Prezado Carlos Loures
e restantes interlocutores nesta partilha de informação: Apenas há uns 2-3 anos tomei consciência de que havia uma polémica em torno da autoria da letra da canção Cantar Alentejano, que José Afonso gravou no disco “Cantigas do Maio”, de 1971. Fiquei intrigada, já que quer o disco quer o livro que reúne toda a obra poética de JA “José Afonso, Textos e Canções” referenciam a autoria de José Afonso do poema em causa. Consultei outras fontes, nomeadamente: o livro de Viriato Teles “As Voltas de um Andarilho” (2009) e o catálogo da exposição sobre a discografia de José Afonso “Desta Canção que Apeteço” (2011). Recuando um pouco mais, verifiquei que o livro Cantares, editado pela primeira vez em 1966 pela editora Nova Realidade, já integrava de José Afonso. Fiquei, então, com a certeza de que apesar de José Afonso ter gravado a canção apenas em 1971, o poema era mais antigo, o que de resto foi corroborado por Rui Pato, que afirma lembrar-se da canção antes do disco (este de 1971, estava ele a cumprir o serviço militar, já não acompanhava Zeca Afonso) e até de ter acompanhado o Zeca nessa canção algumas vezes em palco.
Assim, em páginas do facebook de que sou editora ou co-administradora, várias vezes partilhei a canção, sobretudo por ocasião do aniversário do assassinato de Catarina Eufémia, e nunca tive dúvidas em referir que a letra e a música são da autoria de José Afonso. Porém, há alguns meses, o amigo Mário Lima, que tem desenvolvido trabalho meritório na pesquisa e divulgação da obra e da vida de José Afonso, autor do blogue “Tributo a Zeca Afonso” e da página de grupo no facebook com o mesmo nome, retomou a polémica ao publicar um texto de Carlos Loures, publicado no blogue ESTROLABIO, em que afirmava que o autor da letra era Vicente Campinas. Face à informação veiculada por Mário Lima de que Carlos Loures era um dos criadores da Nova Realidade, que editara o Cantares, fiquei um tanto perplexa e voltei às pesquisas. Não estando os livros de Vicente Campinas acessíveis no mercado, recorri essencialmente ao google e constatei que a Internet está pejada de referências à canção dedicada a Catarina, mas atribuindo a autoria do poema a Vicente Campinas. Seja em blogues (como a Viagem dos Argonautas, esquerda.net, aventar…) seja na wikipedia, no sítio internet do PCP e até no da RTP, são inúmeras as referências a Vicente Campinas como autor da letra de uma das canções mais emblemáticas de José Afonso.
Mediante análise textual, eu não tinha dúvidas de que o poema era de José Afonso. Encontramos aí imagens recorrentes na poesia de JA (poderei voltar a este assunto). Além disso, abordei algumas pessoas com ligação próxima a Zeca Afonso, p. ex. Viriato Teles e a própria filha do 1.º casamento de J. Afonso. Helena Afonso foi peremptória: “Vicente Campinas está mais do que esclarecido, a letra da Catarina nada tem a ver com o poema dele, a própria Associação Vicente Campinas já elucidou isso 1000 vezes …acho que se podem dirigir a eles, em Vila Real de Santo António”. Acima de tudo, e apesar de eu não ter tido o privilégio de conhecer pessoalmente José Afonso, a sua integridade moral e honestidade intelectual não eram para mim questionáveis, como não são para nenhum de vós, pelo que já li nos contributos publicados em A Viagem dos Argonautas nos últimos dois dias. Só alguma razão de força maior (proteger V. Campinas, perseguido pela PIDE?, conforme C.Loures) poderia justificar um primeiro registo do poema no nome de outrem, embora me parecesse que faria mais sentido que a tivesse registado com a indicação de autor anónimo. Além disso, se V. Campinas estava exilado à data da publicação do livro Cantares, não seria mais perseguido por assumir a autoria de um poema. Por outro lado, a ser assim, também não seria lógico que não tivessem esclarecido o assunto após o 25 de Abril.
Enfim, a origem do “boato”, hoje tão disseminado na net, essa escapava-me. Um boato que se fossilizou num erro, repetido à exaustão, convocando a tristemente célebre frase: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Como desfazer o imbróglio? – interrogava-me.
