UMA BREVE ANÁLISE DO RECENTE LIVRO A QUEDA DOS MACHOS DE PIO ABREU, por JÚLIO MARQUES MOTA

júlio marques mota

Uma breve análise do recente livro a queda dos machos de Pio Abreu

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Dedico o trabalho de publicação do texto abaixo ao meu amigo Pio de Abreu que acaba de escrever um muito bom livro chamada A queda dos machos[1], onde se conta uma guerra de géneros, de sexo, de poder em que os machos saem vencidos.

O texto abaixo fala-nos de Clinton. Com efeito, Hillary Clinton, uma mulher, é candidata ao cargo de Presidente dos Estados Unidos e portanto vencendo muitos machos, como Bernie Sanders, contra a esquerda não cinzenta americana e contra as vítimas do sistema, grande parte dos apoiantes de Trump, a que ela chamou de os deploráveis da América. E estes deploráveis que são muitos milhões tiveram como voz Donald Trump, um multimilionário e amigo dos Clinton. Um multimilionário, o defensor dos excluídos da globalização, ou seja, as coisas “impossíveis” da América, o que também nos diz que as próximas eleições serão bem diferentes das que irão agora decorrer.

Chegará pois a Presidente uma mulher que se pode caracterizar por ser politicamente um desastre, um desastre político em praticamente tudo aquilo em que politicamente se meteu, exceto na sua capacidade em acumular fortuna. Milhões, muitos milhões, em muito, muito pouco tempo. Mas isto, na leitura do Pio de Abreu pode ser devido a um excesso de dopamina no corpo daquela mulher!

O texto que se segue tem como título Envolva-se a fazer sexo, não a fazer a guerra e o seu autor é nada mais nada menos que Paul Craig Roberts, um homem bem conhecedor da Casa Branca porque antigo estagiário da Presidência no tempo de Kennedy e mais tarde subsecretário de Estado de Reagan no primeiro mandato. E o discurso de Paul Craig Roberts, com pontos de convergência com Pio de Abreu no que diz respeito à confusão gerada pelas feministas (e à falta de honestidade também) insere-se porém nas antípodas de grande parte do livro de Pio de Abreu, uma vez que para este meu amigo o sexo é a base da corrupção dos homens, estes corrompem-se pelas suas mulheres, e estas corrompem-se pelos seus filhos. Sublinhe-se porém que com as últimas cartas às suas amigas, uma boa parte do final do livro, Pio recupera a mensagem humanista e os dois autores reencontram-se pois nos seus pontos de vista, sem guerra de sexos, de géneros.

Não vou fazer aqui nenhuma análise do livro, não a saberia sequer fazer. Quero apenas lembrar aqui alguns dos pontos de vista expressos pelo autor.

Diz-nos o autor:

  1. É possível que, neste país periférico, atingido por uma guerra económica e onde as mulheres têm os seus direitos bem consolidados a contemporaneidade se manifeste de uma forma mais acutilante. De facto a crise atinge mais os homens que arriscam nos seus negócios e que passaram agora a ganhar muito menos do que antes, senão a atolar-se em dívidas. As mulheres geralmente mais qualificadas e mais estáveis nos seus empregos (porém menos bem remuneradas) sobrevivem melhor.

  2. Os mal-entendidos mais frequentes são aqueles que ocorrem entre mulheres e homens, num tempo em que coexistem quatro gerações a sofrer a vertiginosa mudança dos costumes. O papel masculino está em causa em todos os discursos emancipatórios, sem se perceber que a dominação do homem pelo homem não é uma questão de indivíduos mas sim de classes e de grupos sociais, cujos homens e mulheres são apenas o braço armado das suas instituições ou famílias, as quais incluem mulheres em posição frequentemente dominante. Esta mistificação, veiculada pelas feministas acabou por esvaziar completamente o papel masculino.

  3. Curiosamente, na própria dinâmica dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, volta a colocar-se a diferenciação dos géneros. Não me venham dizer que é um problema cultural.

Completamente de acordo com a análise de Pio de Abreu expressa nos pontos 2 e 3 quanto às feministas pelo que é sintetizado no ponto 3 e porque estas transpõem os conflitos de classe para um conflito de géneros. Alimentando uma confusão que Pio bem elucida e nos esclarece.

