Uma tentativa de golpe de Estado moderno sob a égide da União Europeia na Itália a 4 de Dezembro de 2016 – A verdade sobre o referendo

Selecção de Júlio Marques Mota

Uma tentativa de golpe de Estado moderno sob a égide da União Europeia na Itália a 4 de Dezembro de 2016

2. A verdade sobre o referendo

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Professor Raniero La Valle*

Caros Amigos,

Uma vez que tenho 85 anos digo-vos como andam as coisas. Ninguém precisa de estar aqui para lhe dizer como é que as as coisas aconteceram, se estivéssemos numa situação normal. Mas se olharmos para o que está a acontecer ao nosso redor, vemos que a situação não é normal. Na verdade, o que é que está a acontecer?

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Acontece que por dia morrem onze pessoas afogadas ou sufocadas nos porões dos barcos no mar Mediterrâneo, em frente à maravilhosa costa de Lampedusa, di Pozzallo ou Siracusa, onde fazemos praia e caça submarina. 62 milhões de refugiados, de rejeitados, de perseguidos, de fugitivos são lançados pelo mundo em busca de uma nova vida, que muitos não vão encontrar. Alguém disse que, em 2050, os transmigrantes são 250 milhões.

E a Itália, o que faz? Emagrece o Senado.

Está em curso uma terceira guerra mundial não declarada, mas que faz vítimas em todo o mundo. Aleppo é arrazada, a Síria é estilhaçada, o Iraque é destruído, o Afeganistão devastado, os Palestianos são prisioneiros desde há cinquenta anos na sua própria terra, Gaza é sitiada, a Libia está em guerra, na África, no Médio Oriente e até mesmo na Europa cortam-se cabeças e preparam-se massacres em nome de Deus.

E a Itália, o que faz? Reduz a despesa com os senadores.

Falha o G 20 em Hangzhou na China. Os grandes da terra, que acumulam armas de destruição em massa e se combatem nos mercados do mundo inteiro, não sabem que peixe devem pescar e a cimeira falha. Não sabem que fazer com os refugiados, não sabem que fazer quanto à guerra, não sabem que fazer para evitar a catástrofe ambiental, não sabem que fazer para promover uma economia que ê condições de vida a sete mil milhões e meio de habitantes na terra, e a única coisa que decidem é desarmar a política e de armar os mercados, é abater as restantes restrições ao comércio livre e à especulação financeira, é legitimar a repressão política e a reação anticurda de Erdogan na Turquia e ter pena do Merkel que perdeu as eleições regionais na Alemanha.

E em tudo isto a Itália o que faz? Faz eleger os senadores dos conselhos regionais.

E ainda: a Itália tem crescimento zero, o desemprego dos jovens em Julho estava em 39%, o trabalho é precário, os despedimentos no segundo trimestre aumentaram 7.4% em relação ao mesmo período do ano precedente, alcançando 221.186 pessoas, os pobres absolutos são quatro milhões e meio, a pobreza relativa implica três milhões de famílias e 8 milhões e 500 mil pessoas.

E a Itália, o que faz? Faz uma lei eleitoral que exclui do Parlamento o pluralismo ideológico e social, neutraliza a representação e concentra o poder num só partido e numa só pessoa.

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Mas diz-se: é o que nos pede a Europa. Mas se é isto que nos pede a Europa quer dizer realmente que as Instituições Europeias perderam completamente não somente o muito pouco que ainda restava do sonho das origens mas também o sentido da realidade e dos seus próprios interesses vitais.Mas se esta é a distância entre a reforma constitucional e as necessidades reais do mundo, da Europa, do Mar Mediterrâneo e da Itália, a questão é porque é que é feita esta proposta de reforma.

A verdade é revolucionária, mas só se vier a saber-se qual é

Então chega o momento de contar a verdade sobre o referendo. A verdade é revolucionária na medida em que interrompe o decorrer das coisas existentes e cria uma nova situação. O problema da verdade é que ela se descobre tarde demais, quando o tempo passou, o kairos ainda não foi agarrado no seu voo e a verdade já não é útil para nos salvar.

