O calendário social distribui-se por datas que coincidam com feriados ou festas tradicionais.
Mas, como já nada é como era, os festejos do Natal também se alteraram. O espírito de reunião familiar e de troca de afectos está dar lugar a outras maneiras de convívio.
Para muitos de nós é-nos difícil aceitar que os adolescentes, ou jovens, queiram aproveitar estes dias natalícios para passear, dentro ou fora do país, com os amigos.
É muito bom ter amigos com quem possamos ir passar uns dias, mas e a família? E os mais velhos, os avós, os tios?
Estamos quase no Natal e, estes dias que o precediam eram vividos com uma certa magia no ar.
O Pai Natal iria dar algum presente?
A Árvore de Natal era feita com cuidado, porque as bolas, se caíssem no , podiam-se partir e eram caras…por isso, essas árvores tinham estrelas e anjinhos feitos pelas mãos pequeninas das crianças, ao pé dos adultos que lhes iam contando histórias e falando de pessoas, da família, que elas já não conheceram.
Sem noção da importância da preservação do ambiente, cortavam-se alegremente os pinheiros que fossem necessários para alegrar as nossas casas.
A Natureza falou mais alto e cada vez mais se foi cortando menos pinheiros, e daí, se ter chegado a árvores artificiais…ás bolas que não se partem…ás fitas douradas e de todas as cores— que fazem, na mesma, o encanto das crianças, se elas participarem na decoração num clima de troca de afecto partilhado com os mais velhos.
Natal é sinal de troca de presentes. Aqui começa a grande e afrontosa diferença de outras épocas, que neste caso não eram melhor nem pior, eram diferentes.
Na Escola fazíamos cartões de Natal para dar aos pais e pôr na árvore, na esperança de um presente.
A esperança de um presente tornou-se obrigatória porque o mercado desatou a produzir brinquedos aos quais nem adultos nem crianças resistiam. A sociedade de consumo deu mais um passo e a partilha deixou de ser aquela mágica surpresa. Até o vocabulário mudou, se repararmos as crianças já não dizem o que tiveram no Natal, mas sim o que ganharam. Os centros comerciais começaram a fazer propaganda dos produtos mais vendáveis e as crianças, em casa, juntam-se, agora, á volta dos adultos para escolherem o que querem ou o que as lojas querem vender.
“ Oh professora, eu não acredito no Pai Natal.”
“porquê?”
“ porque se o pai natal existisse já me tinha dado uma bola”.
Que dizer deste Natal que se festeja numa época de pessoas mortas na guerra, de crianças abandonadas, violadas e mortas durante os bombardeamentos, de homens ou mulheres suicidas? De civis a servirem de escudo humano contra o inimigo, da fome que aumenta cada vez mais, do crescente número de sem-abrigo, do crescente número de milionários e do crescente número de pobres?
Em muitas casas haverá afecto, haverá o encontro de várias gerações, o bacalhau e o bolo rei… e o momento mágico da abertura das prendas. Noo meio desta azáfama vemos a sociedade consumista nos papéis rasgados, nas fitas e laços e na falta de surpresa dos presentes recebidos…
Olhamos para os avós e vemos nos seus olhos a recordação de outros natais, de outras alegrias, vemos nos olhos dos pais a satisfação de terem dado aqueles presentes…
Não somos responsáveis pela quantidade de brinquedos que andam nas lojas à espera de serem comprados, mas temos alguma responsabilidade na qualidade de confraternização entre os membros da família e do convívio com os amigos.
O que vai ser retido nas memórias dos jovens e das crianças desta festa natalícia?
Acredito, que também sejam os momentos bons, embora outros, acredito que não façam do consumo excessivo a alegria dos filhos e acredito que tentem mudar a sociedade para que o Natal seja vivido por todos com afecto e conforto. Acredito que estes jovens não vão deixar que não haja pai natal, para que aquele menino de oito anos tenha a sua desejada bola!