A América, e com ela o Ocidente, num impasse perigoso com as eleições presidenciais de Novembro – O que diz Hillary Clinton a Wall Street quando ninguém está à escuta I

Selecção  e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Francisco Tavares

A América, e com ela o Ocidente, num impasse perigoso com as eleições presidenciais de Novembro

O que diz Hillary Clinton a Wall Street quando ninguém está à escuta

Hillary Clinton parle à l'oreille du PDG de Goldman Sachs Lloyd Blankfein, le 24 septembre 2014 lors du "Clinton Global Initiative".
Hillary Clinton fala ao ouvido do PDG de Goldman Sachs Lloyd Blankfein, em 24 de Setembro de 2014, aquando da “Clinton Global Initiative”. ((JEMAL COUNTESS / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP)) 

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Um novo pacote de e-mails publicado pelo site WikiLeaks revela o conteúdo secreto das conferências da candidata democrata à Casa Branca perante grandes bancos em 2013 et 2014

Timothée Vilars

http://tempsreel.nouvelobs.com/monde/elections-americaines/20161008.OBS9564/ce-que-dit-hillary-clinton-a-wall-street-quand-personne-n-ecoute.html

9 de Outubro de 2016

É a história de uma provocação falhada. No dia 4 de Outubro, por ocasião de um acontecimento em que se celebram os 10 anos do sítio WikiLeaks, o seu fundador Julian Assange tinha prometido muito… e desiludido muitos. Os amadores de divulgações picantes – com os anti Clinton à cabeça – sentiram-se prejudicados.

Todos os documentos relativos às eleições americanas sairão antes de 8 de Novembro”, jurava o cybermilitante australiano [Julien Assange]

A inimizade entre Hillary Clinton e o recluso da embaixada do Equador é de notoriedade pública. No fim de Julho, WikiLeaks já tinha publicado 20.000 emails internos ao Partido democrata, revelando o tratamento de favor dos seus responsáveis para com Hillary Clinton durante as eleições primárias. Então quando WikiLeaks publicou, na sexta-feira 7 de outubro, uma nova série de documentos intitulados “os Podesta Emails” – do nome do diretor de campanha de Hillary Clinton – o efeito de surpresa já não foi tão grande.

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Tanto mais que estas divulgações foram imediatamente eclipsadas pelo tornado que se abateu sobre a campanha de Donald Trump – abandonado pelo seu próprio campo depois da publicação de um vídeo no qual faz um conjunto de afirmações ordinárias contra as mulheres em geral. Contudo, estas revelações não são menos potencialmente embaraçantes para Hillary Clinton. O “Obs” analisou estes documentos.

Duplo discurso sobre a finança

Ao longo de todo o seu mano a mano com Bernie Sanders, Hillary Clinton foi criticada pela sua suposta proximidade com Wall Street: entre 2013 e 2015, as suas 12 conferências para os grandes bancos mundiais (nomeadamente Goldman Sachs e Deutsche Bank) e para sociedades de gestão de capitais renderam-lhe 2,3 milhões de dólares, mas ela recusou sempre tornar o público conteúdo das suas intervenções. Ora, a ex-secretária de Estado [n.t., equivalente a Ministra dos Negócios Estrangeiros] parece, à luz dos “Podesta Emails”, ter defendido posições que chocam drasticamente com as suas recentes declarações de campanha.

  • Ela pensa que a crise de 2008 não é imputável a 100% ao setor financeiro

A 24 de Outubro de 2013, perante o Goldman Sachs, considera que a responsabilidade de Wall Street na crise dos subprimes foi exagerada por razões de instrumentalização política.

Quando comecei a viajar [como Secretária de Estado, NT] em Fevereiro de 2009, as pessoas gritavam-me literalmente em cima, acusavam os Estados Unidos e o nosso sistema bancário de terem provocado isto por toda a parte. Certamente sabemos que isto é muito redutor, mas era a sabedoria popular. Penso que se poderia ter evitado estas incompreensões, esta instrumentalização política, com mais transparência e com mais abertura de lado a lado, explicando o que se tinha passado, como é que isso aconteceu, e o que fizemos para o impedir .”

  • Ela pensa que o sector financeiro pode e deve autorregular-se

No dia 24 de Outubro de 2013 perante o Goldman Sachs, declara que a regulação de Wall Street deve ser impulsionada pela própria Wall Street.

A regulação não é algo de mágico. Demasiada, é mau, muito pouco mal é. Então como encontrar uma solução que funcione? As pessoas que conhecem melhor a finança que ninguém são as que trabalham na finança.”

Num discurso pronunciado a 7 de outubro 2014 para o Deutsche Bank, Hillary Clinton reforça e deixa entender que a regulação do sector financeiro deve “vir da própria indústria [financeira] ”.

A própria indústria pode e deve fazer mais. Sobre as alavancas para reforçar a nossa economia, para criar mais empregos […]. E acredito realmente que todos vós sois qualificados para fazer este trabalho.”

Former US Secretary of State Hillary Clinton delivers a speech during a conference at the National Auditorium in Mexico city, on September 5, 2014 in the framework of Telmex foundation's "Mexico Siglo XXI" forum, owned by Mexican tycoon Carlos Slim. AFP PHOTO/RONALDO SCHEMIDT / AFP PHOTO / RONALDO SCHEMIDT
Former US Secretary of State Hillary Clinton delivers a speech during a conference at the National Auditorium in Mexico city, on September 5, 2014 in the framework of Telmex foundation’s “Mexico Siglo XXI” forum, owned by Mexican tycoon Carlos Slim. AFP PHOTO/RONALDO SCHEMIDT / AFP PHOTO / RONALDO SCHEMIDT
  • Ela admite ter necessidade do dinheiro de Wall Street para fazer a sua campanha

No dia 24 de Outubro de 2013 (ainda) perante o Goldman Sachs, explica que tendo em conta as somas de dinheiro que um candidato às Presidenciais americanas deve reunir para realizar uma campanha, é agora o momento, ou nunca, de lhe porem as questões pertinentes sobre a sua política económica.

Concorrer à presidência necessita muito dinheiro no nosso país, e os candidatos devem eles próprios obter esses fundos. Nova Iorque é, provavelmente, o coração da obtenção de fundos para ambos os candidatos. E seria melhor que muitos dos que aqui estão apresentassem as suas questões antes de dilapidar as suas contribuições a favor daqueles que jogam com o medo em relação à nossa economia”.

Na Flórida, em 6 de Janeiro de 2014, perante o grupo General Electric, Hillary Clinton coloca de novo a questão da soma de dinheiro que é necessário juntar para concorrer à Casa Branca.

Gostaria que não fosse tão dispendioso. Não sei se será possível. Durante a minha campanha [em 2008], perdi a conta mas … creio que recolhi 250 milhões de dólares ou algo parecido, e na última campanha o presidente Obama recolheu 1,1 mil milhões de dólares, e foi antes dos Super PACs e todos esses afluxos de dinheiro, é tão ridículo ter este cada um por si com todos estes interesses financeiros em jogo, mas é a vontade do Supremo Tribunal. É o Far West.. […] tão difícil foi quando me apresentei, penso que agora ainda o é mais.”

Segundo o sítio Politifact, os bancos e outras grandes sociedades financeiras entregaram até agora 64,3 milhões de dólares para a campanha e aos Super PACs de Hillary Clinton, contra menos de 2 milhões à de Donald Trump.

(continua)

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