Veneza, tarde de terça-feira, 1 de Outubro de 1487.
Regressado a Veneza antes do meio-dia, depois de pagar a viagem ofereceu ao barqueiro um generoso canjirão de vinho, Estavam numa taverna do molhe e, quando o homem, entre mil agradecimentos, se despediu pôde certificar-se, perguntando ao taberneiro, de que a nau castelhana San Miguel, chegaria à República, vinda de Sevilha. Segundo se previa, arribaria ao molhe dos navios estrangeiros nesse próprio dia ao entardecer. Poderia, no entanto, chegar umas horas antes ou até só no dia seguinte. Nunca se sabia, «pois o mar é caprichoso», disse o homem sentenciosamente. Lourenço sabia-o demasiado bem. Fizera depois, com ar casual, igual pergunta na estalagem quando ali foi comer o seu jantar. O jovem criado que, nessa manhã, lhe dera a informação sobre o mosteiro de San Michele, confirmou que assim era, segundo estava previsto, a nau castelhana San Miguel arribaria nesse fim de tarde. O jovem lembrou-se da pergunta que o cliente estrangeiro lhe fizera de manhã:
– Esta é que deve ser a tal San Michele – exclamou o moço que, apesar de tímido, tinha o rosto de camponês iluminado pela revelação da sua própria argúcia.
Com ar indiferente, respondeu com um gesto displicente, como se a questão não tivesse importância. Todavia, concluiu para si que, mesmo sem de tal se dar conta, o rapaz o ajudara, pois lhe falara no mosteiro onde, não encontrando o mapa, obtivera, no entanto, a informação sobre a nau, informação que, sendo a única que merecia a pena explorar, se tornara em coisa valiosa. Aquela deveria ser mesmo a nau de que Saul lhe falara na véspera, embora sem mencionar o nome – que só deve ter sabido depois pelo seu assassino – e que o irmão Giovanni lhe referira também e cuja chegada o rapaz, ajudando-o pela segunda vez, confirmara. Nela, quase que seguramente, chegariam os emissários castelhanos que vinham comprar o mapa ao mercador. Agarrava-se à ideia como corajosa lapa a rochedo batido pelas vagas.
Perdida a ajuda do livreiro, cordão umbilical que o ligava à subterrânea trama em que estava envolvido, teria agora de ser ele, em luta contra o tempo e contra as adversidades, a descobrir tudo sozinho e a tentar por todos os meios recuperar – a tempo de chegar à carraca até quarta-feira à meia-noite – a cópia do mapa. Depois de ter comido e restaurado as suas energias, dirigiu-se sem mais tardança à casa do comerciante cuja localização e reconhecimento fizera na véspera. Era, de momento, no seu labirinto de inquietações e de dúvidas, a única pista válida que lhe restava. Essa e a confirmação do nome da nau castelhana, sobrando-lhe como alternativa mais afastada a do mosteiro de San Michelle in isola, cuja visita não fizera em vão, pois ali começara a desenlear a meada do seu labirinto de interrogações, recebendo do beneditino a sugestão sobre a nau. Porém, em nenhuma destas ideias existia uma pista segura. A resposta não estava no mosteiro e podia também não estar na nau. Tanto uma coisa como outra não passavam de conjecturas, tão sólidas como um castelo de cartas. Mas era tudo o que possuía. Diz o povo que o pobre quando acha um ovo, este é goro. Esperava que este ovo que, graças ao irmão Giovanni, encontrara, fosse fértil. Esta era uma candeia acesa na escura caverna das suas dúvidas. Esperava, embora não soubesse ainda como nem quando, mas logo se veria, obter mais informações úteis. Agora que, com o livreiro morto, não tinha fontes de informação ao seu dispor, teria de ser ele a resolver os problemas todos. Sem portulano ou bússola que o guiassem, tinha de navegar à vista, aproveitando ventos de feição, fugindo a tormentas, negociando com as marés, medindo as braças até aos fundos, evitando escolhos e arrecifes. Estava nas mãos do destino. Para já e à medida que pensava no assunto, a hipótese da nau castelhana parecia-lhe fazer cada vez mais sentido. Como se sabe, a um náufrago, até uma palha dá esperança.
