Para podermos imaginar com alguma consistência o que é remar a bordo de uma nau, seja militar ou comercial, pensemos num remo de cinco braças e meia de comprido, ou seja, o equivalente à altura de sete homens de meã estatura, com um peso de quase trezentos arráteis, ou seja, o peso de dois homens corpulentos. Cada um destes remos é manobrado por cinco homens. A parte do remo que fica dentro do barco é de cerca de seis braças e cada homem tem, mais ou menos, de ombro a ombro a largura de uma braça. Na extremidade de cada um destes remos, além de um lastro de chumbo que evita que o remo possa acidentalmente cair para o exterior, existe um punho onde o remador mais forte segura. É ele quem vai marcar a cadência da remada que pode chegar a vinte e cinco ou mais por cada minuto, dependendo do ritmo que a voz e o chicote do comitre imponha.
Multiplique-se agora a guarnição de um banco por dois, um a bombordo e outro a estibordo e depois, por vinte, trinta ou mais filas duplas de bancos, e atingiremos o número de remadores que pode oscilar entre duzentos e trezentos, consoante o tamanho da nave. Com o treino, a chusma, assim se chama ao conjunto de remadores de uma galé ou de uma nau, pode atingir velocidades excepcionais, principalmente durante uma fuga ou durante um combate em que seja necessário executar manobras com rapidez.
Um bom e competente comitre evita recorrer muito ao chicote, não por um sentimento de humanidade, mas porque se o fizer, impondo uma velocidade excessiva, em breve terá uma chusma fatigada, exausta, que não servirá para nada. E volto a dizer, usando o tempo verbal presente, porque desde há séculos que esta realidade se mantém igual: tente imaginar-se esta multidão de homens apertados uns contra os outros, só vendo cabeças desde a popa até à proa. Os músculos dos braços desenvolvem-se, os miolos atrofiam-se, as palmas das mãos ficam cobertas de uma camada de pele calosa semelhante a madeira, o cheiro a suor, a urina e a excrementos só não é insuportável porque aqueles cérebros embrutecidos já não distinguem odores. Acresça-se que ratazanas, atraídas pelo ambiente putrefacto, transitam por cima dos pés, mordendo e, por vezes, sendo mortas por rápidas pisadelas. Em suma, uma chusma de duzentos ou trezentos remadores, confinada num pequeno espaço, não deve estar muito distante daquilo que se imagina ser o Inferno.
A falta de vento não era, contudo, o único problema que flagelava a carraca. Outros perigos a espreitavam. Por isso vos falei dos perigos inerentes à escolha que o capitão fizera de uma rota mais curta. Na madrugada de quarta-feira, 21 de Agosto, ainda a coberto da escuridão, na chamada Costa Bárbara, em frente a Tunes, repeliram um furioso ataque de uma falua de piratas mouros que se aproximara durante a noite.
A falua ficou parada a algumas dezenas de braças e, entretanto, deslocando-se silenciosamente em batéis com os remos envoltos em panos, para deslizarem sem ruído, uma horda de mais de uma centena de piratas aproximou-se. Quando os vigias deram por eles, os berberescos estavam já quase encostados à amurada da carraca e logo trepavam como formigas por cordas que lançaram, depressa enxameando o convés e surpreendendo os tripulantes, estremunhados, com o sono interrompido.