WARREN OU A AMÉRICA DESENCANTADA – COMO É QUE UMA PEQUENA CIDADE DO OHIO PASSOU DE OBAMA PARA TRUMP – TEXTO E FOTOGRAFIAS de MARIE-ADÉLAÏDE SCIGACZ – III

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Selecção, tradução e introdução de Júlio Marques Mota 

franceinfo

Warren ou a América desencantada. Como é que uma pequena cidade de Ohio passou de Obama para Trump

Marie-Adélaïde Scigacz, Warren ou l?Amérique désenchantée – Comment une petite ville de l’Ohio a basculé d’Obama á Trump

Franceinfo, Janeiro de 2017

(CONCLUSÃO)

“TRUMP VAI SALVAR NOSSOS EMPREGOS? “A SÉRIO”?

Se quisermos ver Aaron Fischer rir em frente do vosso nariz, falem-lhe das “soluções” de Trump, o Presidente-Salvador de postos de trabalho, esperado como o Messias. Há dois anos, este jovem pai de 38 anos foi trabalhador temporário na fábrica General Motors de Lordstown, a cinco minutos de carro de Warren. No ano passado, acabou finalmente por conseguir ficar com um emprego fixo, um emprego em tempo integral.

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Aaron Fischer ri, um riso amarelo, apoiado com os cotovelos ao balcão de Ross’ Eatery, ao mesmo tempo pub e cantina para os trabalhadores do complexo GM, a cerca de alguns metros da fábrica. São 23 horas e passou para beber uma cerveja, entre colegas, depois do seu dia de trabalho. Todos fabricam o Cruze, um pequeno modelo de Chevrolet, cuja fotografia se estende em formato gigante sobre a fachada da fábrica, sempre visível desde a autoestrada que vem para Warren. Com a queda do preço do combustível e a baixa de consumo do novo SUV, os Americanos abandonaram este pequeno modelo, provocando a supressão de um dos três turnos de trabalho da fábrica de Lordstown. Este veterano da guerra no Iraque, progressista e pró-Bernie Sanders, não tem suficiente antiguidade para conservar o seu posto de trabalho. “O meu contrato prevê que me possam chamar dentro de cinco anos, se a produção retomar novamente, como foi feito após a crise de 2008. Talvez me venham a propor algo noutro lugar, em Michigan. ” Mesmo apesar de ter uma filha de 3 anos aqui, o que ele nos mostra orgulhosamente no seu smartphone, irei sozinho porque “é necessário trabalhar duro”.

Imediatamente depois o anúncio das reduções de efetivos, Donald Trump interpelou a direção de GM sobre Twitter, acusando-a de estar a deslocalizar para o México. Primeiro atingido, Aaron não encontra nenhum consolo nesta demonstração de força em linha. Antes pelo contrário.

warren-xviVi muitas pessoas dizer que era necessário darmos-lhe uma oportunidade, que era necessário tentar. Mas se não vêem nenhum problema naquilo que diz e com as pessoas que nomeia, então estão cegos”, fartar-se de rir então Aaron, antes de levar a sua mão à testa, incrédulo. Surpreende-se do que ele sente como sendo a ingenuidade por parte dos trabalhadores que votaram Trump. “A mundialização causa-nos prejuízos? Bem, sim Donald, é verdade que os Estados Unidos estão no mundo, não se pode viver somente fechados no nosso canto”, continua o antigo soldado, num tom ríspido. “Uma vez que não vão nesse sentido, tudo isto não passa de falsas notícias. Então, na situação em que encontro, espero exatamente que ele não se vai transformar num fascista”, deixa cair as palavras lentamente, engolindo uma gole de cerveja, antes de imitar grosseiramente o presidente eleito virando-se para o seu colega Corry, que se ria, divertido. Vira-se para ele e imita o fraseado tão particular do multimilionário: “ Isto vai ser enorme! Enoooorme! ” Seguidamente suspira: “Isto faz-me rir tanto.”

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Aaron Fischer, com os cotovelos no balcão de Ross’ Eatery, um bar de Warren, a 13 janeiro de 2017.

A sua amiga, Danielle Phillips, abre o bar todos os dias às 06:30, para receber os trabalhadores que vem comer qualquer coisa depois do seu trabalho no turno da noite. Esta noite, o seu riso caloroso esconde com muita dificuldade a sua angústia. Esta texana de 37 anos, instalada perto de Warren desde 2001, também perderá o seu emprego. “Mas impõe-te Dany! Pede um outro horário, assim não te deixo trabalhar! “insiste Aaron. Ele tenta animá-la, mas ela está irritada e geme: “mas para com isso! Deixa-me! Raaaaaaaaah, eu odeio a GM. Eu odeio-as. “Eu odeio o que está a acontecer!” Autêntica filha do interior, esta progressista que fustiga o “individualismo” e a “intolerância” cada vez mais em voga nestas paragens, vive numa quinta, rodeada de animais e já vendeu dois cavalos. “Tenho um enorme medo de vir a não ser capaz de me alimentar,” disse ela puxando nervosamente de um cigarro. “Para mim, se um incêndio devastar a tua quinta, toda a gente vai dar uma mãozinha. Mas agora, não é m… Mas neste caso não irão ser os meus vizinhos que me irão ajudar. Eles olham-me através das cortinas… e nem sequer se dão ao trabalho de saírem e dizerem-me bom dia, conta-nos ela, levantando os olhos para o céu . “Mesmo uma comunidade, é coisa que já não existe aqui

