
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Porque é que a bolsa Americana sobe, sobe, sobe

Jean-Luc Gréau, Economista francês, Wall Street, y a un loup!, Pourquoi la bourse américaine monte, monte, monte
Revista Causeur.fr, 21 de Fevereiro de 2017
Texto cedido pelo diretor da revista Causeur e pelo seu autor. A ambos aqui deixamos os nossos agradecimentos.
Como é possível estar o índice das ações dos EUA a subir muito mais rapidamente que os lucros? Este milagre tem um nome, ” buyback -recompra”, de ações, uma versão financeira do doping.

Enquanto Obama cedia o poder a um muito improvável Trump, os media estabeleciam o legado económico e social do Presidente cessante. O elemento mais positivo desse balanço foi o aumento da riqueza per capita: este aumento é de metade do seu valor de pico atingido em 2008, antes do terremoto financeiro! Mas isto é um enigma. Porque os preços dos imóveis estão, eles, apenas ligeiramente superiores ao seu anterior valor de pico.
Resta ainda falar do preço das ações cotadas na Bolsa. O índice S & P 500 ultrapassa o valor de 2 200. Este estava em 1.400 no verão de 2008. Mas o S & P (equivalente ao nosso CAC 40) é o índice mais representativo da bolsa americana. Este índice as 500 maiores empresas, o mesmo é dizer que representa o grosso da economia americana, quando sabemos que essas empresas também são clientes e fornecedores de outras empresas. Não devemos olhar para mais longe para termos nas mãos a chave do enigma.
Mas tanto a resposta é formalmente justa, tanto ela levanta uma série de outras questões. Porque o aumento de cerca de 60% do valor das ações cotadas em Bolsa se acompanha de um aumento de 11,5% do PIB e de um modesto aumento de 4% no PIB per capita, enquanto a evolução dos lucros frustram as expectativas. Daí a poder considerar a subida dos valores de mercado das ações um fenómeno de antecipação ou um fenómeno de exuberância irracional, há apenas um passo a dar. Um passo que não deve ser ultrapassado. A inflação no valor das ações é o resultado de um doping mecânico, sob a forma de recompra de ações- buybacks – decididas pelas administrações das empresas sob a pressão quotidiana dos seus grandes acionistas.
Uma grande inovação financeira
Por detrás destes quarenta últimos anos, teríamos o embaraço da escolha: a titularização, que permite aos banqueiro-credores revender os seus riscos duvidosos sobre o mercado, os CDO que permitem misturar os cupões e maus créditos, os CDS que permitem assegurar-se contra a insolvência dos credores, a flexibilização das restrições quantitativas sobre a criação monetária, o que permitiu retirar milhares de mil milhões de dólares, euros e libras esterlinas em empréstimos que circulavam sobre o mercado do crédito. Mas, no ano de graças de 2017, são os resgates de ações que mereceriam talvez a palma de ouro. Por assim dizer, é um tema sobre o qual praticamente ninguém diz nada, com exclusão dos meios de comunicação social económicos especializados como é o caso do Financial Times e The Wall Street Journal. O fenómeno, massivo na sua dimensão[1] é, no entanto, central na experiência neoliberal.
De que se trata, então? As empresas cotadas têm doravante a faculdade, no conjunto do mundo ocidental, de utilizar os seus lucros não para investir ou para aumentar o volume de emprego mas para comprar de novo uma fração do seu capital aos seus próprios acionistas, o que faz automaticamente aumentar as cotações. Ter-se-á compreendido: são os fundos de investimento que aqui são principalmente visados. Dêem-se dois exemplos recentes. O primeiro sobre a HP , o produtor informático que sucedeu à Hewlett-Packard: HP têm anunciado ao mesmo tempo a supressão de 3.000 postos de trabalho sobre três anos e um resgate de ações de cerca de três mil milhões de dólares. Boeing, em seguida, que “emagrece o mamute ” em cada ano que passa: Boeing vai proceder um resgate de ações de 14 mil milhões de dólares, superior às despesas de desenvolvimento do último produto da firma, o 777X[2].
Nestas condições, o famoso Teorema de Schmidt[3] – os lucros de hoje são os investimentos de amanhã que geram os empregos de depois de amanhã – é uma pura ironia. A verdade da bolsa contemporânea é oferecida por um novo axioma: os lucros de hoje são recompra de ações hoje e a riqueza dos acionistas hoje.
Empobrecimento das empresas, o enriquecimento dos acionistas,
Aos olhos de um liberal clássico, o resgate das ações é semelhante a uma descapitalização. A empresa paga em dinheiro as ações no mercado acionista. Essas ações são então colocadas numa conta especial da empresa e neutralizadas a fim de proibir aos dirigentes dessas mesmas empresas exercerem os direitos de voto inerentes a estas ações! Mas o truque mágico, porque há sempre um, é que isto enriquece os acionistas. Para eles, é um aumento do capital contabilístico, nos seus balanços. Se Marx voltasse a estar entre os vivos, ele teria desanimado perante um tal fenómeno de acumulação de capital, que já não tem a sua origem na “fábrica[4]”, na produção, mas sim no bolso dos acionistas, que seria forçado a rever a sua análise para admitir a realidade de um capital contabilístico e não de um capital constituído por bens físicos….
As “recompras” deve ser consideradas como a realidade mais saliente de uma experiência neoliberal conduzida em nome da ‘livre iniciativa’ para melhor a base das exigências dos acionistas irresponsáveis. Mas estas “recompras” têm o singular mérito de camuflar que o preferido ratio do mercado de ações – a relação do preço da ação aos lucros da empresa – já não significa nada!
A coisa é das mais simples. Partamos do princípio de que as sociedades cotadas adquiriram ao longo dos anos, um terço das suas ações previamente emitidas – estimativa razoável, na ausência de estatísticas oficiais. O índice «price earnings ratio» reduziu-se mecanicamente por um terço ! Como esta relação se situa agora em 21 no mercado de Nova York, vemos que sem o doping das recompras, um valor igual ou superior a 30 seria sinónimo de colapso da bolsa…
A finança, é o meu inimigo
Proibidas pelos códigos comerciais, as recompras foram sendo gradualmente permitidas em ambos os lados do Atlântico. Na França, a luz verde foi dada numa lei apresentada em 1998 por Dominique Strauss-Kahn, ministro de Lionel Jospin que, reconheçamo-lo, nunca se proclamou inimigo da finança 5. Uma finança que não teve servidores mais zelosos, mesmo mais estilizados, do que nos meios elitistas da esquerda.
No leque dos candidatos à Presidência, encontrar-se-á alguém com suficiente coragem para enfrentar os predadores das finanças, de outro modo que não seja apenas por palavras? Gostaria de expressar o desejo de um ano de 2017, que finalmente desloque as linhas da política nacional.
Texto disponibilizado diretamente pelo autor e pelo diretor da revista onde foi publicado, a revista causeur, disponível só para assinantes. Clicar em:
http://www.causeur.fr/bourse-etats-unis-trump-obama-42739.html#
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