OS ESTADOS UNIDOS E O NEOCONSERVADORISMO – COMO É QUE O PARTIDO DEMOCRATA SE TORNOU O PARTIDO DO NEOLIBERALISMO – por ARON GUPTA – II

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Como é que o Partido democrata se tornou o Partido do neoliberalismo[1]

How the Democrats Became the Party of Neoliberalism

 ARUN GUPTA, 31 de Outubro de 2014

(conclusão)

Bill Clinton fez campanha como um “Novo Democrata” duro com o crime, fiscalmente responsável, e severo com os beneficiários do Estado-Providência. Efetivamente Clinton cumpriu a revolução de Reagan por evisceração do Estado Providência, fazendo aprovar o Tratado NAFTA, a desregulamentação das telecomunicações e no sector financeiro, e começou a aceleração a espionagem governamental, a aumentar os serviços policiais e a detenção de imigrantes. Clinton poderia satisfazer a lista de desejos da direita porque a base democrata foi condicionado a apoiar fosse o que fosse que os democratas aprovassem porque os republicanos supostamente seriam bem piores. No entanto, Clinton precisava dos republicanos necessários para fazer aprovar o Tratado NAFTA porque os democratas controlavam o Congresso. Ele retirou benefícios estatais a milhões de mulheres e crianças pobres para reforçar a sua ala direita, antes da eleição de 1996. Mas este cínico cálculo era desnecessário Clinton derrotou o fraco candidato republicano Bob Dole numa corrida que nunca esteve em dúvida. E a desregulamentação realizou-se no segundo mandato de Clinton, quando este se sentiu liberto das preocupações eleitorais

Obama repetiu o método. Ele é mais agressivo na política externa que Bush. Em 2011, antes das revelações explosivas sobre a espionagem feita pela NSA e as novíssimas guerras de Obama na Síria e no Iraque, Glenn Greenwald sublinhava que “Obama tem continuado as políticas terroristas de Bush / Cheney, políticas estas que foram violentamente denunciadas pelos democratas – da detenção por tempo ilimitado, repatriamentos, rendições (cidadãos de um país colocados em prisões secretas de outros países) prisões secretas por procuração (como é o caso, por exemplo,  da prisão secreta da CIA em Mogadishio) e apertadas doutrinas de sigilo. Ele foi mais longe que o seu antecessor em travar uma guerra sem precedentes sobre os autores de denuncias, aproveitando-se do poder para assassinar cidadãos americanos sem o devido processo e longe de qualquer campo de batalha, fazendo massivamente uma escalada de ataques por drones em várias nações, e afirmando a autoridade para prosseguir unilateralmente uma guerra (na Líbia ) mesmo em desafio contra uma votação do Congresso contra a autorização de continuar a guerra. “.

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Porque Obama está a enfrentar Partido Republicano extremamente hostil e que surge como mentalmente sem sentido, por vezes, a maioria da base democrata é complacente. O resto está a desmoralização, havendo pois pouca oposição às suas políticas de direita tal como aconteceu na era Clinton. Notavelmente, Obama tornou-se menos agressivo do que Bush em tratar o crime ocorrido em Wall Street. Mais significativo, em janeiro de 2009, dias antes da sua posse, Obama disse ao Washington Post que iria convocar uma “cimeira sobre a responsabilidade fiscal” a “reforma” da Segurança Social e Medicare. Ao invés de usar a sua vitória histórica e a maioria democrata no Congresso para obrigar a uma redistribuição progressiva do rendimento, Obama afirmou que ele desejava dizimar os dois programas que estão na base das pensões de reforma para pagar a corrupção épica de Wall Street. Se Obama tiver sucesso, e a única razão pela qual não o teve até agora é porque a direita tem sido tão agressiva nas suas exigências que ele teria destruído o que resta do Estado Providência e da base do Partido Democrata. (Clinton também tentou enfraquecer os programas de pensões de reforma nos anos noventa[1].)

