RETALHOS DA VIDA DE UM CANTAUTOR – 5 – «Zeca foi a voz que nos silenciaram» -por Carlos Loures

 

Az-joseafonso  guerra nas colónias, as crises académicas, as greves e, em pano de fundo, um dos mais baixos rendimentos per capita da Europa, levam muitos milhares de portugueses a emigrar – filhos de famílias burguesas não querem combater numa guerra suja e saem também – a voz de José Afonso passa os muros da velha cidade universitária e, como um rio caudaloso e de irresistível força, salta para os lábios de milhões de portugueses, cantando a raiva, a miséria… – torna-se impossível não associar os seus vampiros aos ávidos barões do regime salazarista: Eles comem tudo/ eles comem tudo/eles comem tudo/e não deixam nada… Muitos dos vampiros continuam, eles ou os seus filhos e netos, a sugar-nos o  sangue. Todos eles são democratas, claro.

O Zeca explica: «Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho» (…) «Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair.» José Afonso, mantendo sonoridades coimbrãs (nem sempre), é agora o cantor. Como nota de humor, refira-se que uma então famosa marca de pudins quis comprar os direitos do refrão de Os Vampiros para servir de música de fundo a um spot publicitário. Obviamente, Zeca recusa.

Em Menino do Bairro Negro, balada inspirada na vida dos meninos de um bairro degradado – o Barredo, no Porto – essa intenção de «molestar consciências» torna-se ainda mais evidente. A emigração forçada pela miséria e pela guerra colonial, bem como o aparecimento, nas periferias das grandes cidades, de bairros de lata (fruto do começo da desertificação do interior), eram, no começo dos anos 60, realidades inseridas a fogo no quotidiano dos Portugueses. E cada vez mais o Zeca era a nossa mais querida bandeira de luta.

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