Uma coisa tinha como certa: apesar da minha firme convicção, importava apresentar provas palpáveis no debate que se arrastou por alguns meses na página facebook do grupo Tributo a José Afonso. Eis senão quando, de repente, a propósito de outro assunto, me cai no ecrã, no passado dia 27 de janeiro, uma publicação, na página Internet da Associação José Afonso, reproduzindo o texto de uma carta de Zeca aos pais, após a sua primeira ida a Grândola, em 17 de maio de 1964, ida essa que, como se sabe, fez história, pois levou à criação da canção “Grândola Vila Morena”. Zeca Afonso conta nessa carta que lá cantou pela 1.ª vez a belíssima canção dedicada a Catarina, feita na véspera.
“Eu e a Zélia estivemos em Grândola numa sociedade operária. Aí actuámos, eu e o Paredes (o filho é ainda melhor que o pai) no meio de uma assistência atenta e compenetrada, toda ela de operários e mulheres de xaile e lenço. Ofereci-lhes uma canção feita na véspera (16-5-64), uma espécie de evocação da terra alentejana e do seu símbolo ainda vivo na lembrança do homem do povo: a Catarina Eufémia, uma ceifeira de Baleizão morta pela Guarda Republicana em circunstâncias, que forneceriam matéria para uma canção de gesta.”
http://www.aja.pt/%C2%ABo-carlos-paredes-e-um-grandalhao%C2%BB/ Para mim bastava esta prova. mas Mário Lima quis ir mais além. A suspeita, legítima, de que deveria haver um poema de Campinas dedicado a Catarina levou-o ao blogue Ephemera, de Pacheco Pereira, onde de facto encontrou a referência a duas edições do livro “Catarina” de Vicente Campinas. A 1.ª edição data de 1967, em Bruxelas, a 2.ª de 1973, uma edição para a CDE da Base Socio-Profissional dos Trabalhadores Bancários. O poema data de Maio de 1965. Donde, inclusive o poema de Vicente Campinas é posterior ao de José Afonso (que data de 1964, conforme já acima referido, embora Zeca tenha gravado a canção alguns anos mais tarde). Visualizar os docs no EPHEMERA aqui: https://drive.google.com/file/d/0B8qf4EMOlMBkYTAxNzY3ODktMTUxNy00YmFlLWE0NTctMmJiNGE2YTA3MDk2/view?ddrp=1&hl=pt_PT# Acresce ainda que na passada segunda feira, em conversa com Hélder Costa do Teatro A Barraca, que esteve implicado na ida de José Afonso a Grândola, para essa histórica actuação na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, ele recordou sem hesitação que José Afonso cantou a canção dedicada a Catarina. Por tudo o que fica dito, neste momento, e apesar de a informação errónea constar na antologia organizada por José Casanova, publicada em 2014, penso que não restam quaisquer dúvidas.
JOSÉ AFONSO É O AUTOR DA LETRA E DA MÚSICA DA CANÇÃO CANTAR ALENTEJANO. Sabemos como ele era desprendido e que provavelmente não se incomodaria nada com o assunto. Porém, o respeito que ambos (José Afonso e Vicente Campinas) nos merecem requer da nossa parte a conjugação de esforços para repor a verdade e desfazer os equívocos que grassam na Internet. Em anexo: ficheiros JPEG: capas do livro “Catarina” de Vicente Campinas (1.ª e 2.ª edições), cópia do poema; ficheiro PDF: livro ed, portuguesa (do blogue Ephemera) Com os meus cordiais cumprimentos, Anália Gomes
*Quem é Anália Gomes
Sou uma das pessoas visadas no post de C. Loures, dado ter tecido comentários no blog estrolabio.
Não sou poeta, nem música, apenas uma admiradora incondicional da obra de José Afonso, a qual tenho procurado conhecer melhor desde que se criou o núcleo de Lisboa da Associação José Afonso, ao qual aderi desde a 1.ª hora (janeiro de 2012). Profissionalmente fui professora do ensino secundário durante 22 anos, seguidos de mais de 17 de exercício de funções técnico-pedagógicas em serviços centrais do Ministério da Educação. Aprofundar o conhecimento da obra de José Afonso e contribuir para a sua divulgação é algo que faço no meu tempo livre com enorme prazer e, também, com sentido de missão enquanto cidadã. No entanto, as pesquisas desenvolvidas relativamente a este assunto não estão de modo algum enfeudadas na AJA, as “démarches” realizadas são de minha única e inteira responsabilidade.
