
O actual governo de Portugal, a que chamam a gerigonça, tem mostrado, ao fim e ao cabo, alguma capacidade de sobrevivência. Um governo formado pelo partido socialista, mas com um programa negociado com os partidos à sua esquerda, tem conseguido contrariar uma das ideias dominantes na vida política portuguesa dos últimos tempos, quase que se pode dizer que na vida política portuguesa desde o 25 de Abril de 1974, que é a de as forças políticas de esquerda em Portugal serem incapazes de se entenderem entre si. As circunstâncias em que ocorreu o entendimento que levou à constituição da chamada “gerigonça” são conhecidas, mas é verdade que poderá acontecer que não continuem a vigorar.
Em Portugal o imobilismo das instituições e na vida política e social tem sido a causa principal do atraso no seu crescimento e desenvolvimento. As classes e grupos sociais dominantes têm conseguido manter o controlo da vida nacional, mesmo após o 25 de Abril de 1974, na medida em que as tensões sociais têm continuado a ser resolvidas, ou pela repressão pura e simples, ou através da válvula de escape tradicional, que tem sido desde há séculos a emigração. A “gerigonça” aparece que como uma alternativa a este panorama, já tendo mostrado alguns efeitos positivos. A grande questão é se poderá conseguir manter-se por tempo suficiente para beneficiar de modo efectivo a população. São grandes as pressões em sentido contrário, a vários níveis.
O entendimento que está na sua origem assenta na vontade de proporcionar mais e melhor bem-estar aos portugueses, e contrariar políticas que, sob o pretexto de um maior controlo orçamental e financeiro, visam sobretudo impor restrições e acentuar diferenças, e manter assim os privilégios de minorias. A dependência das chamadas autoridades europeias agravou esta situação, tendo em conta as ligações que estas têm com o sistema financeiro internacional. Será dentro destas linhas que se vão desenrolar os conflitos políticos nos tempos mais próximos.

Continuará, apesar de todos os esforços feitos em sentido contrário pelos pafiosos e seus aliados internos e externos. Tudo é preferível a um regresso do Coelho (agora acompanhado pela Cristas que substituiu o ‘irrevogável’), o tal que ‘abria todas as portas’ e se esquecia de cumprir as suas obrigações fiscais, apesar do ‘pin’ de patriota cediço na lapela. E apesar de poder dispor a seu favor da generalidade dos meios de comunicação social.
Já ontem, na Viagem, comentei no mesmo sentido. A “Geringonça”, opino, tem uma enorme carga de defeitos mas, seja como for, livrou o País dos discípulos da múmia paralítica vinda das montanhas do su. Para já isso foi – e é – uma obra importantíssima que, esperemos, custe o que custar, nunca possa voltar atrás.CLV