Se algum de nós soubesse a tempo a mentira sobre o Golfo de Tonkin nunca teria acontecido o incidente, a guerra de Vietname não teria existido, a América não se tornaria incapaz de seguir o caminho de Roosevelt, Truman e Kennedy e poderia conduzir a uma construção democrática e pacífica da Nova Ordem Internacional inaugurada há 20 anos com a carta de São Francisco.

Se se se tivesse sabido a tempo a mentira de Bush e de Blair e sabido que as armas de destruição em massa de Saddam não existiam, não teria sido devastado o Médio Oriente, o terrorismo não teria assumido as formas totalitárias dos combatentes suicidas em todo o mundo e não se correria o risco de ver Trump eleito na América.

Se se soubesse a verdade sobre o crime e os instigadores do assassinato de Moro, Itália estaria salva da decadência em que se precipitou..

Assim, a verdade do referendo deve ser conhecida enquanto é tempo.

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Mas a verdade do referendo não é o que está a ser dito. Diz-se por exemplo que a sua primeira virtude seria uma poupança nos custos da política e que o dinheiro assim poupado seria dado aos pobres. Mas este não é o caso: de acordo com o serviço de contabilidade do Estado, cuja tarefa é verificar a certeza e a fiabilidade das contas públicas, a poupança seria reduzida para 58 milhões que seriam obtidos cortando nos salários dos senadores enquanto o Senado continuaria a custar o mesmo, e os pobres não teriam direito a nada.

As outras virtudes do referendo seriam a economia de tempo na política. Dizem-nos que de fato se queria abolir o vaivém das leis entre os deputados e os senadores. Mas este não é o caso. Na verdade, alongam o tempo da produção legislativa; de fato, introduzem-se seis tipos diferentes de leis e procedimentos que caem fora de ambas as Câmaras: 1) leis sempre a passar pelas duas Câmaras, Câmara Baixa e Senado, como as leis eleitorais e constitucionais, de interesse europeu; 2) as leis feitas por uma só Câmara que no espaço de dez dias pode ser reclamada pelo Senado; 3) leis que invadem a competência regional que o Senado deve analisar, no prazo de dez dias; 4) leis orçamentais que devem sempre ser analisadas pelo Senado, que tem quinze dias para propor alterações; 5) as leis que o Senado pode solicitar à Câmara baixa para examinar dentro de seis meses; 6) leis de conversão dos decretos-leis que têm datas e prazos limite, se se recorrer para uma discussão pelo Senado. Isso cria um labirinto de passagens entre os deputados e os senadores e um emaranhado de poderes cujo conflito deve ser resolvido por acordo entre os presidentes das duas câmaras e caso a caso.

Dizem-nos então que este referendo irá garantir a estabilidade política, mas pelo menos até ontem, e ao contrário, dizia-se que se Matteo Renzi perde o referendo, cai então o governo. Mas isto não é a verdade do referendo. Enquanto se permanecer assim a verdade do referendo não será visível.

Não é a lei Boschi o verdadeiro objeto do referendo

A verdade do referendo está por trás disso, é a verdade escondida que com ele se revela: o referendo não é apenas um facto de efeitos políticos, é um evento de revelação que rasga o véu sobre a situação como ela está. É uma revelação da verdadeira luta que está a ocorrer pelo mundo e do que está em jogo. O referendo como um conto de contos, poderíamos dizê-lo na Sicília, uma história de histórias, como remover o véu do templo para ver o que está por baixo dele, se há aí Deus ou um ídolo. O referendo, como revelação do estado do mundo.


Agora, para encontrar a verdade escondida do referendo, o seu verdadeiro objetivo, a sua verdadeira premeditação, é necessário recorrer a índicios como se faz em qualquer romance policial.

