A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 7. O BREXIT ASSINALA A NECESSIDADE DE UM NOVO PARADIGMA DE POLìTICAS, INCLUINDO RENACIONALIZAÇÕES – I

Obrigado ao blog do tirloni.
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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Bill Mitchell
Bill Mitchell

O Brexit assinala a necessidade de um novo paradigma de políticas, incluindo renacionalizações

bottlebrushheader980

 

Bill Mitchell, Brexit signals that a new policy paradigm is required including re-nationalisation

Billy Blog, 13 de Julho de 2016

Com a nova Primeira-Ministra britânica a anunciar agora que vai dar força ao Brexit e libertar a nação de imposições não democráticas da cada vez mais disfuncional União Europeia (uma visão que, para alguns dos chamados intelectuais progressistas, é obviamente “venenosa”), vários economistas pró-permanência na EU (pro-“Remain”) e comentadores económicos perceberam que está em alta a cartada do neoliberalismo na Grã-Bretanha. Tem havido diversos artigos recentes em que se argumenta (depois das lamúria pela perda do voto a favor da permanência na UE e da repetição do mantra da catástrofe) que um novo paradigma económico é agora necessário na Grã-Bretanha, com base na sua reencontrada soberania (depois que saia efectivamente da UE). A propósito, a Grã-Bretanha, se quisesse, poderia sair da EU por meio de uma lei do Parlamento, sem todo o palavreado à volta do artigo 50. Isso é apenas uma cortina de fumo. Esta ideia de ser necessário um novo paradigma é exatamente aquilo em que Thomas Fazi e eu estamos a trabalhar, como parte do nosso atual projeto de livro que está quase concluído. Hoje, vou debruçar-me brevemente sobre o nosso ponto de vista de que a nacionalização tem de voltar a ser uma plataforma chave de política industrial para qualquer partido político com aspirações progressistas.

David Blanchflower, que se demitiu, bastante agastado, do Comité Consultivo Económico de Jeremy Corbyn, escreveu no Guardian (5 de julho de 2016), que – O voto no Brexit vai matar a austeridade. Eu não poderia estar mais de acordo.

Blanchflower, quando se demitiu, criticou severamente Corbyn, declarando que se Corbyn permanecesse como líder, então (o que ele disse está entre aspas e o resto é do artigo do Financial Times):

“Ninguém no seu perfeito juízo” serviria como governador do Banco de Inglaterra, como embaixador ou como membro do Comitê de Política Monetária do Banco.

Bem verdade. Bem, talvez apenas os de pensamento e visão de direita venham agora aconselhar Corbyn em como seguir uma agenda verdadeiramente progressiva em vez de fugir ao tema do neoliberalismo e de se preocupar apenas com as regras orçamentais, etc.

Outros conselheiros de Corbyn exasperaram-se depois de conhecidos os resultados do Brexit dizendo que estavam “descontentes com o papel assumido por Corbyn na campanha sobre a UE[1]” e que se tinham retirado do Comité Consultivo, presumivelmente enquanto os Blairistas oportunistas se desembaracem de Corbyn e reponham a sanidade neoliberal. Verdadeiramente muito lamentável.

A única coisa que os Blairistas fizeram foi ajudar os militantes do Partido Trabalhista a elegerem de novo Corbyn e, depois, orientaram a atenção deles para excluir das listas de candidatos todos os deputados trabalhistas que tinham tentado livrar-se de Corbyn, usando como pretexto, desonestamente, a questão Brexit, e desse modo, arruinar-lhes as respectivas carreiras políticas. Não podia acontecer a uma melhor clique.

Os conselheiros do Comité Consultivo Económico poderão então retomar as suas posições ajudando estes parlamentares trabalhistas não renomeados a criarem um partido novo – uma espécie de Democratas Liberais ou qualquer outra tropa fandanga.

No artigo do Guardian, Blanchflower enumerou todo o rol de desgraças que a campanha dos defensores da permanência do Reino Unido na EU tentou utilizar para aliciar as pessoas – acabaria o financiamento do Serviço Nacional de Saúde, “os preços das casas de habitação sofreriam uma grande queda”, a “libra colapsava” (o que constitui realmente um colapso?), o rating de crédito iria cair (sim, esse está sempre a deslizar para baixo), “crescimento negativo”, a Grã-Bretanha irá ter “uma situação horrível das finanças públicas” (ainda que o deficit possa aumentar um pouco!) e mais e mais ….

Em suma: “Acreditem que eles vão ser maus”.

Etapa seguinte: haverá um “grande choque não só para o Reino Unido, mas também ao nível da produção global”. A recessão mundial a emergir aterradoramente do Brexit. Ufa!

E as Bolsas vão afundar-se. Embora o Guardian tenha escrito ontem que as acções americanas atingiram um recorde máximo quando o FTSE 100 começou a subir. Que grande colapso.