Além disso, numerosos observadores, incluindo eu mesmo, apontavam em Dezembro de 2008 que não era nenhum segredo que o estímulo seria um fracasso. O plano de 800 milhares de milhões aprovados totalizavam apenas 2 por cento do PIB até 2011, enquanto a perda devido à depressão econômica tinha atingido naquela altura cerca de 7 por cento em termos de PIB. O Congressional Budget Office estimou o estímulo produzido entre 500.000 a 3,3 milhões de empregos a tempo integrais, mas mais do que 8 milhões de empregos a tempo integral terão sido entretanto perdidos e, em geral, mais de 13 milhões de trabalhadores perderam o emprego, abandonaram o trabalho ou desceram à categoria de tempo parcial involuntariamente.

O estímulo poderia ter evitado uma repetição da Grande Depressão, mas ao aplicar simples pensos para feridas em aberto Obama permitiu o direito de ver retratado o seu programa de estímulo como um fracasso e o governo como um problema. Fazendo aprovar programas do tipo de New Deal seria difícil mas Obama capitulou antes sequer de ter começado, perdendo a oportunidade de um estímulo mais forte e de uma redistribuição de rendimento mais justa.

Com Obama a escrever o crepúsculo do seu poder e da sua importância, o cursor deslocar-se no próximo ano para a corrida à Casa Branca. Os democratas permanecerão empenhados em controlar o Estado a favor dos interesses dos mais ricos e poderosos. É por isto que os democratas são verdadeiros ideólogos. Hillary pode ganhar as eleições falando à esquerda, mas uma vez na Casa Branca sacrificará prontamente a zona de influência dos democratas para se entregar verdadeiramente a realização do projeto neoliberal.

Há algumas clareiras de esperança e estas são “ o centro extremo,” de que nos fala Tariq Ali que ganharam espaço em países como a Espanha, Islândia, e Grécia e em que os partidos de esquerda se mobilizaram fortemente. Há cintilações dessa esperança nos Estados Unidos com o candidato alternativo socialista Kshama Sawant que bateu o candidato governamental dos Democratas em Seattle ou o Partido dos Verdes com Howie Hawkins a dar dores de cabeça ao governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo nas próximas eleições. Mas há um longo caminho a percorrer.

Arun Gupta contributes to outlets including Al Jazeera America, Vice, The Progressive, The Guardian, and In These Times.

Arun Gupta, How the Democrats Became The Party of Neoliberalism. Texto publicado em 31 de Outubro de 2014 e disponível em:

http://www.telesurtv.net/english/opinion/How-the-Democrats-Became-The-Party-of-Neoliberalism-20141031-0002.html

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[1] Veja nota no final do texto, sobre Clinton. Sugiro-lhe que tenha a curiosidade de confrontar esta nota, um excerto de um livro de Dean Baker-Weibroot , com os discursos oficiais sobre as pensões de reforma que se têm ouvido desde há anos. E questione então onde é que está o erro.

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Para a Parte I deste texto de Arun Gupta clique em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/02/17/os-estados-unidos-e-o-neoconservadorismo-como-e-que-o-partido-democrata-se-tornou-o-partido-do-neoliberalismo-por-aron-gupta-i/

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Nota 1 relativamente à política de pensões de reforma do tempo de Clinton:

Social Security -The Phony Crisis -Dean Baker and Mark Weisbrot

 Nós temos uma possibilidade, disse o presidente Clinton, “ de reparar o telhado quando o sol ainda está a brilhar .” Clinton falava numa conferência regional sobre Segurança Social em Kansas City, no Missouri, e isto numa altura em que a economia estava em crescimento e o Orçamento estava equilibrado .

A analogia do telhado é esclarecedora. Porém, nós podemos torná-la mais precisa. Imagine que não vai chover durante mais de trinta anos. E a chuva, quando chegar (e se é que chega), será uma chuva miudinha e pouca. E imagine que a família média terá muito mais rendimento para reparar o telhado na altura em que se aproximam as chuvas do que tem hoje .

E fique com esta certeza: a maioria das pessoas que dizem que querem reparar o telhado querem realmente é furá-lo.

Esta é a situação que enfrenta a Segurança Social, e é bem conhecida por aqueles que olham para os números. O programa coletará suficiente rendimento para manter todas as suas promessas sobre 30 anos, sem se ter necessidade de nenhuma mudança em nada. Trinta anos representam um longo período de tempo e é muito difícil pensar em qualquer outro programa que se possa reivindicar como sendo mais seguro que este para essa altura. Além disso, a previsão de uma falência em 2034 é baseada na economia que cresça ao longo do tempo à taxa de pelo menos 1.7 por cento, metade da taxa das três décadas precedentes. Se a economia fosse crescer à taxa de 1998, por exemplo, o sistema nunca funcionaria com falta de dinheiro.

