Veneza, tarde de segunda-feira, 30 de Setembro de 1487.
Na tarde do princípio de Outono, temperado pela brisa que soprava do mar, o calor que se fizera sentir ia a abrandando à medida que o dia se encaminhava para o fim. Em andanças pela cidade, fazendo horas para visitar o livreiro, Lourenço percorria as ruas ao longo dos canais, atravessando pontes, entrando em igrejas. Esteve mais tempo na basílica de São Marcos, gozando dentro do templo, além da visão de magníficas esculturas e retábulos, a repousante frescura. Durante estas deambulações, cruzou-se por mais de uma vez com a jovem que vira sair do palácio Torriani. Acompanhada pelas criadas, a deusa fazia compras pelas tendas do centro, tal como ele. Quando os caminhos de ambos se cruzaram pela terceira vez, agora no mercado ambulante em frente da basílica, a jovem olhou-o e esboçou um sorriso, como se fossem conhecidos.
Atreveu-se a abordar uma das criadas que ficara para trás a pagar uma conta a um tendeiro. A rapariga era uma robusta camponesa, com a pele crestada pelo sol. Lourenço ouvira o tendeiro chamar-lhe Giuliana. Na altura em que a moça se encaminhava para junto da ama, abordou-a, e tratando-a pelo nome, perguntou-lhe quem era a sua senhora, aquela jovem tão bela. Surpreendida, pois logo percebeu pela maneira de falar que aquele rapaz, de ar garboso, era um estrangeiro, Giuliana, que compreendera o essencial da pergunta, respondeu, por algumas palavras e muitos gestos, pois não conhecia nenhum dos idiomas que Lourenço dominava, que estava proibida pelo patrão de falar com estranhos sobretudo sobre a menina Elisabetta. A rapariga exprimia-se no dialecto do Véneto. Porém, na explicação que deu, aliando gestos a palavras, fez-se entender. O rapaz sorriu, pois tivera já um ganho: pudera, com uma simples pergunta, conhecer o nome da filha do mercador. Note-se que, durante a descrição que fazia destes factos, meu pai baixava a voz, não conseguindo no entanto que a crónica escapasse à atenção rapace de minha mãe que embora estivesse a costurar ou a bordar, não perdia uma palavra do que ele dizia. O pequeno José estava também atento. Não posso, por esta circunstância, garantir que, no que toca a Elisabetta, a aventura se tivesse resumido à troca de olhares e à conversa que veio depois a ter lugar entre ambos.
Para soltar a língua de Giuliana, usou um sistema antigo, mas sempre eficaz: passou-lhe para as mãos uma das moedas de ouro que nessa manhã recebera, um reluzente ducado. A ama e a outra criada tinham parado junto de outra tenda umas braças adiante, mas pôde observar que Elisabetta, olhando de soslaio, seguia as suas diligências junto da serva, adivinhando, ou julgando adivinhar, os seus propósitos. Giuliana reparara também no sorriso da patroa, sentindo-se encorajada a não interromper a conversa e foi respondendo às perguntas do bem-parecido estrangeiro A jovem era a filha única de um rico mercador da cidade, Messer Piero Torriani. Tinha instruções, ela e as outras criadas com que Elisabetta saía, para não deixar alguém aproximar-se. E de lhe falar muito menos. Se tal acontecesse deviam gritar pelos alabardeiros do doge que logo deteriam o intruso. No essencial, confirmava-se a informação colhida pelo livreiro – não era bom para a saúde tentar penetrar sem autorização no círculo fechado, inexpugnável como um castelo fortificado, da poderosa família Torriani.
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Aproximando-se o fim do dia, foi cear à estalagem em que se instalara desde essa manhã. Era uma casa mais limpa, mais bem arranjada e, menos exposta a curiosidades suspeitas. E bem melhor frequentada do que a anterior hospedaria aconselhada pela sovinice do capitão. Os clientes eram, na sua maioria, mercadores estrangeiros – ferraros, romanos, genoveses, florentinos, paduanos, mas também franceses, flamengos, germanos, aragoneses, catalães… gente que visitava a República em viagens de negócios, na sua maior parte. Porém, além de opulentos mercadores, via-se respeitável gente de outras áreas, tais como físicos, professores e até mesmo nobres e pessoas da Igreja, o que era elucidativo sobre a respeitabilidade, qualidade e asseio da pequena estalagem. Nas mesas, havia grupos e as conversas decorriam em voz baixa, permitindo que se escutasse o ruído das colheres batendo levemente nas malgas de sopa. Gestos suaves acompanhavam as conversas de mercadores, professores ou prelados. Não se ouviam as gargalhadas de soldadeiras ou mancebas, nem o grasnar obsceno e os arrotos de marinheiros ébrios. A frescura dos produtos, o cuidado posto na confecção das comidas, bem como o trato dos criados eram de uma excelência incomparável. Tudo era melhor. E mais seguro, pois a porta do seu quarto tinha uma sólida fechadura metálica e não uma tosca tranqueta de madeira. Foi-lhe dada uma chave, tendo-lhe sido garantido que só havia outra igual, destinada ao pessoal da limpeza. Como sempre acontece nestas coisas, o preço era mais elevado, mas, financiado pelo livreiro, dispunha agora de meios para não ser obrigado a poupar tanto. Por outro lado, teria de executar as suas obrigações em menos de três dias – Não necessitava de fazer durar o dinheiro. Como se dizia que faziam os guerreiros gauleses quando partiam para as expedições militares, incendiando todas as pontes na avançada contra o inimigo para não ficar com possibilidades de recuar. Se gastasse demasiado tempo a cumprir a missão, além de ficar abandonado numa cidade estranha e à mercê de inimigos, ficaria também sem dinheiro – tal comos gauleses, ou vencia ou morria, a possibilidade de retirar estava-lhe vedada.
A nova hospedaria ficava situada, tal como a primeira, cerca da Praça de São Marcos, mais precisamente na longa, estreita e tortuosa Calle Merceria, junto à da Igreja de San Salvatore. Esta rua era uma das vias mais movimentadas e com mais tendas de comércio da cidade. Terminada a refeição e ainda com restos de luz solar a iluminar o céu, dirigiu-se à loja do livreiro, conforme combinara com este durante a visita dessa manhã. A judiaria ficava distante, quase no extremo Norte da cidade. Por isso, caminhou em passo apressado e sem hesitações, pois agora já conhecia bem o percurso mais curto. Não poderia demorar-se muito na entrevista com Navarro, pois ao começo da noite as portas seriam cerradas pelos alabardeiros e ninguém poderia entrar ou sair. Se se atrasasse, teria de recorrer à hospitalidade do hebreu, o que lhe parecia inconveniente. Saul dissera-lhe que o encontro seria breve, pois consistiria em lhe fornecer informação precisa sobre o local, o dia e a hora em que iria decorrer o encontro entre Torriani e os castelhanos.