O primeiro indício está em que Renzi alterou a sua estratégia e no início tinha dito que esta era a sua verdadeira missão, que sobre ele se jogava o seu destino político. Agora em contrapartida diz que o ponto não é ele, que não é ele a verdadeira causa da reforma, disse ter feito esta reforma sobre a sugestão de outros e nomeou explicitamente Napolitano; mas é claro que não há não somente Napolitano. Antes de Napolitano há então o banco J.P. Morgan que, num documento de 2013, em nome do capitalismo vencedor, tinha indicado quatro defeitos das Constituições (de tendências socialistas ) adotadas na Europa no pós-guerra:) e que são: há uma fraqueza dos dirigentes políticos em face do Parlamento ; b) uma excessiva capacidade de decisão das Regiões no que diz respeito ao Estado; c) há uma tutela constitucional do direito do trabalho; d) a liberdade de protestar contra as escolhas de que não gostam face ao poder.

Primeiro que isto ainda houve o programa avançado pela Comissão Trilaterale, formada por expoentes dos Estados Unidos, da Europa e do Japão e fundada por Rockefeller, que tinha como finalidade uma atenuação da Democracia para se fazer então a luta ao comunismo. E a mesma coisa querem agora os grandes poderes económicos e financeiros mundiais, sendo igualmente verdadeiro que desceram ao terreno os grandes jornais que os representam, Financial Times e Wall Street Journal, que dizem que o referendo não seria uma catástrofe como o Brexit inglês. E, por fim, interveio o próprio embaixador americano que em nome de qualquer especulador disse que se na Itália ganhar o NÃO, os investimentos saem do país.

Pois bem, estas pretensões avançadas por estes centros de decisão foram acolhidas e incorporadas na reforma apresentada agora ao voto de povo italiano. Com efeito com a reforma pretendida por Renzi o Parlamento fica drasticamente enfraquecido para dar mais poderes ao executivo. Das duas Câmaras de facto permanece só uma delas, como se diga então: começamos por eliminar uma, depois ver-se-á. O Senado transformou-se assim numa instituição tão feia, disforme e improvável que levou mesmo os partidários do Senado a considerarem que a ser assim, seria melhor acabar com ele. Além disso o poder executivo será dono e senhor do calendário dos trabalhos parlamentares. A relação de confiança entre o Parlamento e o governo é pois tornada vã não só porque o executivo não terá mais nenhuma necessidade de fazer as contas com o que resta do Senado, mas também porque é necessário apenas obter a confiança de um só um partido. A lei eleitoral Italicum prevê com efeito que um só partido terá – qualquer que seja a percentagem dos seus votos, na primeira volta ou na segunda – a maioria absoluta dos lugares na Câmara (340 em 615 deputados). O problema da confiança reduz-se assim a uma relação entre o chefe do governo e o seu partido e por conseguinte recairá sob a lei da disciplina de partido. Por conseguinte não será mais uma confiança livre, não será uma verdadeira confiança, será para assim dizer um ato interno de partido, que pode mesmo reduzir-se à relação entre o partido e o seu secretário-geral.

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Legenda : O sistema eleitoral visto por Edoardo Baraldi- Porcellum-Italicum

No que se refere às outras pretensões das potências económicas, os direitos dos trabalhadores já foram postos em causa pelos Jobs act, a relação entre o Estado e as Regiões sofreu uma inversão, porque da intoxicação regionalista volta-se agora a um centralismo ilimitado, a que se acresce o facto de, em conjunto com a redução do pluralismo político, existem procedimentos que tornarão mais difíceis as formas de democracia direta, como referendos ou leis de iniciativa populares e então haverá uma redução nas possibilidades dos cidadãos poderem intervir contra o poder.

