TRIBUTO A DORINDO CARVALHO – A ARTE É NECESSÁRIA? (2) – por Carlos Loures

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Em O Cárcere e o Prado Luminoso, uma pequena colectânea (Salamandra, Lisboa, 1990), dizia no poema de abertura, ironizando sobre a inutilidade da poesia: «Não é comestível/raramente diverte, antes pelo contrário,/ ou é exercício de melancolia/ ou é incompreensível; /desperta a apatia, a má vontade/ou a nostalgia do futuro./Em suma, só lembra/ coisas tristes ao operário./Um quadro mal pintado,/ se for bonita a moldura,/e as cores forem bem com os cortinados, /vende-se; a melodia/ se for inofensiva/nem precisa de ser bela, mas a poesia/ ou serve de pretexto à cançoneta/ou é in-con-su-mí-vel».

O Professor Luís de Albuquerque, agradeceu o livro e ao agradecimento juntou um poema, garantindo a perenidade da poesia. O pema terminava com estas palavras «Os poetas não são bichos em extinção/enquanto a poesia circular/mesmo que seja em meios pútridos/enquanto houver alguém que a sorva/como sorve o ar degenerado/de cada manhã irrepetível.»

A conclusão do ilustre sábio era, no fundo, coincidente com a minha – A poesia constitui o traço distintivo mais evidente do homem relativamente aos demais hominídeos (poesia entendida no sentido lato da capacidade de projectar e descrever aquilo que ainda não existe fisicamente – conceito, que de forma utópica ou distópica, nos avisa sobre o que o futuro nos reserva e  que engloba, naturalmente, a pintura e todas as expressões artísticas.  Quem quiser cópias fiéis, recorra a um fotógrafo estúpido e sem imaginação. Se tiver alguma destas qualidades, escolherá ângulos. luminosidade, sombra ou escuridão…

E não vamos aqui discutir o velho conflito entre forma e conteúdo – é uma discussão tonta. A pintura, tal como a literatura, é um conjunto de cores, conceitos, formas-… Quem não sabe ler, pode olhar um milhão de vezes para um soneto de Petrarca – nada compreenderá – por que motivo, sem aprender a «ler» a pintura, haveria de compreender um quadro de Picasso? A compreensão da pintura, implica estudo – aprender a ler. Exigir a um pintor que reproduza com rigor o objecto de um quadro é o mesmo que considerar que a afirmação «chuva em Novembro – Natal em Dezembro» é poética. A iliteracia relativamente à pintura. Numa exposição em Serralves, ante um quadro de Paula Rêgo, alguém comentou – «Formidável!», baixando a voz, acrescentou «Mas nunca o poria numa parede de minha casa», Paula Rêgo não tem dó dos «amantes do belo». A beleza da sua pintura resulta da crueldade com que denuncia a realidade.

E a pintura de Dorindo Carvalho?

(Conclui amanhã)

Dorindo Carvalho

 

 

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