
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

A sustentabilidade da dívida – Parte 3
Bill Mitchell, Fiscal sustainability 101 – Part 3d
Billy Blog, 17 de Junho de 2009
Compreender porque é que os governos emitem dívida
Os princípios fundamentais que surgem num sistema monetário de moeda fiduciária são os seguintes:
O banco central define a taxa de juro de curto prazo com base nas suas aspirações políticas.
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A despesa do governo é independente dos emprestimos do governo, devendo estes ultimos ser considerados como ocorrendo depois,a seguir à despesa.
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A despesa pública fornece os activos financeiros líquidos (reservas bancárias), que em última análise, representam os fundos utilizados pelos agentes não-governamentais para a compra da dívida.
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Os défices públicos colocam uma pressão à baixa sobre as taxas de juros, ao contrário dos mitos que aparecem nos livros didáticos de macroenomia sobre o efeito de evicção.
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A ‘penalização por não ir ao mercado contrair empréstimos é que a taxa de juros vai cair no fundo de um ‘corredor’ prevalecente no país que pode ser mesmo zero se o banco central não oferece um retorno sobre as reservas. Por exemplo, o Japão facilmente mantém uma política de taxa de juro zero com défices públicos historicamente elevados simplesmente gastando mais do que o que levanta de empréstimo nos mercados.
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A emissão de dívida pública é uma decisão da ‘política monetária’ seguida , ao invés de ser intrínseca à “política orçamental “, embora num moderno paradigma monetário a distinção entre política monetária e fiscal, como tradicionalmente definidas é hoje fortemente discutível
Nesse sentido, a dívida é emitida como uma estratégia de manutenção da taxa de juro pelo banco central. Não tem nenhuma correspondência com qualquer necessidade de financiar as despesas públicas. A dívida também pode ser emitida se o governo querque o sector privado tenha menos poder de compra disponível.
Além disso, a idéia de que os governos simplesmente receberiam o que banco central monetariza como dívida do tesouro (o que é visto pelos economistas ortodoxos como a alternativa do método de financiamento” das despesas públicas ) é altamente enganador. Assim, a monetarização da dívida é geralmente referida como um processo pelo qual o banco central compra títulos públicos diretamente ao Tesouro . Por outras palavras, o governo contrai como empréstimo dinheiro directamente do banco central, em vez de ir ao sector privado, ao público em geral. A monetarização da dívida é o processo normalmente implicado quando um governo quando se diz que o o governo está a imprimir dinheiro. A monetarização da dívida, com tudo o resto igual, significa estar a aumentar a oferta de dinheiro e pode levar a uma severa inflação.
No entanto, o medo de monetarização da dívida é infundado, não só porque o governo não precisa de ter dinheiro para gastar, mas também porque o banco central não tem a opção para monetarizar todo e qualquer valor da dívida pendente ou de dívída recentemente emitida pelo governo. .
Enquanto o banco central tem um mandato para manter um dado objetivo para a taxa de juro a curto prazo , os volumes das suas aquisições e vendas de dívida pública não são discricionários. Uma vez que o banco central define um objectivo para a taxa de juro a curto prazo, a sua carteira de títulos do governo muda somente por causa das transações que são necessárias para suportar o objectivo da taxa de juro. A ausência de controlo pela parte do banco central sobre a quantidade de reservas ressalta a impossibilidade de monetarização da dívida. O banco central é incapaz de monetarizar a dívida pública através da compra de títulos públicos à sua vontade porque para isso faria com que a taxa juro alvo a curto prazo viesse a cair para zero ou para uma taxa de apoio. Se o banco central comprasse títulos diretamente ao Tesouro e o Tesouro, em seguida, gastasse o dinheiro, as suas despesas apareceriam como excesso de reservas no sistema bancário. O banco central seria forçado a vender uma quantidade igual de títulos para suportar a taxa de juro tomada como alvo. O banco central iria atuar apenas como um intermediário. O Banco Central compraria títulos ao Tesouro e iria vendê-los depois ao público. A monetização não teria então existido.
Além disso, o conceito de monetarização da dívida é inaplicável. No entanto, o Banco Central pode concordar em pagar a taxa de juro de curto prazo aos bancos que detêm reservas em excesso e à vista junto do Banco Central Isso eliminaria a necessidade dos bancos comerciais em aceder ao mercado interbancário para se llibetarem de quaisquer excedentes de reservas e permitiria que o Banco Central mantenha o seu objectivo de taxa de juros sem emissão de dívida.
Nesse sentido, o conceito de sustentabilidade orçamental nunca deve ter qualquer ligação de financiamento entre a emissão de dívida e as despesas públicas líquidas. Não há nenhuma inevitabilidade para a dívida subir quando aumentam os défices. As decisões voluntárias do governo para fazer uma tal ligação não têm nenhuma base nos fundamentais do sistema monetário assente na moeda fiduciária.
Estabelecimento de metas orçamentais
As long as there is deficiencies in aggregate demand (a positive spending gap) output and income adjustments will be downwards and budget balances and GDP will be in flux.
Qualquer objectivo financeiro quanto aos défices orçamentais ou q uanto aos rácios da dívida pública/PIB nunca pode ser considerado sensato por todas as razões descritas acima. É altamente improvável que um governo realmente poderia enfrentar um objectivo previamente determinado se não é consistente com o objectivo público que visa conduzir à utilização da capacidade produtiva total. Desde que há insuficiências na procura agregada efectiva (uma diferença positiva na despesa pública ) os ajustamentos sobre a produção e o rendimento irão diminuir e os saldos orçamentais e o PIB refletiraão estes fluxos.
