OS ESTADOS UNIDOS E O NEOCONSERVADORISMO – NEOCONSERVADORISMO E POLÍTICA EXTERNA AMERICANA, por STEPHEN MCGLINCHEY – III

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Neoconservadorismo e Politica Externa Americana 

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STEPHEN MCGLINCHEY, Neoconservatism and American Foreign Policy

E-International Relations, 1 de Junho de 2009

⌈Publicação autorizada pelo autor⌋

(CONCLUSÃO)

Continuidade ou mudança?

Com um novo Presidente em exercício desde Janeiro de 2009, Barack Obama, e a sua Administração a desejar claramente distinguir-se da do seu antecessor, mas o facto que permanece, para já, é que as guerras do Iraque e do Afeganistão continuaram – a uma escala maior em diversos sentidos – e a retórica quanto ao Irão (por exemplo) endureceu-se progressivamente apesar da disponibilidade anunciada para um diálogo construtivo com o Irão. Pode ser justo interrogarmo-nos se há muita diferença na prática entre a política de Bush e de Obama face ao Médio Oriente. Se isto pode ser atribuído a uma continuada influência ativa neoconservadora na administração de Obama é difícil dizê-lo. Contudo, considerando que a administração de Obama herdou uma tão profunda bagagem da política externa e que a força militar americana está entrincheirada nesta parte do mundo, uma inversão de trajetória seria muito mais difícil do que a continuação tácita da orientação geral da Administração anterior.

Ao manter Robert Gates à frente do Pentágono deu certamente uma indicação desta intenção. O Presidente Obama claramente não faz parte da persuasão neoconservadora, mas seguramente parece ter alguma simpatia pela lógica interna da abordagem politica praticada por Bush no Médio Oriente, ou pelo menos reconhecendo que a mudança dramática seria politicamente mais desastrosa do que a continuação do status quo. O apoio mantido para a política da democratização em curso no Médio Oriente pode provar ser o cimento que liga as duas administrações, embora estas se apresentem numa rutura semântica clara. Obama reorientou claramente o toque de trombeta deixando de se referir ao poder da democracia tal como Bush o fez frequentemente, preferindo usar termos tais como a “liberdade” e o “desenvolvimento” na sua retórica pública (Bouchet 2010). Esta é claramente uma rutura na semântica, embora não na política, similar à recusa de Obama em utilizar a expressão “guerra ao terror”, como se a guerra ao terror e o projeto americano da democratização no Médio Oriente não estejam evidentemente em perfeita continuidade.

É uma tendência frequentemente observada na política internacional que a política externa raramente muda de forma brusca e profunda. Sobretudo, a sua evolução é habitualmente lenta. O presidente Truman numa declaração que fez história, afirmou que via a política externa como estando situada acima da divisão dos partidos. Na política americana e na política da segurança nacional, as suas palavras provaram certamente, na maior parte das vezes, serem exatas. Um exemplo de referência apresentado pelos historiadores é a continuação do envolvimento americano bi-partidário na guerra do Vietname através das cinco administrações entre 1959 e 1975. Para tomar a análise da continuidade mais profunda, muitos atribuem a Ronald Reagan (o Presidente preferido dos neoconservadores) a responsabilidade de fazer crescer fortemente os gastos militares americanos e de inverter a trajetória de diminuição de forças militares em tempo de paz, o que conduziu por sua vez ao eventual estrangulamento econômico da União Soviética que não pode acompanhar a economia americana e fazer o mesmo. Na verdade, este processo foi iniciado por Jimmy Carter em 1979-1980, enfurecido pela revolução no Irão e pela invasão soviética do Afeganistão. Reagan saltou para a crista da onda e seguiu em frente o que só mais tarde lhe foi reconhecido. Similarmente, muitos atribuem a Richard Nixon a criação da estratégia “dos dois pilares ” de armar o Médio Oriente fortalecendo a Arábia Saudita, e especialmente através do Irão avançado com venda de armas sofisticadas e com a formação e treino militar para se atuar como um tampão contra a expansão para o sul da União Soviética quando os Ingleses declararam a sua retirada de cobertura de segurança do Golfo Pérsico em 1971. Contudo, este processo estava já em marcha nos anos finais da administração de Johnson, e era mais exatamente uma estratégia planeada e promovida pelo xá do Irão em 1965 [5], e não pela administração de Nixon. Um exemplo final pode ser apresentado pelo golpe levado a cabo pela CIA e pelos serviços secretos ingleses e aprovado por Eisenhower no Irão em 1953 que reinstalou o Xá como entidade suprema do Irão, derrubando o líder nacionalista democraticamente eleito, Mohammad Mosaddegh. Muitos têm atribuído esta decisão à mudança de Presidente em que Eisenhower substitui Truman, e em que a nova Administração tem sido largamente considerada como uma Administração que aplicou uma política externa muito mais agressiva. Contudo, uma análise cuidadosa dos documentos que foram desclassificados revelou que durante a Administração Truman a CIA teve um papel muito ativo no Irão sendo responsável por muitas operações aí desencadeadas, sugerindo muito mais que houve uma política de continuidade do que uma mudança na política (Marsh 2005).