Quanto ao ponto 1, eu creio que a generalização feita por Pio de Abreu é claramente abusiva. Falar de direitos consolidados das mulheres no plano dos factos pode ser válido para a classe média ou alta, não para as mulheres de “en bas”, para aquelas de trabalho precário, de trabalho de salário mínimo, que dificilmente chegam direitas aos fins de mês. Mulheres no fundo que vivem num pano de fundo de corrupção, não da corrupção de género de que fala Pio de Abreu, mas das Instituições que as deixam excluídas da lei, porque são “escravas” da ausência das Instituições e do silêncio de todos aqueles que lhe poderiam dar voz. Na América, os excluídos têm um Trump, aqui, bolas, nem isso.

Aliás de Itália vem uma voz contra este tipo de silêncio que abafa o possível grito dos excluídos quando no Il Manifesto se diz:

“Nada sobre este plano se irá produzir pelo simples facto que a opinião pública rarefez-se progressivamente até ao ponto de perder consistência e a coincidir de facto com os mesmos poderes privados que disso representam o simulacro sobre o terreno mediático. Mesmo a opinião pública foi privatizada ao longo das últimas décadas, a par e passo com o controlo sempre mais eficaz “dos aparelhos ideológicos” por parte dos potentados financeiros (e com a reorganização do eleitorado dos grandes partidos em sectores de opinião esquerda-direita). Neste período de tempo, verificou-se um processo de despolitização de massas (é esta a verdade do aparente recusa da política por parte dos corpos sociais) funcional na sua perda de emancipação. Um processo que torna atual a clássica representação da cidadania como “uma multidão de crianças ” a precisarem de tutores.”

Gostaria de ver Pio de Abreu a escrever também sobre sexo e precariedade, mas a partir destas gentes que de tão cansadas que chegam a casa, de tão agitadas a fazer contas sobre o dinheiro que não têm e que precisam de ter, que deixam de ter espaço para o prazer e tanto mais quanto “ o sexo humano é o espaço de liberdade de ação, permitindo que a imaginação também possa ser um espaço de liberdade”. Ser-se livre é viver em liberdade, sejamos claros. Ora a grande parte das mulheres vive em situação de precariedade e aqui é então a liberdade que é excluída com tudo o que daí advém a seguir.

Não posso deixar de elogiar o autor pela sua posição face às feministas mesmo que muitas vezes recorra às mesmas para a tese que defende, a da guerra [talvez?] inevitável dos géneros.

Diz-nos Pio Abreu quanto às mulheres que são aqui muito mal tratadas:

“Vimos como vocês se tornaram poderosas e passaram a ditar as regras. De facto, são vocês que escolhem os homens e os largam. Mantêm-nos quatro anos ou um pouco mais, dependendo de terem ou não filhos. (…) Quando eles valem alguma coisa, têm muito que fazer e vocês os tratam bem, eles lá se acomodam a uma única mulher que a sua fraqueza assim os obriga. Se não, acabam por larga-los sem remorsos, mas com grande sofrimento deles e refúgio no álcool…até que outra os tome por conta”.

Diria, a dialética do senhor e do escravo de Hegel. É a existência do escravo que confere estatuto ao senhor, só que aqui o senhor é a Mulher e o escravo é o homem, numa relação de força e submissão. Sobre a dialética do Senhor e do Escravo muito já se escreveu. Não vale a pena ir por aqui.

Mas Pio de Abreu é cruel na sua análise da relação homem mulher, encerrando-nos num parêntesis reto do qual não há saída. Abusivamente até, na defesa da sua tese, serve-se do paradoxo de Zenão: “eu sou cretense. Todos os cretenses são mentirosos.“ Se a afirmação é verdadeira, é cretense e todos os cretenses mentem, então a afirmação é falsa porque é suposto dizerem mentiras e estão a dizer a verdade. Por outro lado se a afirmação é falsa, ou seja é falsa a afirmação que é cretense e que todos os cretenses mentem, então a afirmação é verdadeira, porque estão a dizer uma falsidade. Não se sai do dilema verdadeiro-falso, falso-verdadeiro. Não há pois saída, porque a afirmação no seu conjunto é contraditória nos seus termos. Ora no plano lógico, uma contradição insanável  nos seus termos mantém-se, não é resolúvel. Uma contradição insanável no plano existencial resolve-se pela rutura ou pela violência, como em Hegel, e como ele descreve na Fenomenologia do Espírito, num capitulo especialmente dedicado ao tema. Condenar as relações afetivas a uma violência insuperável, como é insuperável o paradoxo de Zenão, não me parece pois correto.

Não há meio de se sair dos paradoxos de Zenão. Que o digam todos os grandes filósofos que sobre eles se debruçaram, como por exemplo Bertrand Russel entre tantos outros… O paradoxo de Zenão contém uma impossibilidade lógica e colocar uma relação a dois no mesmo plano, o de uma impossibilidade existencial, não me parece nada certo. No plano da lógica, trata-se de um abuso sobre a própria lógica, diremos. Este abuso é tanto mais sério quando coloca ao mesmo nível uma proposição contraditória nos seus termos, o paradoxo de Zenão, de que não há saída, com uma relação afetiva a dois, pressupondo então que esta é, tal como o paradoxo, uma situação de contradição, sem saída. Recuso esta análise.

Diz-nos Pio Abreu:

“[um dos mal-entendidos] tem a ver com a verdade, ou antes, com a acusação de ser mentiroso. Devo já avisar que esta questão não tem solução, como já disseram os filósofos. Por exemplo se eu disser que sou mentiroso, das duas uma: ou eu sou mesmo mentiroso e portanto estou a ser verdadeiro, ou sou verdadeiro e portanto estou a ser mentiroso. Não há saída.”

Daqui, o homem objeto, homem escolhido, transformado em sujeito descartável pelas mulheres de hoje como sendo a realidade da vida das famílias, dos casais, não desfeitos por um tempo médio de 4 anos é coisa que não me entra pela cabeça adentro. Aliás, das muitas gentes que conheço de “en-bas” conheço é a situação contrária, são eles que se vão embora, deixam-lhes as dívidas e o filho ou a filha, ou os filhos, obrigando depois as mães a um calvário para obter uma pensão de alimentos que muitas vezes nunca vem ou só vem esporadicamente. Também sei que muitas destas idas embora tem a ver com a crise, com a crise que tudo rebenta, sobretudo rebenta o quadro de valores, a malha com que é tecida a tapeçaria da vida, para relembrar curiosamente Margaret Thatcher e com eles rebentados temos sem dúvida muitas das descrições que nos são relatadas neste bom livro. Mas assim mudamos de plano relativamente a Pio de Abreu.

Encerrados num parêntesis reto, sem saída, num sufoco é pois a guerra entre homem e mulher, uma guerra que não é de classes, mas simplesmente de cromossomas, de genes.

Diz-nos o autor:

“A guerra dos cromossomas não se desenvolvia no interior de um organismo mas escolhia os momentos de batalha na transição de uma geração para outra. Pelo caminho, os organismos, machos e fêmeas, iam adquirindo armas para vencer o seu rival, aproveitando muitas vezes os vírus e bactérias que se incorporavam nos genes, ou acompanhavam espermatozoides e óvulos.

Nesta contínua guerra, eram os cromossomas X e Y que mais evoluções faziam na linha do desenvolvimento da vida. Como o Y tentava esconder o grande agressor- o SRY e seus comparsas- eram os outros genes que faziam parte do original X, mais expostos a misturas, que sofriam os ataques do seu rival e foram desaparecendo…(…) Assim é e não há volta a dar….”

Bom, sem que o autor o queira, é um bom intelectual de esquerda, de longa data assim assumido pela prática, corre-se o risco em deslizarmos para um discurso paralelo ao de Margaret Thatcher.

Com efeito diz-nos a Dama de Ferro que bem esperemos que esteja a enferrujar em paz:

Penso que nós atravessamos um período em que muitas crianças e pessoas me deram a entender “Eu tenho um problema, cabe ao governo procurar resolvê-lo. ” ou de forma ligeiramente diferente “Eu tenho um problema, eu irei obter uma subvenção para o poder suportar !” ou “Sou um sem abrigo, o governo deve alojar-me!”, ou seja, projetam sobre a sociedade a resolução dos seus problemas, mas então o que é a sociedade? Não existe tal coisa! Há indivíduos, homens e mulheres, há famílias e nenhum governo pode fazer seja o que for, que não seja através das pessoas mas as pessoas olham primeiramente para elas próprias. É nosso dever cuidarmos primeiramente de nós próprios e depois ajudarmos a cuidar do nosso vizinho. A vida é um negócio recíproco e as pessoas têm demasiados direitos na cabeça mas sem as obrigações, porque não existe uma tal coisa como um direito, a menos que alguém tenha primeiro cumprido uma obrigação e isto é, penso eu, uma tragédia em que muitos dos benefícios que nós damos , que foram feitos para melhorar as condições de vida das pessoas se estas estavam doentes ou eram uns infelizes eram uma rede de segurança, eram uma ajuda, em que muitos dos benefícios que nós demos significam que ajudámos pessoas que eram infelizes. Tudo bem. ” Conseguimos tudo isto em conjunto e temos estas redes de segurança para cuidar destas pessoas”. Isto era o objetivo, mas de uma maneira ou de outra existem algumas pessoas que têm manipulado o sistema e então algumas dessas ajuda e benefícios que se destinavam a dizer às pessoas: “tudo bem, se não conseguir um emprego, garantimos que terá um padrão de vida mínimo garantido!” mas quando as pessoas vêm ter connosco e nos dizem : “mas qual é o interesse em ir trabalhar? Eu consigo o mesmo estando desempregado! ” Então responde-se: : “Olhe” isto não vem do desemprego. É o seu vizinho que o está a garantir e se você pode ganhar a sua própria vida , então realmente tem a obrigação de o fazer e vai-se sentir muito melhor ao fazê-lo!”

Há também uma outra coisa que se lhes diz: “se com isso não obtiver um padrão mínimo, sabe, existem outras maneiras para o poder melhorar. Por exemplo, pode obter o subsídio de habitação.”

Mas fomos longe demais. Se as crianças têm um problema, é a sociedade que está em falta. Mas não existe uma tal coisa chamada sociedade. Há tapeçaria viva, feita de homens e mulheres e de pessoas e a beleza dessa tapeçaria e a qualidade das nossas vidas dependem de quanto cada um de nós está disposto a assumir as suas responsabilidades e de quanto cada um de nós está preparado para dar a volta e ajudar pelos próprios esforços aqueles que são infelizes.

Douglas Keay, Woman’s Own -Entrevista a Margaret Thatcher

Também aqui, uma vez que sociedade é coisa que não existe, podíamos então dizer que muitas das questões que envolvem a necessidade do Estado Providência são afinal não o resultado de uma luta de classes, visível ou invisível, assumida ou não assumida, são afinal o resultado das desigualdades genéticas e das lutas entre os genes em cada um de nós, individualmente tomados.

Evidentemente, mal fora se não fosse assim, nada há de comum entre a ultra neoliberal Thatcher e o socialista Pio Abreu. Uma escondia a luta de classes colocando a responsabilidade da situação individual de cada um na sua trajetória individual por ele escolhida e Pio de Abreu passa por cima dessa luta de classes, dos seus desgastes, minimizando-a face a uma outra luta, luta subterrânea, a luta dos cromossomas e dos gentes que assim pode ser responsabilizada, ela, pelos estragos sociais causados ao nível das famílias. Ironia no paralelismo.

Num livro de tanta coisa interessante, como é o livro de Pio de Abreu, é pena que se possa deslizar para este paralelismo. Num livro de tanta coisa interessante a obrigar-nos a refletir sobre o nosso quotidiano, o nosso, o dos homens, o das mulheres, o dos nossos filhos e netos, é pena que a mensagem que nele se passa é um pouco em dizer que L’enfer c’est la femme.

E isto quanto a luta de classes assume níveis de tensão há séculos não vistos. Repare-se, que 8 anos depois de rebentar uma crise que só encontra paralelo na Grande Crise de 1930, com milhões de desempregados perdidos por esses países adentro e fora também, por essa Europa a deambularem, com tantas famílias por isso desfeitas ou arrasadas, com tanta juventude de futuro delapidado ou mesmo destruído já e antes de o poder ser e ter, a Itália num momento terrível da sua história vai colocar a referendo a 4 de Dezembro próximo a sua Constituição para a adaptar às exigências da Finança internacional, para a adaptar às exigências do JP Morgan, uma das instituições financeiras mais relevantes à escala planetária e ao lado de Goldman Sachs[2].

Em nome da modernidade, Constituições atuais, modernas, não antifascistas como as que foram criadas no pós guerra. Mudem-se então as Constituições dos países periféricos da zona euro. Mas como assinala um analista da situação italiana:

“não há uma só mudança feita nestes últimos trinta anos que tenha sido a favor dos trabalhadores, a favor de quem trabalha, de quem pretende trabalhar, de quem deixa o trabalho. A mesma palavra Reforma nos anos 70 do século passado identificava os direitos sociais e laborais, enquanto hoje significa o extremo oposto. As reformas são agora um pacote de medidas neoliberais, a redução dos salários e dos direitos dos trabalhadores, os cortes para o Estado-Providência, as privatizações, tudo isto a ser exigido pela Troika e pelas finanças internacionais e a ser aceite pelos governos, passando por isso mesmo a fazer parte dos seus programas. Hoje se ouvimos falar sobre reformas, os trabalhadores e pensionistas sentem medo imediatamente e pensam logo que devem proteger a sua carteira. Por isso parece-me mais correto utilizar o termo contra-reforma.

Que a mudança não seja um valor em si mesma estão bem cientes os trabalhadores a quem a empresa explica que tem de mudar, que se é forçado a mudar, a ter que se deslocalizar e infelizmente o estatuto dos seus funcionários muda, de recurso para a empresa que eles eram para o de despedidos da mesma empresa que passam a ser. Cada um pode mudar para melhor ou pior, nenhuma pessoa sã aceitaria mudar de qualquer maneira, a menos que sejam enganados por esses pactos diabólicos de que estão cheios os contos de fadas.”

Quanto a esse referendo sobre a nova Constituição e para lhe dar uma base popular que não tem, dizem-nos:

“A nova Constituição é a quadratura do círculo. As instituições da democracia não são compatíveis com a concorrência global, com a guerra permanente e quem quer manter vivas as instituições democráticas é hoje considerado um conservador. O mundo é o mercado; o mercado não tolera outras leis que não sejam as do mercado. Se alguém está a ameaçar fazer as suas próprias coisas, os mercados serão aterradores. A política não deve interferir com a concorrência no mercado nem nos conflitos que aí se passam. Se as pessoas estão a morrer de fome, e o mercado não as mantém em vida, a política não pode intervir porque as ajudas estatais são proibidas. Se o Estado tenta, ou introduz leis para defender o trabalho ou o ambiente, as empresas levá-lo-ão a tribunal e ganham o caso. Isto é o que dizem os novos tratados de comércio global. A guerra é o instrumento supremo para defender o mercado e vencer no mercado.

As Constituições não têm nada a ver com uma tal conceção da política e da guerra. Por isso, mudam-se. E querem-se poderes rápidos e sumários, tanto melhor se expressivos.

Então é por isso que devemos defender a Constituição. Não, porque esta seja hoje operacional, porque isso já foi alterado em 1991 e o mundo constitucionalismo democrático foi despedido entre 89 e ‘91. (…) . Mas [a Constituição atual] é a única esperança de manter aberta a alternativa, de não dar por acabada e irreversível a passagem da liberdade da democracia constitucional à escravidão do mercado global e é, por outro lado, a condição necessária para que a Constituição e a lei não sejam sujeitas à sociedade selvagem mas seja antes a sociedade selvagem com o nosso NÃO a ser declarada à revelia e através da luta de todos nós venha a ser posta em conformidade com a Constituição, a justiça e o direito.”

Numa sociedade selvagem é possível que o disfuncionamento social seja mesmo total e que seja enorme o seu impacto sobre as famílias, sobre a sexualidade dos seus concidadãos e sobretudo sobre o futuro dos nossos jovens e dos seus potenciais desequilíbrios de agora. Temo mesmo que estes desequilíbrios venham a ser aterradores. Lembro aqui que na Finlândia crianças de 8 a 10 anos que no início dos anos 90 sofreram com a crise ainda hoje têm pesadelos por causa do sofrimento que tiveram e que em seu nome muito mais sofrimento tiveram os seus pais. São estes rostos de sofrimento, de famílias, que estão na base dos seus pesadelos. Os americanos também o sabem e acompanham populações de populações jovens em dificuldades surgidas com cada uma das crises para medir os disfuncionamentos gerados depois ao longo das décadas seguintes. E o impacto das crises projetados sobre as décadas seguintes, tal como na Finlândia, sobre as trajetórias pessoais ou familiares das pessoas jovens são terríveis[3] e as trajetórias individuais e familiares futuras são muitas vezes os resultados das desagregações sociais ocorridas décadas antes com a crise. E não se trata aqui de nenhuma guerra dos cromossomas ou de genes, trata-se da incapacidade das pessoas resistirem e sobreviverem no quadro da sociedade selvagem que o neoliberalismo criou e em que este as reduz a gente descartável. E a isto chamam os americanos “o custo de nada fazer”, de nada fazer pela recuperação económica, pela recuperação das gentes que o sistema traumatiza duramente e expele para fora da estrada da vida! Elucidativo do elevado nível de consciência do fenómeno[4].