O objectivo da política orçamental deve ser sempre o de cumprir o objectivo público e o rácio dívida pública/PIB resultante refletirá apenas os fluxos de contabilidade que são necessários para alcançar este objectivo público geral..
Nesse sentido, o conceito de sustentabilidade orçamentral não pode ser sensatamente ligado a uma qualquer entidade contabilística como, por exemplo, a uma relação dívida/PIB.
Exposição ao estrangeiro
Em primeiro lugar, aprendemos que as exportações são um custo e as importações permitem-nos benefícios. Esta não é a maneira como os economistas neoliberais pensam mas reflecte o fato de que se damos alguma coisa que poderíamos utilizar (exportações) isto é um custo e se adquirimos alguma coisa que não tínhamos anteriormente (importações) isto é um benefício. A razão pela qual um país pode estar numa situação de défice comercial – importações superiores às exportações – é porque os estrangeiros (que nos vendem as importações) querem acumular ativos financeiros na nossa moeda relativamente ao nosso desejo de acumular as suas moedas como activos financeiros.
Isto exige que o estrangeiro nos entrega mais bens e serviços do que o que nós lhes enviamos. Tanto quanto esta situação durar este verdadeiro desequilíbrio nas trocas comerciais proporciona-nos benefícios líquidos. Se os estrangeiros mudam os seus objectivos quanto a manterem activos financeiros na nossa moeda, então os fluxos comerciais irão refletir essa mudança e os nossos termos de troca comerciais vão mudar nesse sentido. É possível que os estrangeiros não desejem acumular activos financeiros na nossa moeda o que significaria que teríamos de exportar mais do que o fazemos para as mesmas importações.
Quando os estrangeiros exigem menos quantidade da nossa moeda, o valor da nossa moeda então diminuiu. Os preços sobem em certa medida na economia tomada como economia nacional, ou seja, na nossa economia, mas as nossas exportações tornam-se mais competitivas. Este processo teve historicamente limites em que variaram as flutuações referidas. Na pior das hipóteses, significa preços mais baixos para os bens importados . Se pensamos que a depreciação é uma das consequências de se alcançar o pleno emprego através das despesas públicas líquidas então o que estamos na verdade a dizer é que quando apreciamos estar a ter acesso a carros estrangeiros mais baratos seja de passeio ou de luxo, estamos a apreciar menos ter toda a gente em idade ativa a trabalhar . Significa que queremos que os desempregados estejam a “pagar” para as nossas férias mais baratas e para os carros que importamos.
Poderíamos gostar de ter esses valores incorporados nas políticas públicas, mas não penso que o conceito de sustentabilidade orçamental deva refletir essas normas éticas perversas.
Além disso, os estrangeiros não financiam as despesas de um governo soberano. Se os chineses não querem comprar títulos do governo dos EUA então eles não os compram. O governo dos EUA podem ainda continuar a ter défice e os chineses terão agora nesta hipótese menos activos em dólares. Não há nenhuma perda para os EUA.
Nesse sentido, o conceito de sustentabilidade orçamental exclui qualquer noção de limites de “financiamento” estrangeiro nem está ligado às preocupações estrangeiras relativamente à solvabilidade do governo soberano.
A entendermos o que é um custo
O debate défice-dívida continuamente reflete um mal-entendido sobre o que constitui um custo económico. Os números que aparecem nas declarações de orçamento não são custos! O governo gasta quando regista a crédito números em contas no sistema bancário.
O verdadeiro custo de qualquer programa são os recursos reais adicionais que o programa requer para a sua aplicação. Assim, o custo real de uma garantia de emprego é o consumo extra que podem fazer os trabalhadores anteriormente desempregados e o capital extra etc, que é necessário para fornecer equipamentos para os trabalhadores utilizarem nas suas atividades produtivas. Em geral, quando há um desemprego elevado e persistente há uma abundância de recursos reais disponíveis que são atualmente não utilizados ou subutilizados. Assim, em certo sentido, o custo de oportunidade de muitos programas quando a economia está a caminho de uma recessão é pura e simplesmente ZERO.
Mas em geral, os programas de governo devem ser avaliados em termos reais mais quanto à forma como utilizam os recursos do que quanto aos valores envolvidos e expressos em termos nominais.
Nesse sentido, o conceito de sustentabilidade orçamental deve estar relacionado com as taxas de utilização de recursos reais, o que nos leva de novo ao ponto inicial sobre a busca de objectivos de bens e fins publicamente assumidos .
Sustentabilidade fiscal nunca deve estar associada com a subutilização dos recursis de trabalho.
Conclusão
Este terceiro texto teve como objetivo reunir os dois textos anteriores como partes da discussão. Há nestes textos muita repetição entre esta mini-série e os meus textos em geral. Nunca se consegue dizer o suficiente sobre estas matérias.
Mas ao definirmos um conceito da sustentabilidade orçamental que funcione evitámos assim … como se pode ver… muita análise da dívida, encargos orçamentais intergeracionais e outros conceitos utilizados na histeria da dívida pelos défices nazis. Estes últimos são conceitos largamente irrelevantes que desviam a nossa atenção da natureza essencial da prática de política orçamental que é a de prosseguir fins públicos e em primeiro lugar a começar por querer alcançar e manter de forma sustentada o pleno-emprego.
Bill Mitchell, Fiscal sustainability 101 – Part 3, texto disponível em:
