EDITORIAL: O «REGRESSO À NORMALIDADE»

logo editorialO que foi o 25 de Novembro de 1975?- Uma revolução, um golpe de direita, um regresso à normalidade? Notem que não pomos aspas nestas classificações, pois para uma ampla maioria dos argonautas, o 25 de Novembro é uma data de luto pela morte da esperança numa sociedade diferente, onde todos tivessem os mesmos direitos e deveres – esperança que, durante o conturbado período a que chamaram PREC, acalentámos. Sabe-se que objectividade é palavra que na ciência histórica depende da visão subjectiva de quem a aplica. De uma forma geral, os cronistas, louvavam quem lhes pagava e a sua visão de acontecimentos ocorridos era a que o poder instituído defendia. A objectividade é uma para as classes possidentes. outra para os pobres. Já aqui temos lembrado a polémica que envolveu Saramago, Galeano e Ramonet – Saramago estava contra a utopia, defendendo que é preciso é trabalhar pela concretização do que é possível hoje. O que sonhamos para o futuro pode não ser aquilo que as pessoas do futuro desejam. A utopia anda sempre à nossa frente como a cenoura á frente do burro.

Quem não vive da política e, na qualidade de cidadão e eleitor, tem uma concepção do  que é e do que devia ser a condução da cousa pública (é o caso da grande maioria dos argonautas), quem tem uma ideologia e luta organizado num partido para que democraticamente, por força do voto livre  dos cidadãos assume uma forma maniqueísta de analisar o processo político. E nem sequer estamos a falar das criticas repugnantes do anterior executivo a este novo gabinete a que chamam a «geringonça». Canalhas que se atreveram a alterar Constituição da República, que se portaram com uma nojenta subserviência perante o poder desta outra «geringonça continental».

 O 25 de Novembro foi obviamente um golpe de direita ou, dito de outra maneira – o regresso à normalidade.

Como se viu nas eleições, a maioria votou direita e os  militares fizeram aquilo que lhes foi exigido – regressar a normalidade. Na época histórica que vivemos. a normalidade é o sistema capitalista- é a estúpida visão ianque que sobrepõe o consumidor ao cidadão e da globalizada estrutura apoiada na especulação financeira, no crime e na exploração.

Fernand Braudel num dos ensaios de Histoire et sciences sociales, explica como as aspirações, as utopias de uma geração só vêm a ser exequíveis duzentos ou trezentos anos depois (quando as aspirações e utopias já são outras. O projecto do poder popular que a esquerda opunha ao capitalismo e à normalidade, teria viabilidade? Não esqueçamos que muitos dos revolucionários eram estudantes, gente da burguesia. gente que amava o proletariado, mas não lhe suportava o cheiro. Lembremo-nos que muitos dos proletários que vinham para a rua gritar palavras de ordem revolucionarias, fazem hoje parte do poder – comunistas, social-democratas, uma ova! Para a maioria dos portugueses, o 25 de Novembro foi uma data positiva. Talvez cerca de 20% da população tenha sentido o golpe como uma derrota. Estes milhares de revolucionários que quereriam o tal mundo de fraternidade, em cada rosto igualdade, estavam misturados com gente que queria a moradia de luxo e o carro topo de gama, já! A tropa fez o que lhe foi exigido e felizmente que os que teriam resolvido a questão segundo o modelo chileno, estavam em minoria. Não há motivo nem para fazer luto ou para festejar o 25 de Novembro, quatro décadas têm de chegar para compreendermos o que se passou. O Novembro do nosso descontentamento era inevitável. Quatro décadas depois, temos uma «geringonça» enfrentando um bando de desavergonhados ladrões. E a moral da história é – se queremos uma revolução, temos de a fazer. Ou então consolar-nos com a ideia de que daqui por dois ou três séculos,  a aldeia global seja a terra da fraternidade,

 

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