CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – SENHORIOS DE TODO O MUNDO… UNI-VOS!

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Não gosto nada (mesmo nada) de senhorios.

Salvo naturalmente daqueles poucos pobres diabos deles, que herdaram habitações com rendas de 20, 30 ou pouco mais euros, com as quais nem a limpeza dos prédios conseguem exercer, quanto mais as necessárias reformas estruturais dos mesmos. Não gosto nem desgosto, são-me indiferentes, embora discretamente os lamente.

Lamento e tenho (e sobretudo) pena de quem esses degradados apartamentos habita, sem condições mínimas de conforto e salubridade. Uma percentagem bem razoável de gente, ao que sei ou suspeito. Aliás, basta andar pela cidade.

Não gosto  –  realmente nada  –  de senhorios. De acordo com as minhas ideias e teses políticas, de acordo (até) com a nossa Constituição (um manancial de boas intenções, como todos sabemos) que acha que todos têm direito a uma habitação condigna.

Eu também acho. Nunca li a Constituição, como de resto a maior parte de quem me lê, neste momento, mas nem dela precisaria para aceder, de um ponto de vista cívico, ético e político, às mesmas conclusões.

Dito isto e perante um fenómeno actual, que consiste em os detentores de apartamentos alugáveis terem descoberto a pólvora, ou seja –  dado o actual e exponencial aumento de turistas em Portugal, muito particularmente nas suas cidades da moda, Lisboa e Porto – “perceberem” o tacho, o enorme tacho que seria (que será, que é, que está a ser) alugá-los a nutridos e bem providos turistas do primeiro mundo, pondo abjectamente os seus apartamentos à disposição por preços naturalmente imódicos para indígenas e ainda por espaços de tempo limitados e renováveis, num esfregar de mãos guloso e afrodisíaco (afrodisíaco, disse? Pornográfico, perdão, queria eu dizer) perante o gozo monetário que isso lhes daria (dará, está a dar) sem terem que se esforçar, mexer uma palha, labutarem o que quer que seja.

Aliás é isso que me irrita (e ofende e revolta) nos senhorios. E também –  e já agora – nas leis que desde sempre os protegeram, a esses ilustres proprietários, a essa generosa cambada. Que sem bulirem um corno, sem trabalharem ao mês por uma qualquer maior ou menor valia, se limitam a assinar recibos para poderem ganhar pró tabaco e prós fósforos.

Devem estar fecundadíssimos comigo, os que de entre vós, eventualmente tenham apartamentos livres, alugados ou por alugar. Mas eu estou-me cagando. Tenho (tive) amigos, gente de Esquerda, aparentemente como eu (até familiares) que além de rendas ásperas e violentas para embaixadores de países ricos e quejandos, por exemplo – cujas usufruem ou por tal o fazem – se esforçaram sempre o mais possível para pôr a andar os locatários que deles dependiam. Despejar, é a gíria utilizada.

É por isso que quando os vejo, quais galináceos assustados e bem vestidos, aqui del-rei (já não há rei, seus saprófitas) na televisão, preocupeidíssimos e aos gritos com as possíveis e mais honestas e actuais leis sobre o arrendamento – me dá vontade de os enviar para longínquos e mal cheirosos locais, de lhes propor passar umas férias em bairros sociais e degradados da nossa periferia.

Talvez percebessem?

Não, não perceberiam.

carlos

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