CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – THE ENTERTAINER (Peça em Um Acto e três espectáculos).

 

 

O Papa vem aí, não tarda. Embora diferente dos outros todos, a sua cultura religiosa e mediática está-lhe no sangue e Fátima não pode escapar-lhe. Era o que faltava.

Recordo neste meu texto, com ternura e com saudade, a vinda do sinistro e entretanto desvanecido e desatualizado Ratzinger (de que já ninguém se lembra, nem a beatagem) a Portugal em 2010 e do show por ele dado e transmitido pelas televisões, na Praça do Comércio.

Um must.

Carlos

 

Interessante peça esta, levada à cena em primeira mão em Lisboa e a repetir nos respectivos teatros municipais do Porto e de Fátima. Tratou-se de uma espécie de versão moderna e mais actualizada da Cantora Careca, deixando no entanto a perder de vista, em termos de encenação e desempenho, a peça original do Ionesco. Não leram? Não viram? Não faz mal, ninguém do público a deve ter lido ou visto tão pouco, o que é que isso interessa?

Que dizer? A personagem principal, melhor, muito melhor que o Diácono Remédios (por vezes até como uma espécie de Mike Jagger ou outros rockers, com direito a esgares e a primeiros planos, em ecrans gigantescos) o padralhame, muito concorrido e bem marcado, com enormes golas de um amarelo vivo, a fazer lembrar os saudosos e extintos eléctricos da Praça do Comércio, dando a todo o certame uma luminosa cor local, os media sempre atentos e venerandos, cheios dos habituais sorrisos e tiques, desta feita recheados de fervor e fé, os seguranças, os polícias, tudo excelente em termos de movimentos de cena. E O Povo, claro, unido, pois como de costume jamais será vencido (umas vezes nas revoluções, outras vezes nas homilias) – alguns 80.000 na plateia, mais 200.000, espalhados pela Geral, ou seja, pela Baixa, vertical e transversal. Esta peça brecthtiana pressupunha naturalmente uma fantástica participação popular e naquele espaço não só se discutia a eucaristia da vida e outros mistérios, como também se serviam comes e bebes. Hóstias não faltavam, embora já em regime de fast-food e servidas de pé infelizmente –  sinal inequívoco dos tempos.

(Em Fátima a bilheteira vai, com certeza bater records de plateia, meu Deus, quem me dera lá poder estar).

Mas ainda assim, aqui, em Lisboa, a performance foi notável. A interpretação foi excelente, a empalidecer outras, mesmo a do actor Laurence Olivier, no filme do mesmo nome, “The Entertainer” (podem ir ao Google, espécie de Bíblia mais recente, que está lá tudo, até mesmo o quinto ou o sexto segredos de Fátima). Não creio que algum dos fieis os conhecesse, quer ao filme quer ao actor, pelo que nada disto tem qualquer importância.

A missa acabou bem, quase como naqueles filmes da nossa vida e todos foram felizes. O Papa, como uma espécie de benzodiazepina de enorme alcance, espectro e semi-vida, acalmou e benzeu toda aquela multidão em uníssono. Infelizmente a frase clássica do “Deixai vir a mim as criancinhas” do S. Mateus, foi omitida, por motivos óbvios. Há no entanto uma certeza íntima de que o Papa ganhou, mesmo que moralmente como antes se dizia, pois o Benfica, que esteve melhor em termos de participação (200.000 fieis) e golos, não se lhe comparou. Os jornalistas, a Fátima Campos Ferreira, o José Alberto de Carvalho, os políticos, o Sócrates, etc., todos estiveram sublimes, nos lugares comuns e na hipocrisia. Apenas O Povo – há que referi-lo, é uma constatação – apenas o Povo foi genuíno, igual a si próprio, na sua inocência, na sua beatice, no seu obscurantismo.

Acabada que foi esta primeira representação, de uma curta série de três, o Papa, que nunca tirou o capacete nem o fato de ganga, desde que ali chegou, enfiou-se, lesto, no seu todo-o-terreno, uma espécie de conversível modesto e envidraçado, espécie de cápsula de ficção científica barata, o Papamóvel (ou Batmóvel, ou Ratmóvel, ou lá que é) e arrancou pela Rua da Prata acima, em bom ritmo, a uns vertiginosos quinze ou mesmo vinte quilómetros por hora. Na Av. Da Liberdade, onde inexplicavelmente não havia problemas de trânsito, o Papa (por certo já completamente doido de fome – nem uma hóstia lhe calhou, é incompreensivel) acelera por ali acima, faz o Marquês do Pombal em duas rodas, ultrapassa audaciosamente os semáforos vermelhos e os peões que tinham sobrado da festa do Benfica e vai cortar a meta em primeiro, na Rua Luís Bívar, com direito a um pratinho de peixe frito e arroz de grelos, além de um tinto cortado por uma gasosa.

Aliás, o Papa sempre almoçou e jantou em casa, é de uma sobriedade e frugalidade a toda a prova. Ou talvez afinal não tivesse direito a ajudas de custo, quem sabe.

Seja como for. O homem torna-se assim um sério candidato ao Óscar da Academia – bom actor, convincente, pouco exuberante mas rigoroso, verosímil, competente, enfim. Um final realmente feliz seria ele vir a casar com a Nª Senhora de Fátima, depois de uma súbita e ofegante explosão de amor entre ambos. Não deve no entanto tal ser possível, atendendo à diferença de idades. E depois pareceria um pouco incestuoso, dada a relação, ainda assim misteriosa, entre ambos. Mas era giro, pois seriam felizes para sempre, teriam com certeza muitos anjinhos e pastorinhos e assim.

Ah, viesse a haver uma grandiosa Grande Noite do Fado, no Coliseu, este fim de semana e ela seria completa e perfeita! O Poder esfregaria as mãos de contente ainda com mais e maior entusiasmo. O país dos três inevitáveis e clássicos efes seria assim realmente igual a si próprio. E o Botas, de lá de onde está, sorriria cinicamente, com aquele sorriso escasso e medíocre que todos lhe conhecemos.

Até parece que foi ontem.

Carlos, Maio 2010

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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