Mas mesmo se as previsões cinzentas sobre o crescimento se confirmarem ser verdadeiras e o programa funcionasse eventualmente um deficit, isto não significaria exatamente o fim do mundo. Por uma razão bem simples, o sistema da segurança social estaria longe “de estar falido.” Mas mesmo que estivesse com falta de fluxos de entrada, falta de rendimentos recebidos, para manter os benefícios prometidos ainda seria capaz de pagar aos aposentados benefícios reais mais elevados do que o que estão a receber hoje. E o país geriu assim as suas obrigações no passado: a necessidade de financiamento seria aproximadamente igual à quantidade com que nós aumentámos a nossa despesa militar entre 1976 e 1986 (um período em que nós não estivemos, diga-se de passagem, em guerra).

O programa prometeu, e historicamente cumpriu, benefícios que acompanharam o aumento de salários na economia. A fim manter este compromisso, nós podemos ter que aumentar os rendimentos do sistema em algum momento do tempo. Isto colocaria uma carga imprópria sobre a força de trabalho post-2034? Muito dificilmente. Mesmo se nós tivéssemos que aumentar as taxas sobre os salários para cobrir os défices do sistema, o custo adicional dificilmente morderia no salário real médio em 2034, que estará cerca de 30 por cento mais alto do que está hoje. É preciso fazer um enorme esforço de imaginação para entender como é que será possível haver algum tipo de grande banditismo praticado pelos idosos de amanhã contra os jovens de hoje.

A verdade simples é que a nossa economia está gerar rendimento mais do que  suficiente para fornecer um nível de vida crescente para as futuras gerações enquanto satisfaz também os nossos compromissos para a segurança social. Isso é verdadeiro mesmo com as taxas de crescimento terrivelmente lentas projetadas para o futuro.

Mark Twain disse uma vez que uma mentira pode percorrer mais de meio mundo enquanto a verdade ainda está a calçar os sapatos e talvez seja difícil encontrar um exemplo tão convincente como a mentira sobre as finanças da Segurança Social. Apesar do fato que nenhuns dos números mencionados aqui sejam matéria de discussão, a população foi tão massivamente matraqueada com a ideia que a segurança social está em crise financeira que profundamente ficou a acreditar nisso. De acordo com uma sondagem de Fevereiro de 1998 feita por Peter Hart Research, 60 por cento dos não-reformados americanos pensam que a Segurança Social lhes irá pagar benefícios muito baixos ou ficarem mesmo lhes pagarem nada quando se aposentarem. A proporção é ainda maior, com 72%, para pessoas com idades entre 18-34 anos.

Ironicamente, a única verdadeira ameaça para a Segurança Social não vem de quaisquer restrições fiscais ou demográficas mas sim das agressões políticas sobre ao programa de pensões de reforma levadas a cabo pelos pretensos “reformadores”. Se não forem estes ataques, a probabilidade de que a Segurança Social “não esteja lá” para cumprir as suas obrigações para com quem quer que seja que está vivo hoje e se reforma então, esta probabilidade seria a mesma de que a do governo dos EUA “não esteja ele também lá”. O último evento é, obviamente, uma possibilidade, mas não o suficiente como probabilidade para que a maioria das pessoas planeie a sua passagem à reforma em torno dela.

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. TRAIDORES DA PÁTRIA: “Não estão fora do nosso alcance”, diz FBI sobre empresas brasileiras – ASSIM É. PAÍS SEM PUDOR!
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2017/02/18/traidores-da-patria-nao-estao-fora-do-nosso-alcance-diz-fbi-sobre-empresas-brasileiras-assim-e-pais-sem-pudor/

    “…A QUADRILHA SE ASSUME COMO QUADRILHA, SEM MEDO DE SER FELIZ!
    E O POVO QUE SE FODA!…

    …TRAIDORES DA PÁTRIA! SÓ PARA VOCÊ TER UMA IDEIA!

    Colaboração de Réus na Lava-Jato com os EUA pode virar crime de alta traição. …”

    Gostar

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