista está presente ao longo de toda a obra do pintor. Essa dimensão experimental é perceptível ao longo do percurso criador dos grandes autores. Dorindo não foge à regra: a sua preocupação irá centrar-se sempre mais na busca de novos caminhos para a sua arte, do que propriamente na sua promoção pessoal, como dissemos.
A utilização da técnica mista permite-lhe recriar motivos realistas sem que, contudo, perca essa orientação original à qual ele havia chamado «deformação expressionista». Irá servir-se das té-cnicas da gravura para o desenho de motivos realistas, como é visível nos trabalhos a que intitulou Maternidade, Menina com boneca, Mulher com trouxa à cabeça, ou Rapaz com arco, todos eles de 1965. Nestes desenhos, Dorindo não reproduz, como já vai sendo habitual no seu estilo, a realidade tal como ela é percepcionada pelo olhar convencional. Dir-se-ia que o real que percepcionamos na obra de Dorindo não se confunde com a realidade de todos os dias. Porém, há nestes trabalhos a expressividade de um realismo que nos toca pelo dramatismo da presença humana. Não é difícil ao observador convencional percepcionar o movimento líquido de um útero habitado, assim como também não lhe passará despercebida a tristeza magoada estampada no rosto da menina com a boneca pela mão. Mesmo que se não saiba a razão da sua tristeza, esta menina vem lá do fundo dos tempos, afinal de um tempo qualquer, um tempo que acentua o mistério da sua presença enigmática.
Dorindo deu corpo e expressão à sua Gioconda. Todo o artista plástico acaba sempre por criar, um dia, a sua Gioconda privada, mesmo que disso se não dê conta. Talvez Leonardo também não se tivesse apercebido do poder encantatório e imortal da sua feminil e misteriosa criatura.
Se, na obra de Dorindo, o real não se confunde com a realidade, também a «ideologia» que a sua arte professa não deverá confundir-se com as concepções estéticas veiculadas por um senso comum particularmente redutor e hostil perante um modo de expressão plástica individual.
A verdade que os seus desenhos encerram tem muito mais a ver com a essência da realidade do que com a sua imagem tridimensional ou holográfica. É de notar que o arrojo da forma justifica-se plenamente quando há um corpo de ideias, mesmo desordenadas, que desejam irromper para a superfície plana de um papel, ou de uma tela, em branco. É assim que nasce o fascínio (mas também o repúdio) pela expressão estética.
É assim que se explica essa representação simbólica do menino com o arco: na aparente abstracção do rosto, esse menino simboliza todos os meninos do mundo que tiveram uma certa infância que também já faz parte de um passado não muito distante.
Hoje, os meninos já não brincam com o arco nem com as galinhas do campo, mas faziam-no no tempo em que Dorindo era ainda criança. Nesta fase da sua carreira, Dorindo reflecte na sua arte a existência de um Portugal cada vez mais remoto. Até mesmo a imagem da mulher com a trouxa à cabeça se reporta a uma realidade que já não é a de hoje, mas que ainda existia no decénio de 60.
É a partir de 1967 que Dorindo vai experimentar uma outra fase, a qual não deixa de ser o prolongamento da anterior. O tratamento das roupagens, que se estendem pela superfície da folha fazendo lembrar um terreno cultivado, mais propriamente a sua estilização abstracta, irá fazer-se sentir nos trabalhos que expõe na Galeria do Diário de Notícias, na referida data de 67. Dorindo mergulha directamente na representação abstracta. Desta vez, o olhar do pintor centra-se num conjunto de formas que fazem lembrar máquinas com a sua estrutura complexa e irregular.
Há um conjunto de formas que se dispõem numa ordem que só o olhar do público pode determinar. Dir-se-ia que o pintor questiona a essência da própria matéria, dando-lhe cor e relevo. Denota-se o granulado da areia, o vidrado das superfícies, o ocre da terra. Este conjunto de trabalhos não deixa de corresponder também a um certo experimentalismo, dada a intenção e a situação destes trabalhos no contexto geral da sua obra.