Este é o desenho de uma outra Constituição. A história das Constituições é a história de uma limitação progressiva do poder porque as liberdades dependem de que quem tem o poder não tem o poder absoluto e sem controlo, mas validado pela confiança dos parlamentos e justificado pelo constante controlo democrático dos cidadãos. É isso que agora está a ser desmontado, o que nos leva a poder assegurar que a democracia na Itália está numa situação de alto risco.

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Mas neste momento, é claro que o que conta já não é Renzi, e é claro que aqueles que estão interessados nesta reforma lhe disseram para recuar porque eles não estão interessados no sim de Renzi, interessa-lhes que não vença o Não à reforma.

O segundo indício é o atraso da data da convocação, que ainda não foi definida pelo governo; Isto significa que o jogo é demasiado importante para ser um jogo como ele queria fazer, embora as sondagens e as derrotas de Renzi nas eleições locais tenham sido perturbadoras. Então seria necessário menos bravatas aos Dias Gloriosos e mais preparação. E era necessário elevar o nível de conflito e primeiro que tudo era necessário rearmar-se antes que se desse a batalha final. O rearmamento para ganhar superioridade no terreno foi a aquisição do controle total da informação, não apenas de jornais, aliás já nas suas mãos, mas a rádio e a TV, o que foi feito em pleno verão com as nomeações para RAI.

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Legenda: A vigilância da RAI vista por Edoardo Baraldi

Acabava, de facto, de encurtar os prazos de entrega e de distribuir alguns subsídios aos pobres, mas não tinha o controlo total da informação.

Além disso, era necessário destruir o principal adversário e defensor político do Não, o Movimento 5 Estrelas. Isto explica o ataque cruel e implacável a Virginia Raggi. E por isso levou um pouco mais tempo para distribuir o dinheiro com a lei das Finanças.

Há então uma terceira pista. Quando questionado sobre o seu voto Prodi diz: não me pronuncio porque se o fizer posso perturbar os mercados e desestabilizar a Itália na Europa. Portanto, não se trata de uma questão italiana, é uma questão da Europa, é um assunto que poderia abalar os mercados. É algo que tem a ver com a estrutura do mundo.

A linha que separa as águas não é afinal o 11 de Setembro

Neste ponto, todos devemos saber saber como é que as coisas aconteceram.

Nós começamos a partir de 11 de setembro de que se tem muito falado recorrendo ao aniversário nestes dias.

O mundo mudou em 11 de Setembro de 2001? Todos diziam isso. Mas o mundo não mudou naquele dia: isso foi um assustador sintoma da doença que já se tinha contraído. O 11 de setembro mostrou ao mundo o que nós mesmos tínhamos decidido construir dez anos antes disto acontecer.

Em 1991, com dez anos de antecipação do fim do século XX, tanto assim que um historiador famoso o apelidou de “Século breve” [1] deu-se então início a um novo século, a um novo milênio e a um novo regime que, na loucura das classes dominantes da época seria para elas o regime definitivo, tanto assim que um famoso economista o definiu como sendo o “fim da história” [2]

O que tinha acontecido dez anos antes de 11 de setembro é que tínhamos decidido responder ao fim do comunismo, recriando um capitalismo agressivo até aos confins da terra; tínhamos decidido responder ao “fim das ideologias, transformando o capitalismo da cultura à natureza, promovendo a sua ideologia a lei universal, a sua historicidade à transcendência; tínhamos pretendido ultrapassar o conflito de classes, eliminando os sindicatos, tínhamos decidido aproveitar o fim do confronto militar entre os blocos, fazendo do Terceiro Mundo, um teatro de conquista militar.

A escolha decisiva, que ninguém pode chamar revolucionária porque não foi uma revolução mas uma inversão e, portanto, foi uma recuperação totalmente reaccionária, foi a de desarmar a política e armar a economia, não num só país mas em todo o mundo. Não havendo já o obstáculo de um mundo dividido em dois blocos políticos e militares, iguais e opostos, o horizonte deste regime era que a globalidade, a mundialização como dizem os franceses, levasse ao estabelecimento de um governo global alargado a toda a terra.

