ZECA (5) – Finalmente, um abraço – por Carlos Loures

ZECA AFONSO - O NATAL DOS SIMPLES

Na tarde de 11 de Março de 1975, após a agitada manhã do ataque aéreo ao RALIS que vitimou o soldado Luís, a esquerda começou a tomar medidas que permitissem fazer face a uma eventual, provável, rebelião de direita. Consta que um oficial spinolista ligado aos serviços secretos do exército espanhol, convenceu o general António de Spínola que a ala militar ligada  ao PC P (a 5a divisão) “agendara” para a Páscoa a execução dos oficiai da direita. Foi uma manobra de intoxicação que, apesar de primária,  surtiu efeito. Os spinolistas prepararam uma ordem de operações para se anteciparem ao fantasioso expurgo.

Os boatos ferviam – avanço sobre Lisboa de tropas afectas à direita e, inclusive, a vinda da divisão Brunete, uma força mecanizada espanhola, com diversas brigadas de blindados. (quando do estúpido assalto â Embaixada de Espanha, falou-se novamente numa invasão espanhola). Começaram ser preparar cocktails Molotov para receber as visitas. O Exército disponibilizou armas a civis (que deixavam ficar os respectivos bilhetes de identidade). Fui encarregado de ir a uma fábrica do distrito de Setúbal levando quatro condutores com carta de pesados que trariam camiões para recolher armamento emprestado pelo MFA.

A autoestrada do Sul era um projecto com centenas de quilómetros projectados e cerca de 11 asfaltados e quem viajasse para Sul passava pela cidade. Foi assim que conheci José Afonso. Estava de capote alentejano e boina basca. Parei o carro e acerquei-me dele. Disse-lhe quem era, mas ele não me deixou espaço para autobiografias. «Sei muito bem quem és-estás porreiro?» – e logo de seguida «- trazes armas?»

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