FRATERNIZAR – O que o novo Bispo de Beja pede aos párocos – “ZELO PARA PROCURAR AS MUITAS OVELHAS PERDIDAS” – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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Dá pelo nome de João Marcos. É o que foi, enquanto permaneceu filho de mulher e presbítero ordenado, não sacerdote-poder sagrado. Depois que aceitou ser filho do Poder, ele próprio poder ainda que vassalo do papa, bispo de Roma, passou a dar pelo título de Dom João Marcos. “Dom”, antes do nome, não significa dádiva para os demais. É o diminutivo de “Dominus”, latino, por isso, senhor, no caso, o senhor (da diocese-empresa) de Beja, no Algarve. São pormenores, é certo, mas carregados de significado. Infelizmente, não somos educados a dar atenção aos pormenores. Mas é neles que descobrimos a verdade das coisas. Atentássemos nos pormenores, na verdade das coisas, e estremeceríamos perante semelhante perversão, como é a existência de tantos seres humanos, em cada geração, que caem na tentação de renunciar à sua condição de ser humano, comum a todas as filhas, todos os filhos de mulher, para se tornarem filhas, filhos do Poder. A substancial mudança tem tudo de suicídio, mas apresenta-se aos seus próprios olhos, sempre que se vêem ao espelho nos olhos dos seus súbditos, sob a máscara de dominus, senhor, bispo residencial, dono das mentes de populações que os têm como seus guias, quando, na verdade, não passam de cegos que as levam para o abismo que eles próprios passaram a ser.

Antes desta nomeação da responsabilidade do papa de Roma – só ele pode escolher e nomear bispos canonicamente reconhecidos, os únicos que são tidos como válidos pelos demais institucionais do Poder – D. João Marcos já era bispo coadjutor do anterior bispo titular D. António Vitalino Canas. O que pressupunha que viria a ser o seu sucessor, quando este atingisse os 75 anos de idade, o limite que o CDC contempla para se poder ser bispo titular de qualquer uma das dioceses católicas do mundo, à excepção, precisamente, da diocese pai de todas as outras, a diocese de Roma, a do papa. Escrevi excepção, porque assim é comummente entendido. Na verdade, não é assim. A diocese de Roma é a regra e a única diocese verdadeira. Todas as demais são delegações-sucursais da de Roma. O bispo de Roma, porque papa, é o único bispo titular do mundo. Todos os mais são seus delegados, da confiança dele. Seus vassalos. E difusores, onde estiverem, do seu pensar, do seu doutrinar e do seu querer. O Poder é de um só. Como a igreja é um só. Os bispos titulares não passam de vassalos. O que constitui o cúmulo da humilhação e da negação do ser humano que aceita semelhante função. Apresenta-se mascarada de honra e de distinção. Na verdade é a mais crassa degradação humana. E a prova é a tristeza que a aparente satisfação de cada vassalo bispo titular continuamente esconde-revela.

Não conheço pessoalmente o novo bispo de Beja. Nem preciso, para escrever o que aqui estou a escrever acerca dele e do que as pessoas que vivem no território da diocese podem vir a esperar dele. Li a informação da sua nomeação na Agência Ecclesia, súbdita da CEP, portanto, também do novo bispo de Beja, e basta-me. Já verão porquê e como. Reza essa notícia eclesiástica, sem nenhum comentário crítico paralelo à notícia – quem o fizesse seria despedido na hora – que D. João Marcos, mal soube que já era o bispo-patrão da Diocese onde até esse momento era apenas bispo coadjutor, apressou-se a escrever uma mensagem aos seus súbditos clérigos, com destaque, para os párocos que, para o serem tão ordeiramente, não se importaram nada de desistir do fecundo ministério de Presbíteros no mundo para que foram ordenados, para passarem a ser pelo resto das suas vidas na história, meros funcionários eclesiásticos celibatários, não por opção, mas por imposição da absurda e anti-natural lei do celibato obrigatório, no estatuto de sacerdotes, uma coisa que remonta aos mais primitivos tempos, quando quem tinha um olho fazia-se aclamar sacerdote pelos demais.

E o que lhes pede concretamente o novo bispo de Beja? Deixem-se surpreender: “Vós sois as minhas mãos e os meus pés: pés calçados com o zelo para procurar as muitas ovelhas perdidas e para levar a todos o Evangelho da salvação, e mãos para acolher e abençoar, para trabalhar e servir os irmãos”. Leram e não se escandalizaram? Acham que as vossas filhas, os vossos filhos entre os 15 e os 30 anos de idade entendem esta linguagem rural e pastoril de D. João Marcos? Para elas, eles, ovelhas não são mesmo ovelhas dos rebanhos, por sinal, também estes, já em vias de extinção? Acham que eles traduzem “ovelhas” por seres humanos? Não traduzem. E mesmo que traduzam, ficam absolutamente indiferentes e mudam logo de assunto. Nenhum ser humano que se preze aceita ser tratado como ovelha de rebanho. Continuar, neste início do terceiro milénio, a utilizar palavras e expressões muito em voga no tempo e país de Jesus, mas, mesmo então, já não tão em voga nas cidades do império romano, nomeadamente, Roma, Atenas, Alexandria, Corinto, o que diz do bispo de Beja que assim procede? Não é um bispo analfabeto do escrever e do falar próprios do século XXI? E pode ser bispo da igreja-movimento de Jesus deste século e deste milénio quem insiste em expressar-se assim? Não está refém de uma linguagem que as gerações mais novas já não conhecem, muito menos entendem-aceitam? Expressar-se assim não é pior do que estar calado?

Jesus Nazaré, em seu tempo e país, fala em ovelhas e cabritos, como fala em semente, grão de trigo e grão de mostarda, porque ele próprio é camponês-artesão e conhece por experiência essa realidade. Mesmo assim, só recorre a essa linguagem nas parábolas que inventa e conta às multidões, ou em expressões manifestamente metafóricas que nesse seu então histórico, era a melhor forma de se fazer entender. Hoje, recorrer a essa linguagem é a melhor forma de não ser entendido por ninguém. O que – reconheça-se – é até capaz de ser melhor assim. Porque a mensagem que o falar e o praticar dos bispos anuncia é tão moralista, rasca, absurda e tão fora da nossa realidade quotidiana, que é melhor que as populações a não entendam. Assim, pelo menos, não são afectados por esses vírus episcopais, paroquiais e papais. E quando são afectados, como está a acontecer com o papa Francisco, redunda na desgraça que se conhece e que a sua recém-confirmada vinda a Fátima nos dias 12-13 de Maio 2017 vem confirmar até ao vómito.

Decididamente, a humanidade tem quanto antes de passar de cristã a humana, segundo o coração de Deus que nunca ninguém viu e se nos dá a conhecer em Jesus Nazaré e nas vítimas dos poderes, a começar pelo religioso, das quais ele próprio, Jesus, é a vítima mais paradigmática. Ousemos dar este passo qualitativo em frente. E haverá futuro para este nosso hoje tão crucificado por todos os poderes, também o religioso-eclesiástico.

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