A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 8. PARA UM CONCEITO PROGRESSISTA DE EFICIÊNCIA – PARTE 2 – I

Obrigado ao blog do tirloni.
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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Bill Mitchell
Bill Mitchell

Para um conceito progressista de eficiência – Parte 2

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Bill Mitchell, Towards a progressive concept of efficiency – Part 2

Billy Blog, 19 de Julho de 2016

 

Esta é a 2ª parte da minha discussão de como uma agenda progressista pode escapar à camisa de forças do pensamento neoliberal, ampliar assim o seu quadro de análise e apresentar iniciativas políticas que têm sido declarados tabu no atual quadro de pensamento conservador, assente no mercado livre do pensamento único. Hoje, irei comparar e contrastar a visão neoliberal de eficiência, que ela incorpora sobre a relação entre as pessoas, o meio ambiente e sobre a economia, com o que eu considero ser uma visão progressista, o que conduz a nossa atenção para a sociedade e vê as pessoas integradas orgânica e necessariamente dentro do seu ambiente natural de vida. Isto considera uma economia que é criada por todos nós, controlada por todos nós e capaz de uma produção de resultados que nos faça avançar para o bem-estar de todos os cidadãos, ao invés de ser um veículo para fazer avançar a prosperidade de apenas uma pequena proporção dos cidadãos.

A visão progressista

Na 1ª Parte – para um conceito progressista da eficiência – vimos que o que os economistas (neo-liberais) julgam ser “ a melhor situação” ou “eficiente” é largamente enviesada a favor daqueles que procuram aumentar os lucros privados .

Se as empresas privadas estão a produzir para os mercados ao menor custo e satisfazer a procura dos consumidores para os seus produtos e serviços, então eles estão a maximizar lucros e a serem ‘eficientes’.

Todos os manuais mostram que sob certas condições (tais como,  não há forças de monopólio, as pessoas são racionais e tem conhecimento do futuro e de todas as alternativas atuais, as empresas podem livremente entrar e sair do mercado,) então os mercados livres são a única maneira eficiente de organizar a actividade económica.

Para prosperar, os livros didáticos, em seguida, sugerem-nos que devemos forçar o comportamento humano e utilizar o ambiente natural, a fim de permitir a estes mercados livres que possam funcionar da maneira prescrita.

Alcançamos a perfeição quando alcançamos este estado (de modo que o preço de cada bem vendido é exatamente igual aos recursos adicionais que que foram necessários para a sua produção).

Os principais pressupostos para gerar este resultado ‘perfeito’ nunca existem no mundo real . Os economistas neoliberais desenvolvem assim a estratégia que qualquer movimento no sentido deste estado perfeito (por exemplo, o corte dos salários mínimos ) será uma melhoria e faz avançar a economia para uma situação mais perto de eficiência.

Eles ignoram a literatura (por exemplo, a teoria do Second Best), que mostra que se nem todos os pressupostos da teoria neoliberal se verificam então tentar aplicar os resultados da teoria é susceptível de tornar as coisas piores, não melhores.

Quase todas as instruções sobre a ‘eficiência’ na teoria económica neoliberal são deste tipo.

Nenhum destes pressupostos altamente restritivos se aguentará (em qualquer momento no tempo), e então os modelos não podem gerar quaisquer conclusões fiáveis e quaisquer afirmações sobre o que se pode fazer com base nestas teorias económicas não têm nenhum fundamento – um triste delírio ideológico.

Enquanto a teoria dominante da eficiência reconhece a diferença entre os custos privados e benefícios privados  ( que suportam ou de que beneficiam as empresas, os indivíduos) e os custos sociais e os benefícios sociais (que suportamos ou de que beneficiamos todos nós como resultado de transacções económicas entre indivíduos), esta raramente se centra nos custos que não são quantificáveis e privados.

E quando existem enormes custos sociais decorrentes de falhados resultados económicos (por exemplo, o desemprego em massa), os economistas neoliberais têm demonstrado uma vontade de os definir de tal forma que o resultado permaneça sempre consistente com as suas predições.