Quando chegou junto da casa Torriani, deu, como fizera na véspera, uma demorada volta ao perímetro terrestre do palacete que começava junto de um dos limites do ancoradouro e terminava no outro lado dessa plataforma de madeira. Pôde observar que a casa estava cuidadosamente protegida por altos muros de pedra e por sebes de verdura, sem falar nos invisíveis, sicários, mastins e criados. Caminhava, parando de vez em quando, como quem aproveita o ar fresco da manhã para dar um salutar passeio. Confirmou também a sua anterior impressão: tratava-se de uma casa muito grande, um belo solar de gente abastada, como muitos outros que havia na cidade, pertencentes à aristocracia mercantil que dominava a República. Congeminava sobre a melhor maneira de entrar na propriedade cujas defesas, à primeira vista, pareciam ser quase inexpugnáveis. Não havia guardas à vista, mas devia havê-los no interior. Ouvia cães ladrando furiosamente – talvez tivessem farejado a presença de um estranho nas imediações. Estava agora, meditando sobre a melhor maneira de penetrar as robustas defesas daquele fortim dissimulado sob a aparência de uma inocente residência, e, no seu interior, encetar as suas diligências. Encontrava-se, depois de percorrido todo o perímetro de uma ponta à outra junto do alto muro das traseiras que marginava um jardim ou talvez um pequeno pomar, pois vislumbrava da estreita ruela, acima do topo da muralha, a copa de algumas árvores de fruto. Pela porta da frente era melhor nem pensar, deveria estar bem guardada. O portão de madeira das traseiras também era melhor evitá-lo. Pensava que talvez uma escada encostada ao muro lhe permitisse saltar para o interior. Poderia levar pedaços de carne crua para distrair os cães e, com o seu punhal, iria silenciando os guardas que se lhe fossem atravessando no caminho… Com a carne crua e com o punhal não haveria problema. Todavia, como e onde arranjar e, sobretudo, como transportar até ali, atravessando a cidade, sem dar nas vistas, uma escada de madeira, com cerca de cinco braças de altura? Antes disso teria, primeiro que tudo, de saber quando iria ter lugar a reunião entre Torriani e os castelhanos, pois só fazia sentido tentar penetrar na casa quando estivesse certo de que eles ali estavam, bem como a cópia do mapa.
Quando tinha a mente imersa neste esforço estratégico de tão improvável sucesso, abriu-se no muro a mesma estreita e sólida cancela de madeira por onde, no dia anterior, Elisabetta e as duas criadas tinham saído. Sobraçando um cesto de compras, saiu uma rapariga com ar rústico, exibindo uma imaculada coifa branca. Nela reconheceu uma das criadas da jovem, Giuliana, aquela que na véspera gratificara de forma generosa e lhe prestara algumas informações. Afinal, essas informações eram algumas das poucas migalhas de luz de que dispunha no meio da grande escuridão em que se encontrava. A criada conheceu-o logo também e atribuiu a presença do rapaz ao grande interesse amoroso pela patroa. Fez um ar amedrontado. Quando Lourenço se aproximou, disse-lhe em voz perturbada que não as devia ter seguido na véspera. Que fizera muito mal, pois andar por ali era perigoso para ele, para a menina Elisabetta e, principalmente para ela, a ínfima Giuliana. Depois, sempre sem parar, a rapariga contornou-o e, ultrapassando-o, fez-lhe um sinal para que fosse atrás dela. Não seria seguro conversarem naquele lugar.
