CRISE DA DEMOCRACIA, CRISE DA POLÍTICA, CRISE DA ECONOMIA: O OLHAR DE ALGUNS ANALISTAS NÃO NEOLIBERAIS – 2. PARADOXOS EM MACROECONOMIA E A MODERNA ECONOMIA POLÍTICA (6ª PARTE – CONCLUSÃO), por HEINER FLASSBECK

Selecção, tradução e dedicatória por Júlio Marques Mota

Paradoxos em macroeconomia e a moderna economia política (6ª Parte – Conclusão) – A contribuição de Wolfgang Stützels para uma economia racional

Heiner Flassbeck

(CONTINUAÇÃO)

Conclusão

Wolfgang Stützel foi um economista liberal. Defendeu a economia de mercado sempre que considerava adequado defendê-la. Contudo, diferentemente de muitos economistas liberais modernos na Alemanha, isso nunca o impediu de consistentemente pensar e analisar a economia como um todo ou mesmo de rejeitar todo o pensamento económico[1] [quando o considerava desadequado pelas suas hipóteses]. Só uma teoria económica que faz dos fundamentos lógicos da economia a base da sua construção teórica pode pretender responder aos problemas da economia de mercado. Só uma ciência económica que estabelece as suas construções teóricas com base nos fundamentos lógicos da economia pode afirmar o que é que é válido no domínio da economia de mercado. Empunhar a bandeira do liberalismo e infringir a lógica macroeconómica global, ou ignorá-la mesmo, como foi magistralmente explicado por Stützel com a sua relação mecânica dos saldos setoriais[2], é caminhar para à falência científica. Há muita gente disposta a fazê-lo agora, porque caso contrário eles sentir-se-iam obrigados a opor-se à aplicação da “lógica” do pensamento único, do pensamento do mainstream microeconómico, tal como se expressa no mundo dos empresários e dos seus representantes.

Isto não está, obviamente, na moda na Alemanha. Quem, nas suas análises e recomendações, se aproxima mais daquilo que os políticos ignorantes, os empresários e os gestores, todos eles submetidos ao cálculo microeconômico, defendem como sendo em termos de política económica (eliminar como) o mais correto, pode esperar então as maiores recompensas pecuniárias e não-pecuniárias. Todo aquele que se recusa a esta venda intelectual como o fez antigamente Wilhelm Lautenbach e aqueles que pensavam como ele, é suspeito desde o início de não confiar no mercado e de defender soluções estatais, [ou seja é acusado de tendências esquerdistas]. É por isso que a maioria das discussões sobre a política económica se realizam num espaço pré-científico e são, portanto, subtraídas a toda e qualquer crítica fundamentada no raciocínio macroeconómico. Para remediar esta situação, deve-se acabar com a discussão incidindo sobre a ideologia de mercado como oposição ao Estado e deve-se retomar o debate sobre os fundamentos lógicos da economia. Por outras palavras, nem as guerras religiosas nem os debates teóricos podem ser fecundos, se não se começar por colocar primeiramente as suas bases lógicas.

Isso não significa que a mecânica dos saldos setoriais seja tudo; mas na verdade não haja nenhuma dúvida de que não há nada em macroeconomia que dispense a ferramenta que é a análise permitida pelos saldos sectoriais. A mecânica dos saldos setoriais torna-se uma ferramenta extremamente valiosa para a economia, tanto quando ela é a base da teoria do crescimento do rendimento, como é o caso em Keynes, Kalecki e Kaldor, mas também em Schumpeter, Lautenbach e Stützel[3]. Não é exagero dizer que uma teoria dinâmica da formação do rendimento só pode merecer este nome se esta tem como base as relações entre os saldos sectoriais e os contextos subjacentes. Somente aqueles que consideram que o aumento da poupança das famílias conduz à redução da poupança das empresas [ou seja, a diminuição dos lucros] e que o aumento da despesa pública ou do saldo externo pode aumentar a capacidade de poupança das empresas [ou seja, o aumento dos seus lucros] pode avançar com uma teoria sobre a poupança, que pode também ser chamada de teoria do investimento. Apenas aqueles que dominam a teoria do investimento, podem assumir posições que sejam verdadeiramente válidas sobre o funcionamento de uma economia de mercado e que não a descrevem num tempo abstrato algo teórico mas permitem, isso sim, uma interpretação adequada do sistema ao qual devemos a nossa prosperidade.