Assim, é frequentemente fácil acreditar em alterações de política externa devidas a uma mudança de liderança, mas isto é raramente exato, e desafia a força de agregação que a política externa tem através das diversas administrações e mesmo através dos diversos partidos. Todos os anteriores exemplos esclarecem não somente as mudanças na Administração, mas também as mudanças no partido que esteja no poder, seja ele Democrata ou Republicano, destacando-se a facilidade na comparação com que uma determinada política externa pode ultrapassar o faciosismo partidário. No caso de Obama, este herdou uma política externa que estava a ser aplicada com forte envolvimento americano (momentum) no Médio Oriente e em que ele escolheu supervisiona-la em vez de a parar, tal como descartou cuidadosamente a expressão “Guerra ao Terror”, ainda que o legado geral de Bush na região permaneça intacto, o que é certamente uma pílula amarga difícil de engolir para todos aqueles que votaram pela “mudança” em novembro de 2008. Em nenhuma outra parte isto pode ser mais visível do que no exemplo de Irão enquanto este continua a aproximar-se do domínio completo do ciclo nuclear, com desprezo pelos desejos inabaláveis dos americanos e dos israelitas.

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, recentemente sublinhou que a América sob Obama não tinha mudado em nada relativamente à América de Bush na sua aplicação da política externa no Médio Oriente. Obama não fechou Guantanamo Bay apesar da promessa de que o ia fazer, Obama não alterou a recusa americana em admitir um programa nuclear “civil” iraniano verdadeiramente independente, e não mudou em nada o decorrer da situação grave no Afeganistão nem no Iraque. Similarmente, deu sempre o seu apoio incondicional a Israel – o demónio frequente no discurso interno iraniano em relação à América, foi amplamente mantido, embora com algumas qualificações. Tais indicações são naturalmente verdadeiras, apesar da sua fonte impopular. Passando por cima da aparência amigável e da retórica da conciliação da Administração de Obama, o Prémio Nobel da Paz, e considerando a sua recusa em utilizar o termo Guerra ao Terror, isso não diminui em nada a realidade de que, no que se refere à política do Médio Oriente, nada de diferente foi feito, nada de importante mudou. O facto indiscutível é que sem dúvida o homem de Estado “eleito” mais conhecido do mundo apontou para este elefante na sala mas isto não significa que deva ser ignorado.

A perseverança da persuasão

O Neoconservadorismo não percebeu exatamente o poder militar americano, o poder da democratização, ou a recusa por parte da população mundial, em aceitar, antes pelo contrário, a sua persuasão ideológica no meio de tão convincentes factos a mostrarem o inverso e, particularmente porque as coisas correram muito mal no Iraque e se tornaram profundamente graves. Parece-nos estarmos bem longe de representar o ato final no fim da história, a persuasão neoconservadora provocou uma crise de legitimidade no sistema global. O poder americano é considerado já não como legítimo por muitos, e o júri está ainda muito por fora da questão de se saber se a onda da euforia que circula em torno da eleição de Obama ganhará realmente alguma força a longo prazo para reparar os prejuízos. A base do poder normativo e jurídico das Nações Unidas foi gravemente atingida com a invasão de Iraque e o Irã não capitulou numa vaga de dominós democráticos, como era esperado, conduzindo a um receio das populações de que as atuais ações americanas no Médio Oriente poderão realmente desencadear um conflito de civilizações.

Tendo isto sido dito, talvez surpreendentemente, a administração Obama está a continuar amplamente a política externa de Bush, o legado deste no Médio Oriente, inspirada nos neoconservadores, apesar da personalidade de Obama ser mais multilateral e mais diplomática na política internacional e apesar também do seu desejo de ser claramente visto como sendo bem diferente do seu antecessor. A persuasão neoconservadora não resiste bem em sentido ideológico amplo, mas a sua abordagem geral, como se tem evidenciado na aplicação da política externa, tem resistido melhor. A abordagem neoconservadora da democratização aplicada no Médio Oriente através da intervenção militar, para moderar o terrorismo na área e para tratar com o Irão formou já, e de forma decisiva, o núcleo central do pacote de política externa de Obama – em tudo a ser a continuação da Administração Bush. Dificilmente haverá qualquer coisa de significativo que em sentido prático vá mudar e o braço-de-ferro contínuo sobre a proliferação nuclear de Irão mostrou isso mesmo aos olhos de toda a gente. Barack Obama pode ter começado a sua Presidência com a intenção de levar a cabo uma estratégia regional diferente daquela que foi seguida por George W. Bush, o que parecia muito claro nas relações iniciais com o Irão, mas a previsível beligerância e a advertência feita pelo Irão de que pretendia continuar com o seu programa nuclear conduziram rapidamente o novo Presidente a retirar a mão que tinha estendido para se criar um diálogo construtivo e a reiniciar uma abordagem da política externa em nada diferente da de Bush.

Obama não é um neoconservador; mas a história pode, talvez surpreendentemente, registar as suas ações como fazendo parte de uma larga continuação da lógica da Guerra do Terror (embora com outro nome uma vez que Obama se recusa a usar esta expressão) na prossecução do plano neoconservador para o Médio Oriente.

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[5] See: Telegram from the Embassy in Iran to State. Tehran, December 29, 1965. Foreign Relations of the United States, 1964-68, Vol. XXII, Iran.

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References

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Ver o original em:

http://www.e-ir.info/2009/06/01/neo-conservatism-and-american-foreign-policy/

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Para ler a Parte II deste trabalho de Stephen Mcglinchey, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/02/28/os-estados-unidos-e-o-neoconservadorismo-neoconservadorismo-e-politica-externa-americana-por-stephen-mcglinchey-ii/

 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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