Pretendemos explicar, muitas vezes o presente em função de uma narrativa do passado. Apelamos à história como árbitro indiscutível das razões que pretendemos ter ou com que queremos movimentar os outros.
Mas o presente é o que nos define a leitura e escolhas do passado, e o presente remoto é o que mais afeta às escolhas do passado próximo, e assim sucessivamente, num jogo de forças entre opostos, de repetição com variação, passo adiante e atrás que se rege pela moda, a convenção e o uso social admitido.
Para conhecermos o passado próximo, o século XX ainda fresco e já borroso, importa a metodologia e a ideologia, mas também mergulhar intensamente nas épocas, textos, documentos, imprensa, objetos, livros, arte, correspondências, testemunhos, leituras… Tudo é relevante, e mais, porque não se conhece bem e não se entende, salvo pela frequência ante os olhos e nas mãos, os significados os relacionamentos, a mensagem e contexto do que estamos a ler e contemplar com os olhos adestrados para o hoje.
Mas isto não é apenas galego, nem espanhol, nem também não português: é a nível europeu, por igual. O nazismo, o fascismo, emergidos do positivismo, do racismo, na mesma estirpe que os nacionalismos, deram como resultado a negação interesseira; e nas memórias fragmentadas, falseadas e traumáticas por causa das guerras e os genocídios. Sobre isto a Guerra fria foi longa de mais e ideologicamente muito presente ainda. Apagou, como premissa, trajetórias, testemunhas, exemplos, desenfocou os processos, as fases, os períodos.
E na Espanha talvez ainda mais, por causa do franquismo. Nem o século XX, nem o XIX, nem menos ainda os tempos anteriores ao nacionalismo se entendem senão com os olhos e as perspectivas aprendidas, com as ideias e as ideologias correntes no mais imediato presente. E a atualidade não é que confronte, precisamente.
Quanto ao século XX, na Galiza, é como que não apenas o franquismo tivesse atuado de filtro, senão que o próprio galeguismo dos 50, primeiro, para justificar a sua atuação e perspectiva, tivesse peneirado esse passado, especialmente no político e na perspectiva nacional e, depois, o nacionalismo a partir dos 60, mirando para os processos de descolonização desde o marxismo, ao romper com esse galeguismo, tivesse roto, mas acreditando que era a tradição, e sem entrar a questionar a rotura anterior e não suspeitando portanto, que havia um mundo de precedentes diferentes, uma tradição nacional e uma tradição de esquerdas de muita importância política e cultural.
Depois acho que a Transição também contribuiu com os seus pactos e perspectivas, com o modelo social, político, universitário, a botar mais uma capa de pintura ao restauro já falseado.
Por que, francamente, pensando no hoje… como não encontrar paralelismos com a crise de 1914-17, adiada pela ditadura em 1923 e que explode com essa emergência e aliança de classes médias e baixas golpeadas pela crise e bloqueadas de participação pelo sistema rotativista ou turnante de partidos…
Como não ver a criatividade de entre guerras abrolhando com a protesta social por toda a parte? Como não ver o fascismo minimizado em simpatias pelas oligarquias em função da “ordem” e das elites em aras do seu papel dirigente, emergindo diante dos olhos?
E que dizer das políticas e ideias do galeguismo, desde Faraldo a Bóveda, passando pelo manifesto de Lugo e por tantos e tantos? Não são ainda o discurso? que chega a nós como tira-puxa e leixa-prem, o programa a realizar?
