RETALHOS DA VIDA DE UM CANTAUTOR – (Conclusão) – por Carlos Loures

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GRÂNDOLA – SENHA PARA O ARRANQUE DA REVOLUÇÃO 

Em 29 de Março de 1974, a menos de um mês da «Revolução dos Cravos», realiza-se no Coliseu dos Recreios um «Canto Livre» organizado pela Casa da Imprensa onde, além de Zeca, participam José Barata Moura, José Jorge Letria, Vitorino, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, entre outros. A censura avisa a organização de que algumas canções não devem ser interpretadas. Entre elas, algumas do Zeca – Menina dos Olhos Tristes, Venham Mais Cinco e A Morte Saiu à Rua, dedicada ao escultor e pintor José Dias Coelho, assassinado a tiro por um agente da PIDE, em 1961, numa rua de Alcântara, em Lisboa. Acabam o espectáculo cantando em coro Grândola, Vila Morena, que, estranhamente, não fora proibida pela Censura. Oficiais do MFA que assistem ao espectáculo, escolhem nesta altura a senha para o arranque do levantamento militar. Diz o Zeca: «Vivi o 25 de Abril numa espécie de deslumbramento» (…) «Fui para o Carmo, andei por ali… Estava tão entusiasmado com o fenómeno político que nem me apercebi bem, ou não dei importância a isso da Grândola. Só mais tarde (…) quando recomeçaram os ataques fascistas e a Grândola se cantava nos momentos de maior perigo ou entusiasmo, me apercebi de tudo o que significava e, naturalmente, senti uma certa satisfação». Ainda em 74, gravado em Londres, é editado o álbum Coro dos Tribunais. Após o 25 de Abril, Zeca entra numa fase frenética de intervenção em festivais, sessões de esclarecimento… Apoia o M.F.A. na operação Maio-Nordeste, um esforço de esclarecimento das populações isoladas do Nordeste transmontano. É indubitavelmente a voz da Revolução. O período agitado que se segue à Revolução de Abril, constitui uma época de grande envolvimento de Zeca na vida do País – canta em quartéis, em fábricas, em escolas em colectividades, em serões de solidariedade internacional; apoia o MFA na animação cultural junto da emigração e na recolha de fundos para a Reforma Agrária… Após os Acordos de Alvor, actua em diversas cidades de Angola. Em Itália, organizações políticas como a Lotta Continua, Il Manifesto e Avanguardia Operaia, editam o álbum República, gravado em Roma. A receita é destinada a apoiar os trabalhadores do vespertino República e uma cooperativa agrícola. Francisco Fanhais e músicos italianos colaboram na gravação. Em 1976, apoia a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho à presidência da República. Edita o álbum Com as Minhas Tamanquinhas. Pelo seu álbum Cantigas do Maio, é distinguido com o Prémio Alemão do Disco, outorgado pela Academia Fonográfica Alemã. Em 1978, com a colaboração de Fausto, grava e edita o álbum Enquanto Há Força. No ano seguinte sai o álbum Fura Fura, com a colaboração dos Trovante e de Júlio Pereira. Em Bruxelas, canta no Festival da Contra-Eurovisão. Em 1981 Grava Fados de Coimbra e Outras Canções. Realiza um espectáculo no Théatre de la Ville, em Paris.

 

NÃO ME ARREPENDO DE NADA DO QUE FIZ 

Em 1982 revelam-se os primeiros sintomas da doença degenerativa que o virá a vitimar. Em Janeiro de 1983 actua no Coliseu dos Recreios, num espectáculo em que colaboram, entre outros, Fausto, Júlio Pereira, Janita Salomé… Durante esta actuação, é já visível a dificuldade de Zeca em exibir plenamente os seus dotes de grande executante. Em Dezembro, sai o álbum Como Se Fora Seu Filho, em que colaboram Fausto, José Mário Branco, Janita Salomé e Júlio Pereira. Em Abril de 1984 presta um depoimento à revista Questões e Alternativas: «Penso que, após o 25 de Abril, devia ter havido uma prática pedagógica de exercício da democracia. As populações deveriam experimentar, directamente, quais são as possibilidades de inserção na realidade, de a transformar. Essa, para mim, é a forma mais sã de exercer a democracia. O voto de quando em quando, após 50 anos de obscurantismo, é uma coisa para especialistas em demagogia. Até porque os deputados não estão na Assembleia para resolver os problemas mais imediatos do povo, mas para cumprir desideratos políticos.» Em 1985 Sai o álbum Galinhas do Mato. Já muito doente, apoia a campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo em 1986. Em 1987, às três da madrugada de 23 de Fevereiro, no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, José Afonso morre, vítima da esclerose lateral amiotrófica diagnosticada cinco anos antes. No funeral, realizado no dia seguinte, um longo cortejo de 30 mil pessoas, trabalhadores na sua maioria, segue-o até ao cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal. Após a sua morte, o seu nome é dado a numerosas artérias por cidades, vilas e aldeias do País. Em Novembro, é criada a Associação José Afonso, que desde então promove sessões e iniciativas de divulgação da obra do grande músico, cantor e poeta. No ano de 1994, o Presidente da República, Mário Soares, procura condecorar postumamente José Afonso com a Ordem da Liberdade. Tal como Zeca fizera a igual proposta de Ramalho Eanes, sua esposa Zélia recusa a condecoração. Em 23 de Fevereiro de 1997, é inaugurado na Baixa da Banheira um monumento a José Afonso, da autoria do escultor Lagoa Henriques. Em Grândola, nas comemorações do 25º aniversário da Revolução, em 1999, foi também construído um monumento em sua homenagem da autoria do escultor António Trindade. Também nos anos 90, um outro monumento, este da autoria de Francisco Simões, foi edificado no Parque Central da cidade da Amadora. Este município instituiu um Prémio José Afonso da Música Popular, atribuído anualmente. «Não me arrependo de nada do que fiz», escreve José Afonso, acrescentando «Mais, sou aquilo que fiz. Embora com reservas, acreditava suficientemente no que estava fazendo, e isso é que fica. Quando a gente pára, há uma espécie de pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, às vezes, o inimigo é nós mesmos, a nossa própria consciência e as desculpas de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta».

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