EDITORIAL – «O saudoso tempo do fascismo»

 

O  argonauta e querido Amigo Hélder Costa, deu a um seu livro o título que hoje pedimos emprestado para o editorial – O saudoso tempo do fascismo.  Naturalmente que neste interessante livro de memórias, Hélder Costa não manifesta saudade do fascismo – revela, sim, saudade da juventude, pois pertencemos a uma geração que, para além de todos os atributos, da falta de experiência, comum a todos os jovens, tínhamos uma causa a defender – acabar com a guerra, com a exploração desenfreada, com a falta de liberdade – temos saudades de uma juventude que, (ao contrário da RTP Memória) era a cores e a cores bem vivas; um espaço onde havia lugar para o amor, para a música e cultura em geral e, para muitos de nós, para a luta contra a opressão. Hoje, às 21:30, na Biblioteca do Grémio Literário de Vila Real, faz-se o lançamento da edição fac-similar da Antologia de Poesia Contemporânea de Trás-os-Montes e Alto Douro, integrada na colecção Setentrião e organizada por Carlos Loures em 1967.

É uma antologia com nomes respeitáveis, Alguns (caso de Miguel Torga, Afonso de Castro, António Borges Coelho, Domingos Monteiro, eram já nomes firmados e havia mesmo casos de poetas que, à data do lançamento, tinham já produzido o essencial das suas obras. Outros, como Eduardo Guerra Carneiro, queriam fazer uma poesia em cujos versos brilhasse o sol esplendoroso de uma liberdade que sonhávamos redentora; mal sabíamos que a par dos que cantavam essa liberdade, havia os que sonhavam com as «liberdades» – mas nesses anos sessenta estávamos todos irmanados na ilusão de que a queda do fascismo traria a solução dos problemas que vivíamos – a guerra, a miséria, o exílio. Foi há 50 anos. A poesia era uma arma.

E lutando contra o fascismo e contra tudo o que ele significava para a Nação, sobrava-nos tempo para amar, para cantar, para ser felizes – porque lutar por uma causa justa dá sentido à existência. Mal sabíamos que os torcionários da policia política, os colonialistas, seriam substituídos por «democratas» que roubam sem pudor e dão à democracia a dimensão de um espaço onde tudo se pode fazer.

É preciso lutar contra esses canalhas, reles ladrões despudorados, que a coberto de cargos se permitem transformar a democracia num bordel onde vale tudo.

Talvez daqui a quarenta ou cinquenta anos, um outro Hélder Costa escreva um livro a que dê o título O saudoso tempo dos empreendedores.

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