O MAPA (A saga do anadel/50) -«a chusma»-por Carlos Loures

O capitão nascera numa abastada família de marinheiros e armadores da pequena cidade de Zaanstad, perto do litoral. Fora habituado ao mar e aos barcos desde o berço. Ao contrário do boçal Jan Peter, Rudolf van der Meer, com um pouco mais de quarenta anos, alto, magro e esguio, era pessoa de uma serenidade dir-se-ia que aristocrática. Com barbas ruivas e cabelo ralo, em pequenas farripas também arruivadas, apresentava algumas cãs nas têmporas. Cortava-o curto, à camorro, como aqu dizemos, ao contrário do que a moda ditava e que era usar cabels compridos, quase a tocar os ombros. A barba era, pelo final de Quatrocentos, sobretudo para os jovens, ornamento passado de moda, pois usava-se a cara e o lábio superior rapados. Porém, tal como muitos homens de gerações anteriores, parecia pouco ou nada preocupado com as usanças do tempo. Além do seu idioma, dominava o francês, o castelhano, o italiano, sabendo também algo de alemão, de português e, claro, de latim, língua em que era muito lesto. Podia considerar-se pessoa ilustrada, pois além das artes e ciências da navegação, dominava outros saberes, sobretudo na área das Humanidades.

Quando não estava no convés em funções de comando, passava o tempo na sua cabina, situada no castelo da popa, meditando, lendo livros, desenhando, pintando, consultando cartas, fazendo cálculos a compasso e outras operações com o auxilio de um ábaco, registando no livro de bordo mercadorias avariadas ou outros factos dignos de menção. Tudo isto feito com ajuda de lentes montadas numa armação de arame, pois os olhos de um azul transparente já não possuíam a agudeza que haviam tido na juventude. Era metódico e calmo, abstémio, podia dizer-se, sem vícios. Não parecia muito agarrado à religião, embora cumprisse o dever de, nas manhãs de domingo e na ausência de um sacerdote, ler no convés uma passagem da Bíblia perante a tripulação em silêncio. O mesmo fazia quando alguém morria – o corpo era entregue à voracidade dos peixes, e a alma encomendada à graça divina.

Até Muhammad vinha escutar as prédicas ditas em flamengo ou em latim, não se sabendo se entendia alguma coisa, pois o mouro parecia não ter língua. Uma das coisas que lhe davam algum prazer era jogar xadrez. Porém, naquele reduzido universo, povoado quase só por gente ignorante, dificilmente encontrava parceiros. Apenas o físico Anton von Emmen, sempre ocupado em atender as maleitas dos tripulantes e a tratar ferimentos, e, como se veio a saber depois, Julián, dominavam aquela tão antiga arte. Lourenço conhecia também as regras do jogo em que Simão e Lopo eram exímios, mas a sua prática entediava-o de tal maneira que nunca revelou ao capitão esse saber, furtando-se a uma obrigação que, em todo o caso, lhe teria poupado tarefas bem mais cansativas. Assim, o capitão disputava longas partidas sozinho, rodando em torno da mesa, pensativo, sopesando cada jogada, parecendo tão empenhado em que ganhassem as brancas como, depois, ao mudar de lugar, as pretas. Desdobrando-se em dois. Quase não contactava a tripulação, deixando tal encargo para Jan Peter. Apreciava a tranquilidade e, na medida do possível fazia com que ela reinasse em seu redor, criando uma bolha de harmonia dentro da qual se protegia das más palavras, dos maus cheiros, dos maus pensamentos, que germinavam por todos os locais da carraca, menos na sua cabina.

Um acontecimento insólito alterou a rotina. Na tarde de 4 de Setembro, passavam a poucas léguas da pequena Ísola di San Pietro, visível a bombordo por entre a neblina que se abatera sobre o mar. Jan Peter, que estava ao leme manobrando a carraca durante um ameaço de borrasca, não aceitou uma educada sugestão que Julián lhe fez sobre a maneira de conduzir o barco, dizendo que, dada a crescente agitação, lhe parecia arriscado navegar tão perto dos recifes da costa, pois, segundo disse, as cartas daquelas paragens registavam a proximidade de rochas a poucas braças de profundidade. O jovem dissera ter sido desenhador de portulanos e, havendo contacto com pilotos e capitães, entendia algo da arte de marinharia. Porém, a Lourenço afigurou-se que talvez o rapaz não tivesse razão, que fosse exagerado o temor e atrevida a intromissão em funções que não lhe diziam respeito. Até porque o contramestre, apesar do mau feitio, sempre demonstrara conhecer o seu mester. Nada, porém que justificasse a explosão de raiva de Jan Peter. Sem deixar o andaluz concluir a sua advertência, largou o leme e começou a bater-lhe, berrando que não precisava dos conselhos dele para nada. Após uma saraivada de socos, Nuñez, já prostrado sobre o convés, parecia inanimado. Porém, o contramestre continuava a bater-lhe, a pontapeá-lo, como um possesso. Esquecendo as ordens do rei para não se meter em sarilhos e para moderar o ímpeto, Lourenço, defendeu o amigo, interpondo-se entre ele, que estava já inconsciente e o tresloucado agressor. Tentou, primeiro detê-lo por palavras, mas este, quis afastá-lo e, não o conseguindo, bateu-lhe também. Foi um erro que iria sair caro a ambos. Ainda pôde, por momentos, evitar o confronto físico, sabendo que, fosse qual fosse o desfecho, ele lhe seria sempre desfavorável. Porém, dada a obstinação do flamengo em o afastar com violência para continuar a zurzir o já desmaiado andaluz, acabou por ser obrigado a ripostar. O contramestre concentrou então nele a raiva e tão cego estava que Lourenço se esquivava com facilidade dos seus golpes, acabando por não resistir à tentação de lhe aplicar alguns murros.

Entretanto, à frente de um grupo armado, o capitão surgiu com ar sereno e pôs fim à contenda. Devido às suas ordens, Lourenço foi apenas posto a ferros e não enforcado por insubordinação como o imediato, berrando, disse ser indispensável, para que, servindo de exemplo, pudesse ser mantida a disciplina de bordo. O português e o inanimado Julián foram acorrentados, ao lado dos remadores. Estes aproveitavam, sempre que o comitre de serviço se distraía, para os pontapear ou para lhes dar cotoveladas brutais nas costelas. Julián permanecia quase sem consciência. Anton veio vê-lo e garantiu que não havia nada fracturado. Uns dias de repouso e a aplicação regular de unguento nas feridas iriam curá-lo. O físico e cirurgião, que acumulava também as funções de boticário, um frísio de Gringa, era homem de meia-idade, baixa estatura, rotunda barriga, quase calvo, louro e rosado e com ar bondoso, o que o ajudava bastante na missão de curar, operar e prescrever medicinas, por vezes desagradáveis de tomar. Só falava baixo neerlandês, possuindo o condão de se fazer entender pelos pacientes. Lourenço ficou com o pote do unguento e, seguindo à risca as indicações, cuidou do amigo o melhor que a situação permitia. Remava com determinação, fazendo o trabalho dos dois. Os da chusma, apreciando o seu sacrifício, foram deixando de o atormentar, ganhando-lhe respeito.

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