Fez o que Giuliana lhe recomendara e seguiu-a sem nunca a perder de vista, mas também sempre a alguns bons passos atrás dela. Passaram a ponte de madeira que atravessava o Grande Canal por alturas das igrejas de San Jacopo e de San Bartolomeo e, pelas Calle Mazzini e Merceria, depois pela de Orologio, atingiram a inevitável Piazza San Marco, onde se cruzavam todas as rotas da urbe e onde os fiéis, àquela hora ainda matinal, se acumulavam em grande número à entrada da basílica. Terminara uma das missas da manhã e outra iria ter início. No mercado ambulante que funcionava diariamente na grande Praça havia uma forte concentração de pessoas, bem como numerosas bancas e toldos com vendedores das mercadorias mais variadas, rodeadas por compradores e alguns compulsivos curiosos, daqueles que tudo vêem e palpam, nada comprando e que são o desespero de quem vende. Havia também grupos que animadamente conversavam. Aquele denso ajuntamento era muito favorável a que ali parassem e pudessem falar com alguma segurança, pois passariam mais despercebidos entre aquela ruidosa multidão do que num local isolado. Dois jovens de sexo diferente, embora de condições sociais pouco compatíveis, não despertariam grande curiosidade. Um fidalgote estrangeiro ou um filho de ricos mercadores tentando seduzir uma campónia com belas palavras, usando para tal fim luminosos versos de Petrarca ou de Dante ou outros argumentos, de brilho diferente e mais metálico, era coisa que o Sol, na sua incessante roda, já vira milhões de milhões de vezes.
A rapariga estava emocionada por ser vista na companhia de um rapaz tão donairoso e bem trajado. Disse-lhe, com um nervosismo que tornava as suas palavras quase incompreensíveis, que o pai da jovem pela qual Lourenço parecia estar enamorado, era pessoa severa e mesmo cruel e que não seria nada prudente andar nas proximidades da sua casa. Se fosse notado, seria, no mínimo, espancado pelos criados e perseguido pela matilha de mastins que guardavam a residência. Tal já acontecera a outros pretendentes da filha do mercador, alguns filhos de gente importante. Porém, o doge sempre cobria estes desaforos do comerciante, pois, dizia-se, era seu sócio em numerosos e negócios comerciais e em obscuras actividades políticas. Ao que parece, Torriani e os seus sicários encarregavam-se da parte suja das actividades, matando e fazendo desaparecer os adversários de Barbarigo que ficava sempre isentado de suspeitas e de culpas nesses crimes. Com ar apavorado, Giuliana tremia ao descrever, com a ajuda de gestos, estas tenebrosas acções.
Para tentar acalmar a temerosa rapariga e estimulá-la a continuar a falar, Lourenço deu-lhe então uma nova e reluzente moeda como a da véspera. Disse-lhe estar disposto a correr todos os riscos, pois estava muito apaixonado – molto,moltissimo, di troppo appasionato. Que, por caridade, encontrasse uma solução que lhe permitisse estar junto da rapariga. A criada pareceu condoer-se, caridoso sentimento a que a moeda de ouro também não deve ter sido nada estranha. Após hesitar um pouco, sempre tremendo de terror, disse então que talvez tivesse uma solução para ele se aproximar da jovem. Mas que era muito arriscada e que, por nada deste mundo, o patrão devia vir a saber que fora ela, Giuliana, quem o ajudara. O que Lourenço, claro, com a sincera intenção de antes se deixar matar do que comprometer a serva, logo prometeu de mãos postas e erguendo os olhos ao céu e tomando a Virgem Santíssima como testemunha da sua honestidade. Muitas das coisas que digo, são provenientes da minha imaginação, pois meu pai, para mais falando para mim, mas sempre com minha mãe e meu irmão José escutando, embora Débora parecesse totalmente mergulhada nas contagens dos seus pontos e bordados, tinha de ser parcimonioso em certas descrições. Por isso, esta narrativa parecerá a alguns insossa e desprovida dos pícaros detalhes que até os contos tradicionais contêm. Apelo à vossa imaginação. Dito isto, prossigamos.