Então, o exemplo que eu dei ontem sobre  a ideia de que o desemprego é sempre voluntário e, portanto, é um produto resultante de escolha livre, uma escolha maximizante  (e eficiente) feita entre rendimento e lazer. Há uma recusa em aceitar que o sistema pode falhar e não ser capaz de  fornecer suficientes postos de trabalho e assim tornar quaisquer escolhas que um indivíduo possa fazer em escolhas sem sucesso.

Para um objectivo progressista, o objetivo essencial de obter tanto de receitas da actividade económica como de custos da sua produção continua a ser um objetivo. Ou seja, este objetivo é partilhado com os economistas neoliberais. Caso contrário, há um desperdício de recursos humanos e de recursos naturais, que não tem nenhuma justificação.

As perguntas são no entanto sobre o que queremos dizer quando dizemos que queremos obter como valor de produção tanto quanto podemos e o que são os custos que nós estamos a assumir?

Nesse ponto, uma visão progressista de eficiência é um mundo para além do estreito conceito neoliberal dominante.

Colocando a sociedade ao invés das empresas privadas no centro do nosso quadro de análise, os progressistas têm uma compreensão mais ampla dos custos e benefícios, que então condiciona o que podemos considerar como a “eficiência” de uma atividade.

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O painel do lado direito no gráfico acima é o que chamamos de uma visão progressista do relacionamento entre as pessoas, o ambiente natural e a economia.

Isso leva a uma abordagem sobre a solidariedade ou abordagem coletiva dos problemas (às vezes chamado de abordagem de todos os Santos), que tem uma profunda tradição nas sociedades ocidentais.

Reconhece-se que um sistema económico pode impor restrições sobre os indivíduos que fazem com que fiquem sem possibilidades. Se não há empregos suficientes para todos, então, concentrando-se na descrição das características dos indivíduos desempregados é estar a errar o alvo.

Acima de tudo, isto desloca a nossa atenção para a sociedade, em vez de reduzir o foco sobre a ‘economia’ e as empresas corporações. As empresas são apenas uma parte da economia, que é uma parte do assentamento humano.

Uma vez que trabalhamos dentro desta visão, a nossa ideia de eficiência torna-se marcadamente diferente da defendida dentro da visão neoliberal. Dentro desta construção da realidade, a economia é apenas uma parte da sociedade e é vista como sendo nossa construção com pessoas organicamente integradas e embebidas pelo meio ambiente. .

Shenkar-Osorio (2012: Location 1037) diz-nos:

Esta imagem mostra a noção de que, em estreita conexão com e confiança sobre o nosso ambiente natural, somos o que realmente importa. A economia deve estar a funcionar na satisfação das nossas necessidades. A percepção sobre se uma política sugerida é positiva ou não devem ser considerados à luz de como é que a política pode promover o nosso bem-estar, não de quanto pode aumentar a dimensão da economia.

Nesta perspectiva, a economia é vista como um “objeto construído”– isto é, um produto dos nossos próprios esforços e as intervenções políticas devem ser avaliadas em termos da sua funcionalidade em relação aos nossos grandes objetivos.

Essas grandes metas são expressas em termos sociais, em vez de o serem em termos estreitamente económicos. Na visão neoliberal, nós somos ensinados a acreditar que o que é bom para o setor privado, para a obtenção de lucros, é bom para todos nós.

Dentro da visão progressista os objectivos articulam-se em termos de aumentar o bem-estar público e de maximizar o potencial para todos os cidadãos dentro dos limites da sustentabilidade ambiental.

A tónica desloca-se para um dos objectivos humanos centrais no nosso pensamento sobre a economia, enquanto ao mesmo tempo se reconhece que somos integrados e dependente do nosso meio ambiente natural.

Nesta narrativa, as pessoas criam a economia. Não há nada de natural nisso.

Conceitos como a ‘taxa natural de desemprego’, que sugerem que os governos não devem interferir com o mercado quando há desemprego em massa e deixá-lo entregue às suas próprias forças equilibrantes para alcançar o seu estado natural, são ideias erradas .

(continua)

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Para ler o original clique em:

Towards a progressive concept of efficiency – Part 2

 

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