FRATERNIZAR – Educação sexual nas Escolas? PETIÇÃO PÚBLICA CONTRA, TEM O APOIO DOS BISPOS CATÓLICOS! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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Já não é sem tempo que as Escolas incluam, desde cedo e ao longo dos sucessivos anos de formação, a disciplina Educação Sexual. Não o fazer é crime de omissão. Esta educação há-de ser feita progressivamente, à medida que cada menina, cada menino cresce em idade, em estatura e em consciência de si e deste tipo de mundo, onde um dia aconteceu-nasceu e se prepara para politicamente nele intervir e, porventura, ajudar a transformar de dentro para fora em mais humano e em mais sororal-fraterno, vasos comunicantes. Uma missão de todo complicada, se não mesmo impossível, quando, à partida e durante todo o período do crescimento até à maturidade, falha a educação sexual de qualidade.

Um rápido olhar pelos grandes que estão hoje à frente dos destinos das nações e dos que os precederam nos milénios anteriores leva-nos depressa a concluir que houve graves e irreparáveis falhas nesta matéria, durante aqueles que foram os anos de formação da personalidade de cada um deles. Pode-se por isso dizer, Mostra-me como és na relação com os demais e com o Cosmos e eu digo-te como foste sexualmente educado, ou, pior ainda, como nem sequer o chegaste a ser. A sexualidade (bem ou mal) vivida dia a dia é a janela por onde cada uma, cada um de nós se dá a conhecer. E não há maneira de fecharmos esta janela. Somos de acordo com a nossa sexualidade. Se falha a educação sexual, é toda a personalidade de cada um dos seres humanos que falha. Postos, mais tarde, à frente de cargos de responsabilidade que tenham a ver com o viver de terceiros, são contínuos e irreparáveis desastres. Infelizmente, desastres destes é o que mais tem abundado ao longo da história da humanidade e de todas as nações-instituições. Com vítimas aos milhares, milhões.

Em boa hora, pois, a Educação sexual quer entrar e vai entrar a sério nas Escolas portuguesas. Os bispos católicos em Portugal não gostam deste passo de qualidade em frente? Problema deles. Mas também de todas, todos nós, quando eles saem a terreiro manifestar-se contra a introdução da Educação Sexual nas Escolas. Como se ainda vivêssemos nos sinistros tempos da Cristandade e não num Estado laico. Infelizmente, não tão laico como devia, por força da Concordata que, estupidamente, continua aí em vigor. É óbvio que os bispos não se atrevem a vir a público dizer que são contra. Mas sem quererem, acabam por fazer pior. Vejam só. Apoiam uma obscena Petição Pública que circula por aí, da iniciativa de certas famílias católicas-bem-e-de-sangue-azul, ligadas às Opus Dei, às Comunhão e Libertação, aos Focolaris, às Comunidades Canção Nova, às Universidades Católicas e similares, tudo o que há de politicamente mais elitista reaccionário, pretensamente erudito e eticamente imoral, mascarado de caridadezinha, Bancos Alimentares Contra a Fome, Comunidades Vida e Paz em prol dos homens da rua e quejandos. Com o mafioso padrinho Presidente Marcelo, uma espécie de papa Francisco laico em Portugal, a dar cobertura a tudo.

“Aborto como educação sexual em Portugal? Diga NÃO!”. É este o título da Petição Pública. Querem pior? Na sua sanha contra a Educação Sexual nas Escolas e em todo lado, estas elites do dinheiro e dos negócios sujos e chorudos, nem vêem que estão a reduzir a Educação Sexual à prática do aborto que, por sinal, as suas filhas e mulheres, sempre que necessário, não hesitam em ir realizar nalguma das muitas clínicas privadas no estrangeiro, mas que, entretanto, não suportam que essa prática seja legalmente despenalizada e até clinicamente apoiada no país, de modo que também as mulheres da base da pirâmide possam recorrer à interrupção voluntária da gravidez, sempre que a sua consciência, dramaticamente, embora, a isso as leve.

Acontece, porém, que o projecto, Educação Sexual nas Escolas, em discussão pública por estes dias no país, do que fala, e quase só no final das suas 79 páginas, é da distinção entre “interrupção voluntária e involuntária da gravidez”. Um assunto previsto para começar a ser abordado no 2º ciclo, por isso, com crianças a partir dos 10 anos de idade. E não se diga que é uma tonteria abordar esta realidade com crianças a partir dessa idade. As crianças hoje não são mais as crianças de há 50, 39, 20 anos. São crianças já nascidas no início da segunda década do século XXI. Saudavelmente reguilas, q.b. Capazes de dar lições às suas mães, aos seus pais sobre este assunto. E com a delicadeza que ele merece. Só a ignorância é má conselheira. E estúpida. As elites querem as maiorias ignorantes e estúpidas. Mas felizmente isso já foi chão que deu uvas. Não dá mais. São precisos, por isso, novos pais, novos profs, novas escolas, novas instituições, novos media. Cada nova geração que chega a este mundo tem direito a que tudo comece de novo. Passou o tempo do mais do mesmo. Hoje, o Vento ou Sopro/Ruah (de Jesus) exige novas instituições, novas estruturas, novos fundamentos para as nações. Ou todas elas desaparecerão.

