A CRISE DA FINANÇA – O CASO ITALIANO – 16. EIS COMO FUNCIONAVA A SALA SECRETA DO MPS – MOVIMENTAVAM-SE 100 MILHÕES POR DIA, de GIANFRANCESCO TURANO

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

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Eis como funcionava a sala secreta do MPS – Movimentavam-se 100 milhões por dia

Fala uma testemunha da investigação sobre a falência do banco de Siena. Ele disse que na sede em Milão, havia uma central que executava as ordens vindas da Administração. Sem crachás nem registos. Ideal para operações arriscadas.

 

De GIANFRANCESCO TURANO, ‘Ecco come funzionava la stanza segreta di Mps. Giravano 100 milioni al giorno’

L’Espresso, 11 de Abril de 2014

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Eram os rapazes da via Rosellini. Uma quinzena de trintões e quarentões brilhantes, alguns com sobrenome de peso, todos com experiência ganha nos principais institutos de crédito italianos e internacionais. Entre 2009 e 2011, os rapazes da via Rosellini geriram dezenas de milhões de euros, em que se movimentavam até 100 milhões por dia na sala de operações do Banco MPS em Milão, um edifício de vidro e cimento, cercado por uma sebe e um par de árvores na zona viale Zara, longe do centro nevrálgico da cidade.

O chefe da sala operacional era Gianluca Sanna, responsável do serviço de finança proprietário. Mas acima de Sanna estava o verdadeiro estratega, Gianluca Baldassarri, diretor financeiro do MPS às ordens diretas do topo da administração de Siena, o presidente Giuseppe Mussari e o Diretor Geral Antonio Vigni.

Quem aqui trabalhou descreve Baldassarri, o único entre as onze pessoas inquiridas por aldrabarem as contas de MPS a ser levado à prisão, como quanto há de mais longe do tubarão da finança ao estilo Gordon Gekko: “Pacato. Muito competente. Sabia de trading, contabilidade, legislação, impostos, relações com os sindicatos. O melhor que havia no banco. Mas executava ordens a partir de cima e a sala de operações estava concebida para executar estas ordens. Não havia telefonemas registados, não havia códigos para entrar e podia-se levar para dentro da sala o telemóvel pessoal. Negligência ou fraude? Seguramente eram as condições ideais para dispersar os vestígios”. A falar está um dos rapazes da via Rosellini. Chamemos-lhe “o Banker”. Pede para continuar anónimo porque não é inquirido no inquérito do procurador de Siena contra a chamada “banda dos 5%”, mas já foi ouvido como testemunha dos “perdigueiros” do núcleo de polícia monetária da Guarda de finanças, dirigido pelo general Giuseppe Bottillo e tendo como seu adjunto operacional, o coronel Pietro Bianchi.

Os financeiros que trabalham para os magistrados Aldo Natalini, Antonio Nastasi e Giuseppe Grosso, sabem que a partida entre policías e ladrões nunca foi tão desigual como com a banca. A investigação pretende determinar se os altos dirigentes do MPS, Mussari e Vigni, teriam em primeira mão ordenado a Gianluca Baldassarri para utilizar a sala de operações e os instrumentos financeiros mais sofisticados para poderem embelezar o balanço do MPS. Em segundo lugar, deve ser provado que Baldassarri juntou ao dever para com os seus superiores, o prazer de se atribuir algumas vantagens e proveitos para além dos bônus, já muito substanciais, que os grandes bancos reconhecem aos seus altos executivos. A Polícia Financeira bloqueou uma série de contas no estrangeiro afetas à banda dos 5% num valor que, de momento, é um pouco mais de 50 milhões num total de 90 milhões desviados dos cofres do Banco MPS.

Mas a arma ainda não foi encontrada. Como não foi ainda determinado, ao contrário do que dizem algumas reconstruções jornalísticas, quem foi o autor anónimo da carta enviada anteriormente à Consob e depois à redação de “Report ” a denunciar os imbróglios do trading no banco MPS. “É um da via Rosellini,” diz a fonte Banker ao “L’Espresso”. “Eu concordo com o argumento de que Baldassari não agiu numa base puramente individual, pessoal. Provavelmente mantinha algo apenas para si próprio, mas não será fácil provar que os 20 milhões de euros dos seus depósitos sejam o resultado de lucros excessivos feitos à margem da operação Alexandria. Poderão ser prémios de desempenho. Na sala de mercados havia rumores que a contraparte de Alexandria no banco Nomura, Raffaele Ricci, tinha ganho um bônus global de 20 milhões entre 2009 e 2010. Quando uma operação incide sobre tanto dinheiro, os bônus são proporcionais. Em Monte Paschi, portanto, havia uma pratica win-win, de que há sempre ganhos para todos que pode ser enunciado da seguinte maneira: ganha-se e encaixa-se sempre, mesmo quando a operação é um desastre”.