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Uma rua de Warren, no dia 13 Janeiro de 2017. (MARIE-ADELAIDE SCIGACZ / FRANCEINFO)

” Todos querem voltar a ter orgulho de viver aqui”

Um sentimento de abandono, um clima económico deprimido, as pessoas estão, e de uma forma generalizada, estão fartas, fartíssimas, de suspeitas de traição contra os políticos tradicionais. As razões que fizeram com que o condado de Trumbull se lançasse nos braços de Trump são muitas, mas as demográficas estão aqui bem presentes nesta viragem. Aqui, a população é branca (67%) mais do que no resto de Ohio. O nível de educação é geralmente menor do que a média do Estado. ” ‘Make America Great Again” é uma mensagem feita à medida para o povo da “Rust Belt”, “zona da indústria pesada em decadência “, referindo-se aos espaços desertos deixado pela saída das indústrias do século XX, disse Jennifer Campbell, diretor de campanha pelos democratas em Trumbull nas últimas eleições autárquicas realizadas em simultâneo com a eleição presidencial.

Especializada em relações públicas, o escritório desta mulher sempre apressada está a poucos minutos de Lordstown, em Youngstown, outrora conhecida pelo seu dinamismo e agora famosa por seu êxodo tipo relâmpago, em que a cidade passou de 170.000 habitantes para cerca de 60 000 em poucas décadas. “Aqui os antigos sabem o que significa viver numa região dinâmica e atraente. Esses dias estão agora tão longe que só a geração dos meus pais que os viveram se lembram deles, e para eles foi uma enorme dor ver a região num verdadeiro colapso “, disse a rapariga que é daqui.

warren-xviiiDo ponto de vista estritamente político, ela compreende a atração de pessoas para esta mensagem. “Trump fez a mesma campanha que Obama, em 2008, ele não disse” Nós estamos aqui para reformar “, não, o que ele disse foi: “Vamos mudar tudo”, analisa ela. Para essas pessoas, Obama não foi suficientemente longe. De toda a maneira, o seu balanço político é muito bom, mas aqui o sucesso é medido em termos de criação de postos de trabalho. Simplesmente assim, ponto final. As pessoas não estão de acordo com tudo o que Trump diz, mas colocam tudo isso de lado porque aí é o seu próprio ponto de vista. ” “Os democratas de um município como Trumbull não têm nada a ver com os democratas na Califórnia, Flórida ou do Nordeste. Eles são muito mais conservadores! Há muito democrata anti-aborto ou anti-casamento de gays, aqui “, diz Jennifer Campbell.

Deste ponto de vista, Hillary Clinton fez uma campanha desconectada localmente, diz-nos ela. Algumas semanas antes das eleições, a sua equipa financiou spots publicitários transmitidos pela estação de televisão local. A mensagem? “Trump é um inexperiente, um homem vulgar e perigoso”. Uma outra sequência mostrava o candidato em vias de gozar de um jornalista fisicamente deficiente. Enquanto isso, a campanha de Trump mostrava os imigrantes como assassinos em potência, fustigava ” Hillary, a corrupta”, mas não esqueciam os colarinhos azuis de Ohio, Pensilvânia e Virgínia. “Donald Trump preoccupa-se com os operários, porque o trabalhador fez dele o que ele é hoje,” dizia o narrador do spot. Em Warren, o trabalhador fez de facto o 45º Presidente dos Estados Unidos.

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A antiga fábrica GM_Packard de Warren no dia  12 de janeiro  de  2017.

Texto e fotos de Marie-Adélaïde  Scigacz, Warren ou l?Amérique désenchantée- como uma pequena cidade de Ohio mudou de Obama para Trump . Texto disponível em:

http://www.francetvinfo.fr/monde/usa/presidentielle/donald-trump/recit-franceinfo-warren-ou-l-amerique-desenchantee-comment-une-petite-ville-de-l-ohio-a-bascule-d-obama-a-trump_2024553.html

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Para ler a Parte II deste trabalho de Marie-Adélaïde Scigacz, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

WARREN OU A AMÉRICA DESENCANTADA – COMO É QUE UMA PEQUENA CIDADE DO OHIO PASSOU DE OBAMA PARA TRUMP – TEXTO E FOTOGRAFIAS de MARIE-ADÉLAÏDE SCIGACZ – II

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