SINAIS DE FOGO – CORNUCÓPIA SINGULAR – por Soares Novais

sinais de fogo

 

O Teatro da Cornucópia despediu-se com poesia de Apollinaire. E apresentou o segundo volume do livro “Teatro da Cornucópia – Espectáculos de 2002 a 2016.” Foram os seus dois últimos actos.

Ao longo dos seus 43 anos de vida, a actividade da companhia dirigida por Luís Miguel Cintra e Cristina Reis foi abundante e fértil: produziu 126 criações, três estreias mundiais, 25 textos dramáticos portugueses. Formou dezenas de actores. Questionou e inquietou.

António José da Silva, Camões, Almeida Garrett, Gil Vicente, Fiama Hasse Pais Brandão, Shakespeare, Tchekov, Moliére, Genet, Pasolini, Strindberg, Holderlin, Brecht, Lorca,  Moliére, Dario Fo, Brecht, Karl Valentin, e Maximo Gorki foram alguns dos autores levados à cena por esta companhia singular.

Ontem, a Cornucópia despediu-se do seu público e de muitos seus amigos. Tão drástica decisão, disse Luís Miguel Cintra, não foi tomada “de repente”. Surgiu, isso sim, como consequência dos sucessivos cortes nos subsídios que “já eram insuficientes” para assegurar o funcionamento da companhia.

Agora, o Ministério da Cultura, com cinismo q.b., “lamenta o encerramento de uma das estruturas mais importantes da História do Teatro português” e mostra “disponibilidade em colaborar” para que aconteça “da melhor forma”.

O cinismo ministerial esconde um problema bem mais grave: os concursos plurianuais que atribuem subsídios a várias companhias terminam na fórmula até agora conhecida e a partir de 2017 há novas regras de financiamento.

Regras de financiamento a que a Cornucópia não se quis sujeitar, pois di-lo em comunicado: “… ao longo destes anos fizemos muito e menos mal, mas também julgamos já ter idade para ousar dizer que não sabemos nem queremos adaptar-nos a modelos de gestão a que dificilmente nos habituaríamos a cumprir. Isso faríamos mal.”

O Teatro da Cornucópia nasceu para questionar e inquietar. E isso testemunhei sempre que fui da “João XXI” até ao Bairro Alto para assistir às criações daquela companhia singular. Tão singular que, perante as novas regras da tutela, escolheu a morte a tornar-se símbolo de comércio.

A tempo: Marcelo Rebelo de Sousa apresentou-se no Teatro da Cornucópia e pôs o ministro da Cultura a falar com Cintra. O presidente sugeriu um regime de excepção, que viabilize a continuidade da companhia. Ministro e encenador vão continuar a falar e há já uma petição com o objectivo de impedir mais este crime de lesa cultura. Lutemos, pois. E façamos votos para que o ministro Luís Filipe Castro Mendes seja capaz de contrariar a denúncia feita pelo poeta Luís Filipe Castro Mendes em “A misericórdia dos mercados”: “Nós vivemos da misericórdia dos mercados./Não fazemos falta./O capital regula-se a si próprio e as leis/são meras consequências lógicas dessa regulação,/tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus./Enganam-se./Os mercados são simultaneamente o criador e a própria criação./ Nós é que não fazemos falta.”

 

1 Comment

  1. Leio no ‘Público’ de hoje em título ‘Tudo está mal quando acaba mal: a Cornucópia vai mesmo encerrar.’ e em subtítulo ‘Posta de lado pelo ministro da Cultura a hipótese de criar um estatuto de excepção, a companhia reitera que se dissolverá ‘nos próximos dias’ – e que já não era dessa luta que se tratava’.
    Fazer pensar é crime? Talvez, para certas mentalidades.

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