
Acabou de nos deixar (4 de Dezembro) o grande poeta brasileiro, Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira), que obteve merecidamente o Prémio Camões em 2010. Não teve em Portugal o reconhecimento de que a sua obra é credora e, no entanto, foi uma enorme figura que animou significativamente a poesia de língua portuguesa na segunda metade do século XX.
Ferreira Gullar nasceu em S. Luís, capital do estado de Maranhão, em 10 de Setembro de 1930, e foi poeta, dramaturgo, ensaísta e crítico de arte. Publicou o seu primeiro livro de poesia, Um pouco acima do chão, aos 19 anos, livro que viria a ser o principal ponto de referência para uma posterior definição da sua poética experimental. Transfere-se para o Rio de Janeiro em 1951, aí trabalha como jornalista e crítico de artes visuais. Em 1954 participa activamente no movimento da “Poesia Concreta” (A Luta Corporal), do qual se afasta em 1959, quando escreve o manifesto da “Poesia Neoconcreta”.
Acabada a época da poesia experimental, assume uma clara posição de empenho político, com visíveis ecos na sua obra. Adere então ao PCB, vindo a ser perseguido pela ditadura militar brasileira. Exilou-se nessa altura na Argentina, país onde escreveu o famoso Poema Sujo (1976), texto que muito contribuiu para lhe conferir o estatuto de grande poeta.
Ferreira Gullar deixou-nos um poema que, não por acaso intitulado “Arte Poética”, se pode hoje ler como testamento integralmente cumprido:
Não quero morrer não quero
apodrecer no poema
que o cadáver de minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz
… … … … … … … … … … …
Nada que se pareça
a pássaro empalhado múmia
de flor
dentro do livro.
… … … … … … … … … … …
