O meu amigo “Choco”, que durante 50 anos foi operário da construção civil e agora tem uma reforma “dourada” de 289 euros, recebeu a meio de semana uma ameaça: ou pagava uma dívida de um cêntimo às “Finanças” ou seria alvo de uma penhora.
É isso que dizia a “notificação-penhora” que recebeu do carteiro quando se preparava para saborear o café da manhã, na última quarta-feira. O funcionário dos “Correios” fez a entrega da missiva com a solenidade devida a quem é portador de um documento emitido pela mui justa e zelosa Autoridade Tributária.
Entregou-o em mão, sacou da sua lapiseira, desdobrou a folha onde estavam todos os registos do dia e convidou o visado a assinar:
– Ali, a seguir áquela cruzinha.
O “Choco” assim fez.
Depois, perante a curiosidade dos seus companheiros de mesa, começou a abrir o documento pelo picotado. Como mandam as regras. Com todo o cuidado, pois isto de se receber uma “carta” das “Finanças”, quando se é pobre, é quase como entrar no “metro” e dar de caras com um saco abandonado a um canto…
Aberto o envelope, grande e cheio de palavrinhas, o “Choco” leu uma, duas, três vezes, e depois fez a revelação:
– Ou pago um cêntimo ou penhoram-me a reforma.
Depois fez a “bomba” circular de mão em mão. Para logo a seguir revelar a origem de tão expressiva dívida tributária:
– Trabalhei para estes tipos, mas a firma já acabou há muitos anos. E, pelos vistos, sobrou para mim…
“E o que é que vais fazer?”, perguntou um dos que teve o privilégio de testemunhar tão solene acto de ameaça.
– Vou pagar.
– Vais pagar…
– Vou. Levo uma moeda de dois cêntimos e pago.
– Uma moeda de dois cêntimos?
– Sim. O outro cêntimo fica lá. Assim se aparecer outra dívida igual já não precisam de gastar dinheiro com o papel da carta e o registo. É isso que lhes vou dizer.
Gargalhada geral e uma sugestão:
– Eu se fosse a ti não pagava nada. Deixava rolar…
– Deixavas rolar…
– Sim, deixava.
– Pois, deixo rolar e os tipos penhoram-me a reforma…
Diz outro dos presentes:
– A tua reforma é uma merda, mas também não é por te sacarem um cêntimo que ficas mais pobre. Ou é?
– Não, não é.
Provoca outro:
– E mesmo assim vais pagar…
Resposta pronta:
– Vou pagar. Com uma moeda de dois cêntimos. Não quero que eles gastem mais três ou quatro euros para me sacarem mais um cêntimo…
Logo a seguir levanta-se. Enfia o chapéu impermeável até às orelhas e dirige-se à porta de saída.
Pergunto-lhe:
– Onde é que vais com essa pressa toda?
– Vou às “Finanças”. Porra!
Percebo-o: o meu amigo “Choco” não quer o seu nome ao lado de todos aqueles ilustres que devem milhões e a quem a mui justa e zelosa “Autoridade Tributária” nunca encontra nada para penhorar.
” Grande amigo “Choco”-assim é que é….uma bofetada com uma luva de veludo ….adorei a decisão deste cidadão de primeira classe ….Maria â â- Onde é que vais com essa pressa toda? – Vou à s âFinançasâ. Porra! Percebo-o: o meu amigo âChocoâ não quer o seu nome ao lado de todos aqueles ilustres que devem milhões e a quem a mui justa e zelosa âAutoridade Tributáriaâ nunca encontra nada para penhorar.”