O MAPA (A saga do anadel) – A missão/38 – por Carlos Loures

Sem tardança, como el-rei ordenara, os meirinhos levaram Lourenço de volta à prisão do Tronco, onde açodado pelas ordens do beleguim e pelos empurrões dos sequazes, reuniu a toda a pressa os haveres que lhe haviam permitido ter no cárcere: a capa que tão útil lhe fora, um capeirão, mais alguma roupa que entretanto a família lhe trouxera, uma bolsa com moedas – alguns vinténs de prata e, sobretudo, peças de ceitil e cinquinhos de cobre. A espada com que ferira o fidalgo, «amigo e criado de Sua Majestade», a adaga com que seu pai fora assassinado, que trazia consigo como um cilício da memória, a loriga e a cota de malha, ficaram-lhe apreendidos desde quando o levaram para o hospital judaico e depois para o de São Jorge. Sem esperanças de ser bem sucedido, pediu todas estas coisas de volta. A resposta foi a esperada – ser-lhe-iam restituídas quando e se regressasse da missão:

– Um grumete ou um gageiro não precisa de uma espada, de um punhal e, muito menos de uma cota de malha – rosnou com um sorriso escarninho o beleguim. E acrescentou – Uma vassoura ou uma escova e um balde com água e sabão, irão fazer-vos, por certo, muito mais falta. – Riu-se, parecendo achar espirituosa a sua estúpida observação. E, apesar de insistentes rogos, impediram-no de se despedir ou de falar com alguém – familiares, do senhor alcaide-mor, de camaradas da guarnição, antigos professores ou amigos. Gostaria também de se ter despedido de Débora. A resposta foi seca: não havia tempo para despedidas – a família seria informada da sua viagem «de modo adequado», para que não ficasse preocupada. Quanto ao senhor alcaide-mor, estava ao corrente da situação. Sendo assim, nada mais havia a fazer. À porta do presídio foi entregue, como mercadoria pouco valiosa, à guarda de um outro oficial de justiça igualmente mal-encarado. Deste modo, apesar da hora adiantada a que isto decorria, montados em cavalos e iluminados por archotes, levaram-no, descendo as íngremes calçadas, desde a prisão até ao rio de porto. A temperatura era amena, temperada por uma brisa vinda de sobre o rio e que fazia ondear as chamas das tochas de resina que iluminavam o caminho.

As trevas fechavam-se ainda avaramente sobre o casario de Lisboa, quando o fizeram subir a bordo da carraca flamenga, a tal Leeuwarden. O beleguim entregou-o quase sem pronunciar palavra ao homem que os veio receber ao portaló, um contramestre flamengo, também de má catadura e modos brutais, dando-lhe ainda uma bolsa com dinheiro e o que parecia ser um rolo selado. Pelos vistos, o negócio fora já de antemão combinado.

Depois disto, sem qualquer despedida, viraram-lhe as costas e regressaram a terra. Lourenço estava agora entregue à sua sorte. O homem que o recebeu chamava-se Johannes Peter, ou mais simplesmente Jan Peter, como depois veio a saber. Era apenas um pouco mais velho do que ele, de cabelo claro e basto, pele tisnada pelo sol e pelo salgado ar marítimo, alto e encorpado, de ar patibular e que grunhia numa mescla de português, castelhano, francês, com muitas palavras neerlandesas pelo meio. Resmungando, o flamengo arrastou-o até uma escada aberta no castelo da proa, sem cerimónias e com empurrões nos ombros, fê-lo descer até a um porão, onde estavam outros indivíduos ainda adormecidos. Prendeu-lhe uma corrente a um tornozelo e deixou-o imerso nas trevas, levando consigo a lanterna. Na escuridão, tentando adormecer, ouvia o ressonar de alguns dos companheiros de infortúnio. O cheiro que por ali fazia lei, não era agradável – odores de corpos sujos, flatulências… Todavia, o calabouço do Tronco fora, nesse aspecto, uma boa escola para a resistência olfactiva de Lourenço.

Leave a Reply