Pelo que acabamos de expor, é no decénio de 60 que Dorindo Carvalho conquista o definitivo arrojo formal que lhe permite prosseguir a sua carreira, uma carreira que, como se verá, sempre se fez preencher de plena virtualidade.
Vê o seu trabalho reconhecido ao receber, em 1968, a medalha de bronze no VI Salão de Arte Moderna da Junta do Turismo da Costa do Sol e a medalha, também de bronze, no III Salão de Artes Plásticas de Setúbal, respectivamente com os trabalhos O homem que voa e O rei, trabalhos que vêm confirmar e afirmar um talento que se já encontra em plena pujança criadora.
É nesta fase da sua vida que Dorindo passa a dedicar-se ao desenho gráfico como forma de sobrevivência, actividade que se estende até ao presente e na qual sempre imprimiu a mesma virtualidade e a mesma pujança criadora, o mesmo arrojo na forma e na expressão. Já aqui nos havíamos referido às capas dos livros das Publicações Europa-América, sobretudo daquelas que ilustraram a colecção dos livros de bolso na sua primeira fase: essas capas foram decisivas para todo e qualquer leitor que tivesse tomado contacto com esses livros, cujo preço económico tinha por objectivo chegar a um público vasto e variado, um público tão vasto quanto a própria extensão da colecção. Os desenhos de Dorindo permaneciam na retina do leitor mesmo sem este disso se dar conta, tal a força do traço e da expressão. Já nos referimos ao profundo humanismo que esses desenhos deixavam transpirar; um humanismo, repetimo-lo, que se não pode esquecer, sobretudo por parte daqueles, como nós, que devem uma boa parcela da sua formação aos autores, portugueses e estrangeiros, que Dorindo ilustrou de uma forma exímia, original e inesquecível.
Hoje, os meninos já não brincam com o arco nem com as galinhas do campo, mas faziam-no no tempo em que Dorindo era ainda criança. Nesta fase da sua carreira, Dorindo reflecte na sua arte a existência de um Portugal cada vez mais remoto. Até mesmo a imagem da mulher com a trouxa à cabeça se reporta a uma realidade que já não é a de hoje, mas que ainda existia no decénio de 60.
É a partir de 1967 que Dorindo vai experimentar uma outra fase, a qual não deixa de ser o prolongamento da anterior. O tratamento das roupagens, que se estendem pela superfície da folha fazendo lembrar um terreno cultivado, mais propriamente a sua estilização abstracta, irá fazer-se sentir nos trabalhos que expõe na Galeria do Diário de Notícias, na referida data de 67. Dorindo mergulha directamente na representação abstracta. Desta vez, o olhar do pintor centra-se num conjunto de formas que fazem lembrar máquinas com a sua estrutura complexa e irregular.
Há um conjunto de formas que se dispõem numa ordem que só o olhar do público pode determinar. Dir-se-ia que o pintor questiona a essência da própria matéria, dando-lhe cor e relevo. Denota-se o granulado da areia, o vidrado das superfícies, o ocre da terra. Este conjunto de trabalhos não deixa de corresponder também a um certo experimentalismo, dada a intenção e a situação destes trabalhos no contexto geral da sua obra.
Pelo que acabamos de expor, é no decénio de 60 que Dorindo Carvalho conquista o definitivo arrojo formal que lhe permite prosseguir a sua carreira, uma carreira que, como se verá, sempre se fez preencher de plena virtualidade.
Vê o seu trabalho reconhecido ao receber, em 1968, a medalha de bronze no VI Salão de Arte Moderna da Junta do Turismo da Costa do Sol e a medalha, também de bronze, no III Salão de Artes Plásticas de Setúbal, respectivamente com os trabalhos O homem que voa e O rei, trabalhos que vêm confirmar e afirmar um talento que se já encontra em plena pujança criadora.
Olá estou seguindo seu blog, gostei do conteúdo. Quando tiver um tempo e puder dar uma olhada no meu: rezenhando.wordpress.com e caso goste seguir também, ficaria grato!
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