Qual foi o acontecimento que lhe deu esta forma e promulgou, por assim dizer, esta escolha?

Há uma teoria muito aceitável segundo a qual no início de todo um período histórico, no início de cada novo regime, há um crime fundador. De acordo com René Girard no início da história da civilização o crime fundador é a matança da vítima inocente, ou seja, há um sacrifício, a partir do qual é recomposta a unidade primordial da sociedade dilacerada por conflitos.

De acordo com Hobbes o estado em si foi fundado pelo ato de violência com que o Leviatã assume o monopólio da força terminando a luta de todos contra todos e garantindo aos súbditos a vida em troca da sua liberdade.

De acordo com Freud, na origem da sociedade civil, há o crime fundador, o assassinato do pai.

Se cada um de nós parar e olhar para a história… encontrar-se-ão muitos crimes fundadores. César é muitas vezes morto, o assassinato de Matteotti é o crime fundador do fascismo, o assassinato de Kennedy abre o caminho para a dominação global da direita americana como ela se prepara a sonhar, para o ano 2000, “o novo século americano”, o assassinato de Moro é o crime fundador da Itália que se arrepende das suas conquistas democráticas e populares. Mesmo o crime fundador do regime atual do capitalismo global fundado, como diz o Papa, sobre o governo do dinheiro e numa economia que mata, é a primeira guerra do Golfo em 1991.

Guerra como crime fundador e o novo modelo de defesa

É a partir dela que se construiu a nova ordem mundial. E podemos lembrar como se passaram as coisas a partir do nosso Observatório italiano. Não é um ponto de observação periférico porque a Itália era um componente essencial do sistema Atlântico e ocidental, mas era ainda o país mais ingênuo e mais loquaz, que falava à luz do dia sobre questões que os outros arquitetavam em segredo. É por isso que posso contar como é que as coisas se passaram, a partir de uma data específica. E esta data é 26 de Novembro de 1991, quando o ministro da Defesa Rognoni vem à Comissão de Defesa da Câmara e apresenta o novo Modelo de Defesa.

Porque é que era preciso um novo modelo de defesa? Porque a defesa como ela tinha sido organizada como uma função do inimigo soviético tinha desaparecido, estava agora ultrapassada. Queríamos um novo modelo. O modelo de defesa que estava escrito na Constituição era muito simples e estava escrito em poucas linhas: a guerra era aí repudiada, a defesa da pátria, entendido como território e como um povo, era um dever sagrado dos cidadãos. Com este objectivo foi estabelecida o serviço militar obrigatório, que deu origem a um exército permanente, dividido em três forças armadas tradicionais. As regras do princípio na disciplina militar de 11 de julho de 1978, definiram as três tarefas das forças armadas. A primeira delas era a defesa da integridade do território, a segunda era a defesa das instituições democráticas e a terceira era a intervenção de apoio aos desastres naturais. Havia outras tarefas para as FF. AA. A defesa do território envolvia especialmente a implantação do exército no limiar de Gorizia, donde era suposto vir a ameaça da invasão soviética e a segurança global estava na participação na NATO, que também incluiu o uso de armas nucleares da Itália.

Com a demolição do muro de Berlim e o fim da guerra fria, tudo muda: não há necessidade de defesa na fronteira oriental, acabou-se a ameaça e até mesmo a dissuasão nuclear é menos necesária. Temos a grande oportunidade de construir um mundo novo, fala-se mesmo dos dividendo da paz que seriam então todas as economias feitas feitas pelos Estados, poupanças que eram a expressão quantificada do dinheiro que não gastariam em armas e com estas poupanças teríamos os recursos para financiar o desenvolvimento e o progresso para todos os povos do mundo; Precisamos de menos soldados e mesmo o tempo de serviço destes pode ser mais curto.