Como é o caso de Alexandria. Este produto foi criado em novembro de 2005 entre o comprador MPS, representado por Gianluca Baldassarri, chegado ao MPS quatro anos antes e o vendedor Dresdner Bank, representado por Raffaele Ricci, diretor de vendas do Dresdner.

Alexandria é um CDO (Obrigação de dívida colateralizada) ao quadrado por 400 milhões de euros. Revelar-se-á um eixo tóxico de manual: quilómetros de fórmulas matemáticas decifráveis apenas por uma dúzia de superespecialistas. mas certamente não das estruturas do MPS, onde ninguém durante muitos anos estará em condições de perceber a determinação dos preços dos produtos estruturados mais complexos.

Alexandria e outros ativos semelhantes (Nota Itália, alguns Clo, Anthracite) minam em silêncio as contas do banco Mps, antes mesmo do grave prejuízo havido com a aquisição da Antonveneta, anunciada em novembro de 2007 e concluída em maio de 2008, com aproximadamente 10 mil milhões de investimentos. O valor é muito alto e a escolha do momento para a anunciar é o pior possível: estamos na véspera da grande crise de crédito internacional que culminou então com a falência do Lehman Brothers (setembro de 2008).

Mussari e Vigni querem dar um sinal que tranquilize os mercados e visam um robusto benefício para pagar dividendos e o cupão do empréstimo “fresh” de mil milhões para comprar Antonveneta. Para o conseguirem confiam-se à finança proprietária (finança altamente especulativa), ou seja, à sala da via Rosellini, onde Baldassarri, que faz a ligação entre Siena e Milão, Sanna, Gianni Contena, Giovanni Fulci e outros líderes hoje implicados do inquérito interno da nova gestão do banco Mps, se meteram ao trabalho.

O ano de 2008 encerrou com 953 milhões de lucros líquidos. Mas este valor é falso, obtido através do encobrimento das perdas de Alexandria & companhia. Nos primeiros meses de 2009 muda o ritmo. O banco reforça o poder da sala de mercados da via Rosellini e sobretudo a área dos títulos governamentais. A estratégia é simples. Num momento em que todos, pequenos aforradores à cabeça, vendem títulos da dívida Btp por medo de incumprimento da Itália, o banco MPS é financiado a longo prazo pelo BCE à taxa de um por cento e compra títulos da dívida pública italiana que rendem 6 %. Se a Itália entrar em incumprimento, o Monte Paschi entrará em falência um pouco antes. E de qualquer maneira, se assim for, estará vasta companhia. Caso contrário, ganhará. Mas é um trabalho duro.

«Aqueles que o fazem», continua a fonte Banker, «começam às oito da manhã com o briefing. Depois de abertura às nove, deve prestar atenção a cada sinal nos monitores, acompanhar três monitores de televisão e duas rádios. Cada notícia pode ser importante para comprar a um centavo a menos ou vender a um mais, porque então deve vender e imediatamente para evitar a concorrência». Aqui entram em jogo os corretores que existem precisamente para garantir o anonimato e evitar que um banco saiba o que está a fazer o outro. A anomalia está na utilização frequente de um pequeno intermediário sediado em Londres (Enigma) fundado por Maurizio Fabris e por outros italianos agora inquiridos em Siena.

Num curto espaço de tempo, o Mps acumulou 32 mil milhões de títulos do governo, quase tanto como Unicredit e um pouco menos que Intesa e estes dois são os dois maiores bancos italianos.

No pequeno círculo dos altos executivos entram forças frescas. Entre os novos, está Flavio Borghese. O seu avô foi o décimo segundo Príncipe de Sulmona e o nome do seu tio-avô era Junio Valerio, comandante da X flotilha MAS. Borghese que está agora também sob investigação interna do banco, é um superperito e muito rapidamente conhecido por preços muito altos numa série de transações sobre valores mobiliários estruturados.