Tal como com o livro de Piketty, O Capital, que num longo artigo recomendei a sua leitura pela qualidade do que nele é descrito, propondo igualmente que se ignorasse a sua mensagem fundamental, a de que os problemas do capitalismo se resolveriam por políticas de redistribuição do rendimento, faço aqui exatamente o mesmo. Que se leia e pense sobre muita coisa de muito interesse do livro e que dele se esqueçam a guerra dos sexos, dos genes dos cromossomas, é a minha sugestão. Ao acabarem a ultima linha do livro garantidamente não darão nem o tempo nem o dinheiro por perdidos. Aliás, a qualidade do livro é tal que posso mesmo afirmar que bem gostaria que o meu amigo Pio de Abreu eventualmente com uma equipa pluridisciplinar de especialistas abordasse sim o tema da sexualidade, dos seus disfuncionamentos, dos seus impactos, sobre as famílias e sobre os indivíduos, dos de “en-bas”, a partir dos disfuncionamentos sociais gerados pela crise num país como o nosso que crise irá continuar a ter e por mais de uma década seguramente. A menos que… bom, mas não quero por agora sonhar.

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[1] J.L. Pio Abreu, A queda dos machos, cartas às minhas amigas, edição D. Quixote, 2016

[2] A Finança acima do povo, é o que se deduz, com uma nova Constituição que impeça as pessoas de protestarem contra o status quo que esta mesma Finança venha a impor. Não será a mesma lógica, agora em Portugal com o folhetim Caixa Geral dos Depósitos, em que se aprovam dados direitos para uns e exatamente o oposto para outros, em que há nivelamento a nível internacional dos salários altos de uns, os altos quadros da Finança, e há imposição a nível local de salários baixos de muitos outros, em que há leis especiais criadas para uns concedendo direitos que são recusados para outros e em que se quer obrigar que isso seja defendido por um governo eleito pelo povo?  Não é isso uma extrema humilhação imposta pelos  novos senhores que querem (des)governar o mundo?

[3] Vale a pena citar a conclusão de um relatório americano.

“É claro que a queda na situação de pobreza durante uma recessão carrega consigo uma possibilidade significativa de pobreza persistente que acompanha uma criança mesmo depois de a recessão ter terminado. No entanto, é também evidente que uma parte das crianças que sofrem uma situação de pobreza induzida pela recessão poderão sair dela depois do fim da recessão e, portanto, escapar à maioria das desvantagens de longo prazo que acompanham a situação de pobreza na infância. A nossa melhor estimativa, baseada na nossas análises dos dados PSID é que, se não fizermos nada, a cerca de 60% dos 3 milhões de crianças que são projetadas para caírem vítimas da pobreza durante esta recessão estas irão estar sujeitas à situação de pobreza persistente ou intermitente, que provocará graves danos a longo prazo. Destes, cerca de metade irá ainda cair na primeira categoria que é a mais prejudicial. Utilizando a nossa análise dos dados PSID, podemos ajustar a nossa estimativa para ter em conta o facto de que nem todas as crianças que caem na pobreza durante esta recessão ficarão sujeitos em toda sua extensão aos efeitos negativos de longo prazo de se ter caído numa situação prolongada de pobreza na infância. Esse ajuste reduz a nossa estimativa de perdas de 0,3% do PIB para cerca de 0,17% do PIB, o que representa cerca de 22 mil milhões de dólares por ano.

Considerando apenas os prejuízos a longo prazo sobre as condições de saúde e sobre as perdas de rendimentos que são efeitos da situação de pobreza na infância e com hipóteses muito conservadoras, os custos anuais futuros de permitir que três milhões de crianças adicionais venham a cair numa situação de pobreza durante esta recessão ultrapassa , pelo menos, os 35 mil milhões por ano. Durante a vida dessas crianças, esses custos serão agregados e representarão um encargo económico total de aproximadamente 1,7 milhão de milhões de dólares (em dólares de 2008).”

Fonte: Michael Linden, The Cost of Doing Nothing: the economic impact of recession-induced child poverty, Edição de: First Focus, Making Children & Families the priority.

Michael Linden é o Senior Director of Tax & Budget Policy at First Focus. Pode ser contactado em MichaelL@firstfocus.net.

[4] Veja-se para o quadro europeu o relatório da Cruz Vermelha Internacional de 2013, sobre os efeitos da crise:

Cruz Vermelha Internacional, Think differently, Humanitarian impacts of the economic crisis in Europe, Outubro de 2013.

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Nota de A Viagem dos Argonautas:

Envolva-se a fazer sexo, não a fazer a guerra, o artigo de Paul Craig Roberts traduzido por Júlio Marques será publicado amanhã, sábado, 12 de Novembro, à mesma hora.

 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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