Mas o Ocidente fez uma outra escolha; apropria-se da guerra e exibe-a por toda a parte na espetacular representação da guerra do Golfo em 1991, muda a natureza da NATO indica o sul e não é mais o leste como um inimigo, muda a visão estratégica da Aliança e dela faz o braço armado da ordem mundial tentando com ela substituir o papel da ONU e também procura mudar os ideais da comunidade internacional, que eram a segurança e a paz. É pois escolhido um outro objetivo: acabada a guerra fria, há um outro objetivo adotado pelas sociedades industrializadas, explicará o novo “modelo” italiano, e que é “manter e aumentar o seu progresso social e o bem-estar material procuramndo satisfazer novos e mais promissores objectivos económicos, baseados-se na certeza da disponibilidade de matérias-primas”. Portanto, abrir-se-á aainda mais o fosso entre o Norte e o Sul, até porque o Sul será o palco e o objeto de uma nova comcorrência entre om Ocidente e os países de Leste. À concorrência Leste-Oeste substitui-se agora a concorrência Norte-Sul.

Tudo isso se insere no novo modelo de defesa italiana, está escrito no documento de 150 páginas e o ministro Rognoni, um papa papal, veio explica-lo no Comité de defesa da câmara, de que eu então fazia parte.

É um drama, uma ruptura com o passado. Mudar o conceito de defesa, o problema, disse o Ministro, já não é agora ” de quem é que nos devemos defender ” (ou seja, de um possível agressor), mas é sim ” o que é que se deve defender e como “. E muda o que há agora de defender: já não é a pátria, isto é o povo e o território, mas ” os interesses nacionais na acepção mais vasta da expressão ” onde for necessário; entre estes estão em destaque os interesses econômicos e os interesses de produção assim como os relativos às matérias-primas, começando pelo petróleo. O teatro das operações já não está na fronteira, mas sim onde quer que se trata dos chamados “outros interesses” e especialmente no Mediterrâneo, em África (até no corno de África), no Médio Oriente (até no Golfo Pérsico); a nova oposição é face ao Islão e o modelo, assim a chave interpretativa emblemática da nova relação conflitual entre o Islão e o Ocidente, diz o Modelo, é o do conflito entre Israel de um lado e o mundo árabe e os palestinianos do outro. Quem é que disse que não declarámos guerra ao Islão? Nós declarámo-la em 1991. Declarámo-la ainda agora, hoje, enquanto membro do Parlamento, mesmo que me tenha oposto.

As obrigações da defesa já não são apenas as três indicadas na lei de 1978, mas estão divididas em três novas funções estratégicas, que são “Presença e vigilância” que é “permanente e contínua em toda a área de interesse estratégico” e inclui a Presença Avançada que substitui a antiga Defesa Avançada da NATO, a dos “interesses externos e da contribuição para a segurança internacional”, que é a “elevada probabilidade de ocorrência” (e são as missões no exterior que exigem a criação de Forças de Intervenção Rápida) e a de “Defesa Estratégica do espaço nacional”, que é a tradicional defesa territorial, que é considerada agora com uma baixa probabilidade de ocorrência “.

Como resultado de tudo isto, o instrumento para levar a cabo estes objecticos deixa de poder ser um exército de recrutas, é preciso um exército profissional bem pago. Não se precisaria de mais nenhuns magalas; Já aconteceu que generais não tenham podido fazer sair os recrutas como aviadores em aviões e como marinheiros nos navios; Mas de agora em diante os militares recrutas, os magalas, só serão empregados como cozinheiros, paquetes, guardas, acompanhantes, porteiros e trabalhadores de serviços logísticos, a fim de que haja assim cerca de cem mil jovens a perderem o seu emprego e, em breve, esta alavanca será mesmo suprimida.

É uma mudança total. Não só muda a política militar mas mudam também a Constituição, a ideia de política, a razão de Estado, as alianças, as relações com as Nações Unidas, vem institucionalizada a guerra e anuncia-se um período de conflito com uma alta probabilidade de ocorrência que têm o Islão como o inimigo. Deveria haver um debate no Parlamento, não se deveria falar de outra coisa.