«Para empregar uma comparação com as empresas industriais», prossegue Banker, «digamos que o Mps tinha uma loja sobreavaliada em várias centenas de milhões por vontade estratégica dos altos dirigentes do MPS. Não se aperceberam, e pela ordem indicada, presidentes da câmara municipal, revisores, Comissão da Bolsa de Valores, Consob, Bankitalia e agências de rating». Nem Borghese nem outros traders assinalaram as anomalias aos colegas milaneses, a Baldassarri, a Sanna e a Giovanni Conti, responsável da gestão de Risco em Siena. Não fizeram e não aconteceu nada por isso.

Nos primeiros dias de julho de 2009 compreende-se que encher a carteira de títulos com obrigações da dívida pública não é suficiente. É necessário libertarem-se do tumor, o derivado Alexandria. Mussari, Vigni e Baldassarri estabelecem com Nomura o “mandate agreement” com o qual, em suma, a sucursal de Londres do banco japonês assumirá o ativo tóxico em troca de 3.5 milhões de títulos da dívida pública italiana com vencimento em 2034 comprados pelo Mps a preços acima do mercado. As anomalias são na ordem de centena de milhares de euros desde as primeiras operações, são registadas e comunicadas aos responsáveis. As compras, como revelará o anónimo da carta, serão etiquetadas como “transação Baldassarri, sinónimo de salvo-conduto dentro do banco”.

É esta a fase em que, graças ao recurso massivo aos intermediários, os inquiridos teriam maximizado os lucros pessoais em prejuízo do banco e mantido este comportamento escondido face aos órgãos de controlo internos e à vigilância de Bankitalia. «É quase impossível provar que os corretores ganharam demasiado dinheiro sobre os títulos estruturados ilíquidos. Além disso, deve ser demonstrado que o corretor deu dinheiro ao gestor bancário relativamente a uma qualquer operação especifica. O todo, como se diz no início, na ausência de registos telefónicos comprometedores e sem estar a contar que todos os grandes bancos do mundo empregam este sistema para “trabalhar em negro”, para levarem a cabo operações não inscritas nos balanços».

Apesar de as contas do MPS de 2009 registarem uma redução substancial dos lucros de 220 milhões de euros, Mussari estava na crista da onda, tanto que foi homenageado pelo establishment de crédito com a cadeira de Presidente da Associação de bancos italianos em junho de 2010.

Na via Rosellini Baldassarri leva Raffaele Bertoni, ex-chefe dos títulos de rendimento fixo na Pioneer Investments em Dublin, e Marco Sarcinelli, filho de Mario, ex-Banco da Itália e antigo presidente de Banca nazionale del lavoro (Bnl). A banda dos 5% funciona quase sem qualquer perturbação até ao verão de 2011. No dia 28 de julho do mesmo ano, um dos rapazes de via Rosellini envia à Consob uma carta de quatro páginas não assinada “por razões de segurança pessoal” onde se acusam os chefes (Baldassarri e Vigni), o fiel assistente, os cúmplices e os executores. Em março de 2012, virá a inspeção do banco da Itália. Em fevereiro de 2013, será preso Baldassarri e bloquear-se-á a emissão de 4,07 mil milhões de título subscritos pelo Estado (os chamados títulos Monti) para tapar os buracos da má gestão.

Passará mais um ano, até fevereiro de 2014, quando as finanças investigaram em dezenas de gabinetes e de casas de gente ligada ao bando dos 5 por cento.

Entre estes, existem corretores suspeitos de terem transferido o dinheiro para o exterior através da sociedade financeira de São Marino, a SMI, do Conde Enrique Maria Pasquini e do banco United Investments de Vanuatu de Andrea Pavoncelli, cunhado de Pasquini e um dos mais importantes testemunhos de Siena. E uma via para romper o bloqueio é precisamente a seguinte: procurar testemunhas ou suspeitos, disponíveis para colaborar. Foi muito importante o testemunho de Itala Sinopoli, colaboradora do MPS Finance inquirida por burla agravada ao banco de Siena. No início de março Baldassarri recorreu à faculdade de não responder. Ele está a escrever um diário, fez ele saber. Os magistrados aguardam ansiosamente pelos rascunhos.

GIANFRANCESCO TURANO, Espresso, ‘Ecco come funzionava la stanza. Texto disponível em:

http://espresso.repubblica.it/affari/2014/04/10/news/dietro-il-crack-di-mps-spunta-la-centrale-segreta-1.160611

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