No que à Educação da sexualidade diz respeito, é bem melhor começar cedo demais, do que tarde demais.Os bispos das igrejas estão completamente desfasados da realidade. Metidos nos seus paços episcopais, com tudo de museu, são eles próprios figuras de museu que ainda mexem, mas que não sabem o que dizem nem o que fazem. Apenas mexem e não para algo que valha a pena, algo que seja determinante na vida das populações. Fora do altar da catedral ou do altar da igreja paroquial aonde vão administrar o Crisma a adolescentes à beira de virarem definitivamente as costas a tudo o que demencialmente lá se continua a fazer a troco de dinheiro, não sabem mais o que dizer, muito menos o que fazer. Ficam sempre sem jeito. E em assuntos de sexualidade, não são sequer capazes de falar sem corar de vergonha.

Recordo, a este propósito, a minha própria experiência pessoal. O seminário tridentino da diocese foi capaz de me ter e aos meus companheiros, durante 12 anos, como interno, por isso, longe dos pais, dos vizinhos de infância, das raparigas e dos rapazes não seminaristas, sem nunca nos chegar a falar de sexualidade, muito menos, nos ministrar a mais elementar educação sexual. Era tabú, uma realidade não-existente. Valeu-me a biblioteca do meu tio cónego, irmão de minha mãe, que eu, depressa, passei a frequentar nas férias, sobretudo, as férias grandes. Passava lá horas e horas sozinho. Foi lá que encontrei livros que me esclareceram sobre as transformações que estavam a acontecer no meu próprio corpo a crescer e a transformar-se. Dos padres do seminário, nem uma só palavra sobre o assunto. Do padre confessor, só mesmo a doentia obsessão pela “pureza” que ele comparava a uma “camélia branca”. E nem sequer a camélia branca nos era dada a ver.

Valeram-me também, já depois de ordenado presbítero, os jovens operários da paróquia das Antas, onde fui um saudável “rebelde” coadjutor do pároco. E mais ainda os jovens dos liceus do Porto, dos quais fui professor de “Religião e Moral”, então obrigatória. Foram eles os meus mestres, assim como a vida real do dia a dia das populações, das quais nunca me separei, porque nunca fui capaz de me ver no estatuto de “clérigo” com privilégios. Mesmo quando o ofício e o benefício canónicos me queriam clérigo, sempre me mantive presbítero, ligado preferencialmente às pessoas e aos seus quotidianos de dificuldades, em contraste com os quotidianos de abundância dos que então frequentavam a missa do meio-dia aos domingos. Só por isso, quando, mais tarde, me vi liberto do ofício e do benefício canónicos e pude fazer-me presbítero-jornalista no mundo, é que passei a ser mais eu próprio e a comer o pão de cada dia, fruto do meu trabalho profissional, não mais fruto de um benefício canónico, sempre castrador do ser humano e fabricador de eunucos à força. Que outro objectivo não tem, de resto, o Código de Direito Canónico, diametralmente oposto a Jesus Nazaré e ao seu Evangelho libertador.

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1 Comment

  1. Agradeço Mário Oliveira, as sábias palavras que escreveu. Só mais duas ou três coisas:
    – essas e esses santanários da hipocrisia e do deus dinheiro deviam envergonhar-se de sair à rua com semelhante petição! Esperemos que o Estado laico-católico em que vivemos faça letra morta dessa coisinha estúpida, vinda de gente estúpida que nem os documentos lê, ou se lê, não sabe ou não quer interpretar, porque para essa gentalha é melhor ter um povo inculto, amedrontado e trabalhador. Um povo eternamente pobre e eternamente pedinte porque caso contrário as donas tias ricas não podem alardear os seus atos de bondade para com os pobrezinhos.
    – quanto aos bispos, primeiro que constituam família e depois sim, poderão opinar. Caso contrário esses senhores que se vestem de senhoras medievais não têm nada que meter o bedelho em assuntos que não lhes dizem respeito. Que vão rezar missas, defumar-se com incenso e borrifar-se H2O bento.
    – e o raio da malfada Concordata que só serve os interesses dessa decrépita igreja, que não há meio de ser revogada! Até a Geringonça tem medo de lhe tocar!!!
    Não percebo porquê…

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