Giuliana explicou então qual era a sua ideia sobre a forma de o fazer entrar no palácio – uma coisa simples: naquela noite, festejando o aniversário do mercador, haveria no Palácio Torriani, como era tradição da cidade, um faustoso baile de máscaras para o qual estavam convidadas muitas das pessoas notáveis de Veneza, alguns membros do Conselho dos Dez, gente do alto clero, embaixadores e até mesmo uns senhores estrangeiros que chegariam nesse dia… Esperava-se, inclusivamente, a presença do próprio doge. Embora todos levassem mascarilhas teriam, na entrada principal, onde se situava a plataforma do embarcadouro, de ser identificados pelos guardas que possuíam uma lista com os nomes das pessoas convidadas. Quem não constasse da lista, não entrava e sujeitava-se a graves contratempos… Porém, no meio da agitação inusitada, esperava conseguir metê-lo em casa, deixando-lhe, como que por distracção, aberta a cancela de madeira por onde a vira há momentos sair. Antes da festa começar, os cães seriam presos, para não haver o perigo de morderem algum convidado, o que já acontecera em ocasiões anteriores. Passando através da cozinha, poderia, sem a ajuda de ninguém, chegar ao salão.
Não deveria chegar demasiado cedo, e explicou: a princípio, enquanto estivesse pouca gente, a vigilância seria apertada. Todas as pessoas seriam observadas com atenção. Contudo, quando a festa tivesse já começado, com os convidados espalhados por todo o piso térreo do palácio e alguma confusão se tivesse instalado, os guardas, que costumavam também à socapa ir bebendo algum vinho, iriam aos poucos abrandando o seu rigor. A rapariga, embora só estivesse ao serviço da menina há dois anos, assistira já a algumas daquelas grandes festas e, por isso, sabia bem daquilo que falava. Alguns dos ilustres hóspedes, mais atrevidos ou mais embriagados, iam sempre à cozinha buscar comida, vinho e, às vezes mesmo apalparem ou fazer propostas indecentes as criadas mais jovens, concluiu um pouco envergonhada. Dez horas seriam uma boa hora, pois seria já noite escura, disse. Nessa altura, acrescentou ainda, haveria já pessoas no jardim das traseiras, sobretudo pares fugindo às luzes do salão, em busca de intimidade… Minutos antes das dez, viria ao jardim verificar se cancela continuava encostada ou se um guarda ou criado mais zeloso não a teria entretanto fechado por dentro.
Teria de ir mascarado e não deveria aproximar-se muito da menina, pois estaria sempre a ser guardada. Talvez conseguisse passar por ela e dizer meia-dúzia de palavras – nada de grandes discursos. Se descoberto, insistiu a rapariga quase chorosa, não revelar que entrara ajudado, pois isso seria fatal para ele e, sobretudo, para ela. Talvez até a sua vida ficasse em perigo. O mercador não tolerava traições, fosse de familiares, fosse de criados. Os punhais dos seus sicários estavam frequentemente a corrigir essas faltas de afecto ou de lealdade. Garantiu-lhe que, se fosse descoberto diria que entrara por sua iniciativa, sem qualquer ajuda vinda do interior. Agradeceu e prometeu, além de um cuidado absoluto em não a comprometer, uma grande recompensa depois de ter conseguido chegar junto de Elisabetta. Tudo isto era dito em mau italiano e, por isso, ilustrado por muitos gestos, como na linguagem dos surdos-mudos. Apesar disso, tudo o que era essencial foi entendido, por um e por outro. Ficou, portanto, combinado: na manhã seguinte, quando ela fosse à missa a São Marcos, estaria à sua espera para devidamente a recompensar da grande ajuda prestada. A Lourenço não passara em claro a referência aos «senhores estrangeiros». Embora nada estivesse ganho, as coisas não estavam a muito correr mal, pois a informação ia chegando e o quadro geral do problema ia ganhando forma. Estava, em princípio solucionado o problema da entrada. A carne crua para os cães e a problemática e a escada de cinco braças seriam, pelos vistos, desnecessárias. Quanto ao punhal e à espada, sempre era melhor não deixar de os levar consigo. Os cães estavam presos.