Flassbeck: Preise, Zins und Wechselkurs – Zur Theorie der offenen Volkswirtschaft bei flexiblen Wechselkursen. Wirtschaftswissenschaftliche und wirtschaftsrechtliche Untersuchungen des Walter Eucken Instituts (23), J.C.B. Mohr (Paul Siebeck) Tübingen 1988.

Flassbeck : Die deutsche Vereinigung – ein Transferproblem. Vierteljahreshefte des Deutschen Instituts für Wirtschaftsforschung, 3/1995.

Flassbeck: Und die Spielregeln für die Lohnpolitik? – Über Arbeitnehmereinkommen und Wettbewerbsvorsprünge einer Volkswirtschaft in der Europäischen Union. Frankfurter Rundschau vom 31.10.1997.

Giersch: Der lachende Dritte, in: Wirtschaftswoche Nr. 39, 1997.

S. Homburg: Kapitaldeckung als praktikable Leitidee, in: Rentenkrise. Und wie wir sie meistern könne Publikationen des Frankfurter Instituts – Stiftung Marktwirtschaft und Politik 1997, S.61–85.

Korsch: Der Stand der beschäftigungspolitischen Diskussion zur Zeit der Weltwirtschaftskrise in Deutschland. In: Ramser/Timmermann/Wittmann (Hrsg.): Der Keynesianismus, Springer Verlag, Berlin, Heidelberg, New York 1981.

Lafontaine: Wo ist der lachende Dritte?, in: Wirtschaftswoche Nr. 43, 1997.

R. Langhammer: Handel kostet keine Jobs, in: ZEIT vom 16.3.2000.

W. Lautenbach: Zins/Kredit und Produktion (hrsg. von W. Stützel), J.C.B. Mohr (Paul Siebeck) Tübingen 1952.

Sachverständigenrat zur Begutachtung der gesamtwirtschaftlichen Entwicklung, Jahresgutachten 1996/97.

W. Stützel: Einleitung des Herausgebers, in: W. Lautenbach: Zins/Kredit und Produktion, J.C.B. Mohr (Paul Siebeck) Tübingen

W. Stützel: Volkswirtschaftliche Saldenmechanik – Ein Beitrag zur Geldtheorie, 2. Auf, J.C.B. Mohr (Paul Siebeck) Tübingen 1978

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[1] Assim no início dos 50 já se discutia a questão ideológica moderna, se a desemprego era “cíclico” ou “estrutural”, e sobre isso escreveu Stutzel: um tal conflito de definição seria irrelevante, se não nos dissessem de novo, e de novo, apontando-nos o dedo que não existe nenhum problema «econômico» para a solução do qual seja necessário aplicar a abordagem macroeconómica (também dita a abordagem teórica de circuito). (P. 11) Uma tão “moderna” citação escrita no ano de 1952 prova melhor do que muitos argumentos de como é constantemente necessário o pensamento macroeconómico para evitar conceções da economia profundamente erradas

[2] Veja-se W. Stützel: Volkswirtschaftliche Saldenmechanik – Ein Beitrag zur Geldtheorie, 2. Aufl., J.C.B. Mohr (Paul Siebeck) Tübingen 1978.

[3] N.T. O leitor imagine a minha sensação ao ler isto pela primeira vez, uma vez que não faz parte da edição francesa, e foi lido três dias depois de escrever a nota número

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Para ler a 5ª Parte deste trabalho de Heiner Flassbeck, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clicar em:

https://aviagemdosargonautas.net/2017/03/19/crise-da-democracia-crise-da-politica-crise-da-economia-o-olhar-de-alguns-analistas-nao-neoliberais-2-paradoxos-em-macroeconomia-e-a-moderna-economia-politica-5a-parte-por-heiner-flas/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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