E a 11 de Julho de 2016, os noticiários relatavam que as grandes empresas americanas “Raytheon e Boeing continuam apostadas no Reino Unido apesar do Brexit”– embora eu creia que os defensores da permanência na EU façam por ignorar este inconveniente tipo de notícias.

Lemos algures que a “Boeing anunciou planos para estabelecer novas instalações de manutenção no valor de 100 milhões de Libras no Reino Unido e duplicar o volume de emprego nos próximos anos“.

Ficámos a saber que:

O fabricante de aviões, juntamente com o governo e outros agentes ligados à indústria também irão contribuir para financiar cerca de £365 milhões para a realização de projetos aeroespaciais de I&D que tenham sido aprovados pelo governo no âmbito da “Aerospace Growth Partnership”.

Ah! O poder da moeda para dinamizar a despesa agregada e gerar elevada produtividade, e um auspicioso futuro de emprego na Grã-Bretanha, sem o espartilho daquela gente de Bruxelas.

Embora o que Blanchflower tenha significado corretamente foi:

Quando surge um choque negativo, John Maynard Keynes ensinou-nos que a política orçamental e a política monetária têm de actuar em conjunto para estimular a economia. Isso funcionou incrivelmente com sucesso em 2009 quando os governos lançaram todo o dinheiro possível na economia contra a recessão. O crescimento foi iniciado, tendo apenas sido refreado pela austeridade em 2010. O mesmo é necessário agora. Todos a dar à manivela. A austeridade está morta. Até que enfim!

E mais empresas, como a Boeing, irão tomar a iniciativa e começar a investir e a desenvolver um espaço de emprego mais amplo e mais qualificado.

 E no entanto, a “austeridade está morta ”!

No dia seguinte (6 de julho de 2016), Joseph Stiglitz deu uma perspectiva sóbria sobre as consequências do Brexit no seu artigo “Do Brexit para o Futuro[2] – onde afirmou :

A agenda neoliberal das últimas quatro décadas pode ter sido boa para os 1% do topo, mas não para os outros”.

 Ele, pelo menos, vê que a decisão do Brexit, que foi apodada de racista e de eleitores estúpidos, é o resultado acumulado de anos de negligência relativamente aos interesses básicos dos trabalhadores pelos governos focados em “inclinar a balança política a favor do capital”.

Stiglitz compreende que:

“… qualquer reforço do poder de mercado das grandes empresas é, de facto, uma diminuição dos salários reais: um aumento da desigualdade que se tornou característica dos países avançados de hoje”.

Stiglitz sublinha igualmente que “A livre migração no seio da Europa … [leva à] compressão dos salários e maior desemprego, enquanto os empregadores beneficiam de mão-de-obra mais barata”.

Isto conjugado com os “cortes nos serviços públicos” engendrados pela feroz mentalidade austeritária de governos infestados de neo-liberais, temos então o “esventramento das classes médias” vendo ser-lhes negados os “benefícios do crescimento económico” enquanto veem gastar “milhares de milhões para salvar os bancos” e os salários excessivos dos “banksters” (palavra composta de banqueiro+gangster).

Assim, depois da votação do Brexit, Joseph Stiglitz é claro: “mais ideologia neoliberal não irá ajudar em nada … Existem alternativas aos actuais esquemas neoliberais …

Suficientemente claro.

Paul Mason deu-lhe continuidade na segunda-feira (11 de julho de 2016) com o seu artigo –“É bem real a perspectiva de o Brexit do Reino Unido se transformar num desastre pós-global”.

A sua tese é similar às intervenções anteriormente referidas. Está agastado com a votação do Brexit e faz a profecia de todo o rol de catástrofes.

Paul Mason refere corretamente que a Grã-Bretanha “tem registado um défice da balança corrente de 7% – um nível histórico”, cuja continuidade assenta na vontade dos estrangeiros acumularem ativos financeiros expressos em libras esterlinas. Ou seja, o défice da balança corrente tem de ser financiado pela conta de capital.

E, é claro, se os estrangeiros reduzirem o seu desejo de acumular ativos financeiros expressos em libras esterlinas então a Grã-Bretanha vai ter que se ajustar a uma degradação dos termos de troca reais, o que vai ser doloroso por algum tempo.

Assim, se as mudanças políticas no Reino Unido não atraírem o capital estrangeiro corrente, então as coisas vão ser duras por algum tempo na Grã-Bretanha.

Nesse contexto, Paul Mason tem razão na análise que faz de que a Grã-Bretanha “tem de arregaçar as mangas face a 30 anos de política de centro-direita” – isto é, a mentalidade neoliberal da austeridade não pode servir de guia para o que governo britânico tem agora de fazer para revitalizar a sua declinante economia, a que agora se somam os efeitos da incerteza do Brexit que tem de enfrentar.

