SINAIS DO FOGO – “o que resta de Deus” e dos autores vitimados pelo lixo tóxico – por SOARES NOVAIS

 

Editado em 2014, o livro “o que resta de Deus – uma história de desencantos” só agora chegou às minha mãos. É um daqueles livros que se lê de uma assentada. Pela história com gente dentro que conta e por esta nos ser contada em belíssima prosa poética. “o que resta de Deus”, de António M. Oliveira, é um filme sobre o país que somos.

Declaração de interesse: António M. Oliveira e eu somos amigos antigos. De mais de 30 anos. Conhecemo-nos quando ele era jornalista na RTP e eu no Record. Por um largo período jantavamos juntos, todas as quarta-feira, num velho e excelente restaurante do Porto, que sucumbiu à ditadura da moda gourmet.

Reencontramo-nos agora. E durante largas horas colocamos a conversa em dia. Revisitamos amigos comuns e lugares de peregrinação. Depois, antes de regressar a Braga, onde vive, António M. Oliveira ofereceu-me um exemplar de cada um dos quatro livros que publicou até agora: “nunca mais tenho flores à sexta-feira”; “Pedra d’Água”;”9 contos menos mais 1”; e este “o que resta de Deus – uma história de desencantos” de que aqui falo.

Comecei a ler nessa noite e encantei-me logo com as primeiras cenas do filme contado por António M. Oliveira. Pela beleza poética da sua prosa e pelo facto de cada um dos seus quatro personagens poder ser qualquer um daqueles que “eu amo e que eu entendo” para aqui usar uma expressão tão querida a José Carlos Ary dos Santos.

A leitura de “o que resta de Deus”, além de ter contribuído para “salvar a minha vida” por um largo período de tempo, voltou a colocar na ordem do dia uma questão que atormenta todos aqueles que escrevem ao arrepio da moda ditada pelos gurus da festança & do estridente;

– bem como as editoras que são asfixiadas pelos grupos que enchem as prateleiras dos hipermercados com lixo tóxico embrulhado em forma de livro.

Agustina Bessa-Luís é uma das suas mais recentes vítimas. Mas outras há. Prosadores e poetas que os grupos editoriais negam ao público que se recusa a ler a merda produzida pelos figurões que os canais televisivos vendem. Em sinal aberto e em sinal fechado.

A tempo: Faz hoje dois anos que o actor Leandro Vale morreu. Tenho muitas saudades do meu Leandro. Tantas que, amiúde, vou até à Estação de Campanhã para conversar com ele. Entre a sua chegada de Torre de Moncorvo e a sua partida para Lisboa…

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Paula Reis

    Yes. Lixo Tóxico.
    Devia ser proibido lançar livros que são uma porcaria mas cujos autores são filhos, primos, etc das figuras gradas cá do burgo. Revistas sobre saude também. Anda toda a gente maluca, a perorar sobre medicina e depois nem sabem o que é o pH, por exemplo.
    Faz nervos. Há dias andava muito triste a julgar que a Margaret Atwood não era lida. Afinal tem os livros esgotados. Alguém fala nisso? Ou na sua vertente de ensaísta?
    Não há gente capaz de ler um livro e de o avaliar ANTES d ir parar às livrarias? E a escrita?
    ´´E u pavor. Indicativos em vez de Conjuntivos, pontuação à inglesa, excesso de pronomes pessoas e de contracções de proposições com pronomes, de mais confundido com demais por que confundido com porque. Já não consigo ler nada sem estar com uma caneta a emendar e a desabafar.

    OBRIGADA pelo artigo! Que venham mais.

    Gostar

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