Eu acho extremamente interessante que amigos meus – pessoas naturalmente com uma formação de Esquerda, como eu – confiem, aplaudam e depositem secretas (ou até menos secretas) esperanças nas pessoas. Na populaça. No chamado e indefinido Povo, uma coisa em que eles (ainda e continuadamente) acreditam, ou parecem acreditar.
Eles pensam (ou fingem pensar) que o Povo é uma massa própria, íntegra, revoltada e pronta a segui-los ou a quaisquer outros diligentes dirigentes condutores da classe operária (ou campesina, ou pescatória, ou de serviços, ou de outra merda qualquer) uma vez que esse povo – que tanto adoram e promovem – nem sequer deles, intelectuais de Esquerda, precisa, já que é quem mais sabe e mais ordena.
Ou ordenha.
Eles (os meus amigos) contradizem-se – incólumes e acima de toda a suspeita, ainda por cima, como se nada fora.
Ah, é? E porquê?
Simples. Porque estão rodeados uns do zoutros (e isso é óptimo, é aconchegante. é acolhedor) há um inter-apoio intelligentsial e tácito que os sustém e sustenta, há (até) o Partido Comunista Português, indelével, incomensurável, inodoro e invariável, de há quarenta anos a esta parte.
As pessoas (o povo, o tal) metralharam e metralham aldeias, crianças e hospitais. Aldeias inteiras, crianças inteiras e hospitais inteiros. Matam que se fartam, em Hiroschima, Vietnam, Síria, Líbia, À-dos-Cunhados, Angola, Moçambique e Guiné. Tão natural como ir ao supermercado, regar a horta, ver da vindima.
(Sei do que estou a falar, ó teóricos da merda, pelo menos em Angola estive).
As Direitas estão populares como nunca, graças a Deus. Alemanha, Holanda e França, uma maçada, um perigo para eles e para os bem pensantes da Esquerda básica, que até “respiram de alívio” porque a Extrema Direita não ganhou na Holanda, que bom – graças a Deus, talvez?
Ah, ah, ah! Como se fossem “os maus” a decidir.
Esta Esquerda, do carago e da incongruência, bate palmas a cada vez que o (seu) povo lá vota menos reaccionariamente que o esperado e o costume.
Esta Esquerda, do carago e da incongruência, bate palmas a cada vez que as Direitas ou as Ultra-Direitas não ganham o Poder – são capazes de ir a Fátima, sabe-se á, já estou por tudo.
Esta Esquerda, do carago e da incongruência, bate palmas só porque o Partido ganhou as autárquicas na Vidigueira e em Vale de Vargos, em 1978.
Esta Esquerda, do carago e da incongruência, bate palmas, mesmo a afogar-se na merda em que acredita, mesmo a afogar-se na mentira em que finge acreditar, mesmo a afogar-se naquilo que nunca fez ou tentou (honestamente) fazer: explicar, provar, promover as ideias, as realidades, enfim. Ao recém-nascido e pindérico povo pós 25 de Abril.
E sempre sem conseguir que uma maioria do povo se portasse bem, como mandam as Escrituras. Azar do catano.