Paul Mason diz que a Grã- Bretanha tem que “redesenhar a sua economia de modo a produzir riqueza de uma forma diferente” o que envolverá uma combinação da política fiscal para dar incentivos ao investimento, o uso da política monetária por forma a constituir uma nova base “para criar capacidade de crescimento a longo prazo” e melhorar a qualificação da “mão-de-obra, substituindo postos de trabalho de baixos salários por máquinas”.

Por outras palavras “uma política industrial centrada a nível nacional ” que era comum na era pré-neoliberal e que ajudou as economias em todo o mundo a conseguirem maiores taxas de crescimento e uma maior equidade salarial do que tem sido a norma na era do “mercado livre”.

Mason diz que as questões que os dirigentes políticos da Grã-Bretanha têm agora de colocar são as seguintes:

A competitividade agora tem a ver com: o que faz crescer os salários reais? O que é que promove o investimento? O que é que faz crescer a produtividade? O que é que faz expandir o sector exportador? Estas questões geram uma outra: quem é que o vai fazer?

Mas não será todo o mantra do crescimento “fomentado pelas exportações” que ajudará a Grã- Bretanha a fazer os ajustamentos de que precisa. “The March of the Makers” (A Marcha dos Fabricantes) era o mantra de George Osborne (leiam o meu blogue – “The March of the Makers – out!” para mais desenvolvimentos sobre este ponto.

A Grã-Bretanha tem um grande mercado interno, uma tradição forte na indústria transformadora (a ser relançada) e uma mão-de-obra bem-formada. A política industrial, designadamente a nacionalização, tem que fazer parte das novas prioridades a nível interno para a Nação.

Brevemente diremos mais sobre quais.

E se os eleitores que votaram a favor do Brexit estão até a cair no nonsense do “Regrexit”, isso está a ser insuflado por vários personagens que estão ainda amargurados por terem perdido porque as suas ameaças catastrofistas não se verificaram; e talvez queiram visitar o site da comunicação social do Conselho Europeu e, especificamente, refletir sobre este comunicado de ontem (12 de julho de 2015): Procedimento por défice excessivo: o Conselho considera que Portugal e Espanha não tomaram medidas efectivas.

O ponto é que os génios da Comissão Europeia e do Conselho consideraram estes dois países (que estão profundamente destroçados pela austeridade que lhes foi imposta pelas regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), com níveis persistentes e absurdamente elevados de desemprego e de deterioração urbana e regional daí resultantes) têm que aplicar ainda mais austeridade.

O Conselho ratificou as recomendações da Comissão relativas ao destrutivo Procedimento por Défice Excessivo – a arma corretiva do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) – de que os governos de Portugal e da Espanha não estão a fazer o suficiente para dar cabo do bem-estar de suas nações, tendo, assim, votado “para se desencadearem sanções” no âmbito daquele Procedimento.

Os idiotas na Comissão terão agora algumas reuniões (com muito boa comida e bons vinhos, presumivelmente oferecidos para os ajudar no trabalho) para decidirem a escala das “sanções” que serão impostas a Espanha e a Portugal.

O infinitamente estúpido Ministro das Finanças da Eslováquia é citado como tendo afirmado: “Estou certo que acabaremos por chegar no final a um resultado sábio e inteligente“.

Porquê aplicar sanções a estas nações por terem tentado imprimir algum crescimento às suas economias? Ou recuar – mais uma vez – não os multando, mostrando-se ainda mais disfuncional que antes?

Inteligente de qualquer maneira, não é assim? F*…-se! Você não era capaz de escrever um enredo tão ridículo!

Lembrem-se que a Comissão e o Conselho fizeram vista grossa sobre o aumento do défice em Espanha no ano passado porque sabiam que assim ajudariam o crescimento do país, o que facilitaria o caminho para o Partido Popular ganhar as eleições nacionais de Dezembro de 2015.

A economia cresceu efectivamente como resultado do aumento do défice (que, em parte, foi o resultado de medidas discricionárias de estímulo adotadas pelo governo a nível nacional e pelos governos regionais), mas o PP não ganhou as eleições.

Agora, depois da repetição das eleições, em 29 de Junho de 2016, a Comissão determinou que iria pendurar aquele país no pelourinho.

Pois é, caros Brexiters – este é o corrupto, disfuncional e moralmente decadente clube, em que, na vossa douta sabedoria, votaram para a saída da UE. Uma bela jogada.

(continua)

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[1] Nota do tradutor. Estes s cinco economistas são: Diane Elson, Mariana Mazzucato, Anastasia Nesvetailova, Ann Pettifor and Simon Wren-Lewis

[2]Título da versão portuguesa publicada pelo project Syndicate

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