É na enunciação desta postura metafísica, espiritual, que a obra plástica de Dorindo se situa.
O fascínio pelo corpo não se perde, até mesmo na sua fase mais recente. E não se perde porque existe, por parte do artista, a consciência de um princípio de que a humanidade se esquece frequentemente, mas que é tão real e constante quanto a constância da própria morte: trata-se do princípio que enforma os limites do humano. É na orla desse limite que devemos compreender a pintura de Dorindo, não apenas na sua fase actual, mas também na sua definição futura.
Um dos aspectos que definem a essência da arte (o qual ultrapassa o simples conceito de beleza) é aquele que consiste justamente na consciência de que há um limite para além do limite material propriamente dito, esse limite que é sempre o primeiro a ser medido e a ser considerado pelo olhar do observador. Há, assim, pelo menos, dois tipos de limite que podem ser tidos em conta no seio da arte, dos géneros e das formas artísticas: o limite temporal e o limite espiritual. Assim dito deste modo, poderá parecer que estamos a enunciar uma evidência. Trata-se, porém, de uma perspectiva que nem sempre é levada a sério no seio da crítica de arte.
O desejo de criar não se basta a si mesmo, assim como a delimitação da forma artística não se circunscreve ao limite de si mesma. Nada se circunscreve à sua evidência material, pois há uma orla invisível nos seres e nas coisas que determina a sua grandeza no seio da história cultural.
Esse limite de que Dorindo nos fala na sua importante exposição de 1998, é precisamente o limite que se estende para além de si próprio, o limite que se estende para além da arte, para além do limite físico do quadro. Se é possível falarmos de «transcendência» em pintura, é-nos legítimo, então, reconhecer essa transcendência na obra de Dorindo, pois é o pintor que manifesta o desejo de a enunciar, de torná-la visível ao olhar do espectador. É na posse dessa verdade transcendente que toda a verdadeira pintura encerra, que a obra de um artista poderá cumprir-se, mesmo que exista uma força temporal contrária, resistente a esse princípio metafísico.
Se essa força negativa existe, define-se através da gritante incompreensão que o nosso tempo manifesta perante as criações do espírito. Toda a arte maior permanecerá incólume perante aqueles que a ofendem, arrastados pela onda da sua própria (e trágica) incompreensão.
Pintar a invisibilidade pode ser também um dos limites da arte, talvez até a sua ambição maior. A arte de Dorindo não é ambiciosa, pois ela é, simplesmente. O seu trabalho pictórico nunca descura essa dimensão experimental que sempre lhe permitiu buscar novos caminhos até à definição definitiva da sua estética pessoal. É nesse carácter experimental que podemos reconhecer a sua humildade e também a sua grandeza. No quadro que intitula Limite translúcido, sem formas, sem corpo (1998) existe a preocupação de alcançar esse princípio da invisibilidade da forma. Não se trata de uma invisibilidade gratuita, pois há sempre o contorno de um corpo e, para mais, de um corpo humano. Este corpo translúcido não se confina ao seu íntimo limite material: a sua forma é aberta a todas as fronteiras do real. A ausência da forma, a par da ausência de um corpo, o qual se afigura ao espectador apenas enunciado, apenas intuído, confere a este quadro uma dimensão filosófica sem precedentes no seu trabalho anterior, resultante de um amadurecimento progressivo. A pincelada, cada vez mais segura daquilo que procura, torna-se firme e decidida, garantindo a determinação e a espectacularidade do quadro. Essa espectacularidade, de resto, estende-se aos restantes elementos da mesma exposição. O próprio auto-retrato do pintor assume uma forma determinada, plena da sua essencialidade. Trata-se de um Dorindo de braços musculados e de rosto decidido, quase temível.
Mas é no quadro intitulado O sentido trágico dos limites (1999), justamente aquele que encerra o álbum, que podemos encontrar a síntese (e o limite provisório, podemos dizê-lo) de toda a sua obra enquanto criador estético.
Não temos dúvidas em como a pintura de Dorindo Carvalho é subsidiária, não apenas de uma espiritualidade emergente, mas também de uma metafísica que se tem vindo a afirmar por si própria.
É o corpo humano, sempre e por fim, a assumir essa dimensão metafísica, a qual não deixa de ser uma dimensão trágica. Há uma tragédia inerente a todo o limite, da mesma forma que há sempre uma queda após a glória. Todo o homem é vítima do seu limite material; todo o homem, ao viver, está a preparar a queda no seu abismo particular. Há um abismo privado que sustenta a nossa capacidade de voar sobre ele, sobre essa boca definitiva que irá tragar as nossas asas de Ícaro. A arte de Dorindo fala-nos dessa singular e paradoxal condição humana; condição que apesar da sua finitude e do seu sentido transitório, permite ao homem comungar à mesa com os deuses, negociando o destino do universo.
Há uma postura grave, verdadeiramente trágica, na figura desse quadro memorável, quadro síntese, como dissemos, que encerra um ciclo complexo dedicado ao homem e à sua circunstância, simultaneamente material e espiritual. Mesmo que o pintor não tivesse atribuído um título a este quadro, há nele uma força, uma expressividade, um despojamento e uma evidência, que obrigam o espectador a reconhecer esse sentido trágico inerente ao homem contemporâneo.
Há nele uma parte obscura que contrasta com a clareza difusa de um crepúsculo qualquer, anunciado pelos tons ocre e acastanhado de um horizonte que faz confundir a terra com o céu. A figura queda-se, absorta, nessa parte obscurecida, plena de temores e de sombras. Mas é um corpo em evidência, um corpo que se debate, em silêncio, tragicamente, contra as trevas.
A arte de Dorindo aponta para esse carácter, simultaneamente transitório e invisível dos seres e das coisas, com incidência naquilo que é atribuível ao espírito humano. Há nela a expressão que remonta ao homem ancestral, como se o ocre que nele se recorta correspondesse ao pó dos séculos. A trágica sombra da sua vida, cujo limite é o corpo e a sua falência, contrasta com a explosiva perenidade do seu espírito. Exilado nesse limite, exposto à humilhação do tempo, acorrentado à contingência de um quotidiano que lhe pertence cada vez menos, o homem contemporâneo tende a ser uma criatura em suspensão, mercê da sua própria espiritualidade.
A vida, tal como a arte, é uma luta permanente contra o exílio do corpo e do tempo. Será ela uma luta inglória, ou, ao contrário, produz os seus frutos a longo prazo? Talvez seja na arte, e não apenas na vida (embora não saibamos onde se situa a fronteira entre estas duas perspectivas da realidade), que possamos encontrar a resposta às grandes interrogações do pensamento.
É nesse «limite (in)visível», para usarmos a nomenclatura de um quadro de Dorindo, que a arte se situa e se justifica perante a complexidade do mundo.