Embora ninguém repare, o Modelo de Defesa nunca chegará ao Parlamento e nunca será portanto aí discutido; Talvez eles tenham percebido que se aquelas coisas que cada um de nós teria para dizer não são politicamente corretas, os documentos e as resoluções estratégicas do Conselho Atlântico de Londres e Roma, que muito pouco tempo antes tinham precedido o documento italiano, tinham sido muito mais cautelosas e reticentes, e acabou-se por discutir o novo modelo de defesa desde há vários anos somente nos círculos militares ou em qualquer conferência de estudos sobre o tema; Mas enquanto isso este era levado á prática e tudo o que aconteceu depois, da guerra dos Balcãs ao ataque às Torres Gémeas, passando pela invasão do Iraque, da Síria, a terceira guerra mundial em peças que hoje, como diz o Papa, está em andamento, foi o resultado e o seu desenvolvimento.

Então esta é pois a verdade da nova Constituição

A nova Constituição é a quadratura do círculo. As instituições da democracia não são compatíveis com a concorrência global, com a guerra permanente e quem quer manter vivas as instituições democráticas é hoje considerado um conservador. O mundo é o mercado; o mercado não tolera outras leis que não sejam as do mercado. Se alguém está a ameaçar fazer as suas próprias coisas, os mercados serão aterradores. A política não deve interferir com a concorrência no mercado nem nos conflitos que aí se passam. Se as pessoas estão a morrer de fome, e o mercado não as mantém em vida, a política não pode intervir porque as ajudas estatais são proibidas. Se o Estado tenta, ou introduz leis para defender o trabalho ou o ambiente, as empresas levá-lo-ão a tribunal e ganham o caso. Isto é o que dizem os novos tratados de comércio global. A guerra é o instrumento supremo para defender o mercado e vencer no mercado.

As Constituições não têm nada a ver com uma tal concepção da política e da guerra. Por isso, mudam-se. E querem-se poderes rápidos e sumários, tanto melhor se expressivos.

Então é por isso que devemos defender a Constituição. Não, porque esta seja hoje operacional, porque isso já foi alterado em ‘ 91 e o mundo do constitucionalismo democrático foi despedido entre 89 e ‘ 91 (Lembremo-nos de Cossiga, primeiro a picareta e depois o martelo compressor). Mas é a única esperança de manter aberta a alternativa, de não dar por acabada e irreversível a passagem da liberdade da democracia constitucional à escravidão do mercado global e é, por outro lado, a condição necessária para que a Constituição e a lei não sejam sujeitas à sociedade selvagem mas seja antes a sociedade selvagem com o nosso NÃO a ser declarada à revelia e através da luta de todos nós venha a ser posta em conformidade com a Constituição, a justiça e o direito.

Professor Raniero La Valle, La verità sul referêndum, Texto disponível em diversos sítios como Micromega cujo endereço eletrónico é:

http://temi.repubblica.it/micromega-online/la-verita-sul-referendum/

Ou no sítio Contrapiano, cujo endereço é:

http://contropiano.org/interventi/2016/09/26/la-verita-sul-referendum-083957

entre muitos outros sítios.

[1] Eric Hobsbawm, Il Secolo breve (1914-1991: l’era dei grandi cataclismi), Rizzoli, Milano, 1995.


[2] Francis Fukuyama, La fine della storia e l’ultimo uomo, Rizzoli, Milano, 1992.

* Discorso tenuto il 16/09/2016 a Messina nel Salone delle bandiere del Comune in un’assemblea sul referendum costituzionale promossa dall’ANPI e dai Cattolici del NO e il 17/09/2016 a Siracusa in un dibattito con il prof. Salvo Adorno del Partito Democratico, sostenitore delle ragioni del Sì.

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