
Somos um povo condenado, desde a fundação da nacionalidade, a ter de viver, do nascer ao morrer, sob o domínio dos clérigos católicos e, mais recentemente, também dos pastores das igrejas do dízimo (10% do salário ou da reforma), pago mês após mês, ano após ano. O que fez, continua a fazer de nós um povo infantilizado, incapaz de viver sem tutores, sem deusas, deuses, nossas senhoras, santas, santos de altar, e sem chefes. Ainda não somos nascidos e já aqueles que vêm a ser as nossas mães e os nossos pais, tiveram de requerer e pagar bem pago ao clérigo-pároco, imposto à população da freguesia onde elas ou eles residem, a autorização para se casarem. É o chamado casamento canónico, imposto, desde 1940 pela Concordata entre a Igreja-Estado do Vaticano e a Nação-Estado português. A Constituição da República bem diz que somos um Estado laico. Só que vem depois a Concordata falar mais alto do que a Constituição, que, para isso, ela continua aí em vigor, como se ainda vivêssemos em 1940, um dos anos mais terríficos do fascismo de Salazar. E não é que, apesar de já vivermos no terceiro milénio, ainda continuamos a ter orgulho, em vez de vergonha, de casar pela igreja, a pretexto de que o casamento civil e a união de facto não são casamento a sério. Como se a seriedade de um acto nosso dependesse, não exclusivamente de nós e da nossa consciência, mas de uma lei ditada por clérigos que, para cúmulo do ridículo e da vergonha, são proibidos pela sua própria igreja católica romana, de casar!!!
Somos, desde a fundação da nacionalidade, um povo impedido de crescer de dentro para fora em Liberdade, autonomia. Durante séculos, fomos servos da gleba, condenados a ter de trabalhar a terra que era dos bispos e administrada pelos seus funcionários párocos, todos celibatários à força e a fazer filhos nas mulheres dos outros, com a agravante de nem sequer poderem perfilhá-los, mesmo que quisessem. A estúpida e pérfida Lei do celibato tem, na sua génese, a preocupação de fazer crescer o património eclesiástico. Casar e ter filhos, era ter herdeiros. E, com herdeiros, lá se ia o património eclesiástico católico que hoje é, porventura, o maior do mundo. Basta ver que todas as igrejas e capelas, basílicas e santuários, residências paroquiais e paços episcopais são propriedade do Estado do Vaticano. A que se juntam todos os conventos e mosteiros de todas as ordens religiosas masculinas e femininas, bem como todas congregações-empresas missionárias. As populações de cada região suportam os custos das construções e os Estados, como o português, por força da Concordata, contribuem com significativa percentagem do total do custo orçamentado e, depois, a administração e o título de propriedade dos imóveis são dos clérigos e para-clérigos da paróquia, da congregação religiosa, da Misericórdia, da diocese. Por isso, da Igreja-Estado do Vaticano e do seu papa. O que leva os próprios chefes dos Estados comportarem-se perante o papa como seus vassalos.
Depois de dois mil anos de domínio cristão das mentes-consciências das populações, através dos clérigos e para-clérigos, ainda não somos, ateus e agnósticos incluídos, totalmente sujeitos e senhores dos nossos próprios destinos. A pressão social é tão grande, que até as novas gerações que querem ver-se livres deste “demónio” clerical, esbarram no peso da tradição, na relutância por parte das mães e dos pais, das avós e dos avôs. E porque não querem andar nas bocas do mundo, acabam por avançar para o casamento canónico que, em consciência, começaram por recusar. Para evitarem conflitos entre famílias, acabam a fazer cedências, sem terem a noção de que, ao agirem contra a sua própria consciência, cometem pecado. Cujo tem o terrível condão de matar o eu-sou que cada uma, cada um de nós é, único e irrepetível. As consequências de tamanha traição não se fazem esperar e são todas más. Ao deixarmos de ser aquele eu-sou único e irrepetível, para sermos mais uma, mais um entre os demais, tornamo-nos progressivamente paus-mandados, na posição de carrascos, se postos em lugares de chefia, de capacho, se integramos as maiorias em cada sociedade.
Dói muito continuar a ver, neste início do terceiro milénio, mães e pais jovens que, sem quaisquer escrúpulos, decidem, levados pela inércia, baptizar as filhas, os filhos, sem se aperceberem que, com isso, estão a entregá-los e às suas vidas na história ao domínio dos clérigos, eles próprios, as maiores vítimas dos diversos cristianismos religiosos e seculares. O baptismo traz com ele o catecismo e as aulas de catequese, ministradas por seres estranhos que lhes vão perverter as indefesas mentes, muitas vezes, de forma irreparável. O catecismo, por sua vez, arrasta com ele a missa semanal, as festas sem festa dos pai-nossos e das comunhões-passagens-de-modelos, o crisma sob a presença-presidência do bispo, o clérigo mais sinistro da diocese, o casamento canónico e, no final, o enterro presidido pelo clérigo local ou da zona. Quando todo o Religioso é descriador do Humano, inimigo do Humano. Como tal, tem de ser expulso de nós como um demónio. Nunca acolhido-praticado.
Se há coisa que mais custa ver, neste início do terceiro milénio, é que mesmo depois de morrer as pessoas tenham de suportar a presença do clérigo eclesiástico que mais não é do que um estranho, um intruso, um mercenário, em tudo semelhante ao dono da Funerária que, qual abutre, vive dos cadáveres que os seres humanos que somos sucessivamente deixamos, ao expirarmos-darmos o nosso definitivo sopro que é tudo o que essencialmente somos, corpos-sopro, por isso, definitivamente viventes e invisíveis. Um proceder assim é a máxima expressão do infantil. Se até para levar a sepultar ou cremar o cadáver de alguém, requeremos a presença abutre do clérigo e do cangalheiro, damos a máxima prova do infantil que foi todo o nosso viver histórico. E, se a isto, ainda juntamos rezas, missas bem pagas de corpo presente, de sétimo dia, de mês e de aniversário, em vez de serem os nossos familiares e amigos a tratarem do cadáver que deixamos, mostramos que tratamos pior o cadáver dos nossos familiares e amigos, do que o cadáver dos cães e dos gatos que, durante anos, tivemos como companhia.
Acordemos. Somos terceiro milénio. Como tal, sem mais necessidade de tutores de nenhuma espécie. Muito menos de clérigos e de cangalheiros. Assumamos os nossos viveres-morreres nas próprias mãos. Veremos como o nosso viver de cada dia é muito mais saudável, alegre, criativo, canto, dança, vasos comunicantes, relação maiêutica, recíproco cuidado, numa palavra, Liberdade, Cultura, Humanidade. Por isso, clérigos nunca mais! Até porque é muito mais saudável vivermos sem eles do nascer ao morrer.

Gostei muito do que li padre Mário mas, se não escreve explicitamente, enquanto a sua sanidade mental lho permite, e não regista em cartório, que não quer clérigos abutres a fazer as exéquias fúnebres do seu corpo, pode crer que eles, quais caçadores de almas, o farão e ainda afirmarão que o padre Mário se “converteu” à hora da morte. É ver o que fizeram ao poeta Guerra Junqueiro.
Achei o seu artigo excelente!